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PROCESSO-CONSULTA CFM Nº
4.275/07 – PARECER CFM Nº12/07
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INTERESSADO:
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Agência
Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa
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ASSUNTO:
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Auto-hemoterapia
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RELATOR:
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Profº
Dr. Munir Massud
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EMENTA
Este parecer se refere ao procedimento
denominado de auto-hemoterapia, acerca do qual a literatura disponível é
criticamente analisada. Seguem-se conclusões pertinentes a essa análise.
Para a sua formulação, este parecer acata que a Medicina atual fundamenta
seu saber em resultados de hipóteses genuinamente testadas, em resultados que
se repetem, em evidência enfática, razão, experiência e ceticismo e que
compreende um processo contínuo cujas atividades fundamentais são observar e
descrever fenômenos e tirar conclusões gerais a respeito deles, integrar novos
dados com observações organizadas que foram confirmadas, formular hipóteses
testáveis baseadas nos resultados dessa integração, testar essas hipóteses sob
condições controladas reprodutíveis, observar os resultados desses testes,
registrando-os de maneira não-ambígua e interpretá-los claramente e buscar
ativamente a crítica dos participantes.
PROLEGÔMENOS
De acordo com os dicionaristas
Houaiss e Vilar (2001), a auto-hemoterapia [gr. autos
‘mesmo’ + gr. haîma ‘sangue’ + gr. therapeía ‘cuidado,
atendimento, tratamento de doentes’] corresponde ao tratamento de certas
doenças pela
retirada e nova
injeção do sangue
do próprio paciente.
O mesmo
significado é admitido no DORLAND’S
ILLUSTRATED MEDICAL DICTIONARY: treatment
by reinjection of the individual’s own
blood, que define também auto-hemotransfusão (autohemotransfusion) como the withdrawal of a small amount of venous blood and reinjection
directly into the same individual. Esses dois
vocábulos também
são assim
definidos por
Aurélio B. H. Ferreira (1999), mas O Stedman's Medical
Dictionary (2000) a eles não se
referem.
A auto-hemoterapia,
de acordo com o que se depreende da literatura, compreende vários procedimentos
distintos. Dentre estes podem ser incluídas a readministração do sangue
estocado do próprio paciente e a administração intravenosa de sangue
extravasado para a cavidade pleural, que não são objetos deste parecer. Outras
modalidades de auto-hemoterapia descritas na literatura consultada são:
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Auto-hemoterapia
propriamente dita
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Sangue retirado da veia e administrado no músculo, sem
qualquer adição de substância ou tratamento com radiação.
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Auto-hemoterapia
ocular (subconjuntival)
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Administração subconjuntival de sangue retirado da veia do próprio paciente para tratamento de
queimaduras oculares.
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Tampão
sangüíneo peridural
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Sangue retirado da veia e administrado por via peridural.
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Auto-hemoterapia
com sangue submetido à ação de certos agentes
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Sangue retirado da veia e submetido à ozonização ou à
irradiação UV, administrado por via intramuscular, intravenosa ou por
infiltração.
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Assim,
o que se conhece como auto-hemoterapia parece compreender a retirada de sangue de
um paciente, que é nele administrado por via intramuscular, intravenosa,
subcutânea, tópica ocular ou peridural após receber ou não tratamento com
radiação UV, ozônio ou outro agente. Devem receber a mesma designação outros
procedimentos, nos quais o sangue do próprio paciente, extravasado ou estocado,
é nele próprio administrado.
O
procedimento que mais dúvidas suscita na atualidade, a ser discutido
detalhadamente, será designado neste parecer, indiferentemente, pelas
expressões “clássico” ou “propriamente
dito”. Tal procedimento, de maior antiguidade, bem
mais conhecido,
também chamado de auto-hemotransfusão, corresponde
à retirada de pequena
quantidade sangue por via intravenosa e
administrado na mesma pessoa por
via
intramuscular, com a pretensa finalidade, alegada por alguns dos seus
defensores, de “estimular o sistema
imunológico” ou de atuar como
“vacina autógena”, visando ao fim das
contas tratar ou prevenir infecções e também tratar diversas doenças, in anima nobili, de etiopatogenias
distintas.
Pesquisa
sobre autohemotherapy em base de dados MEDLINE/PubMed (National Library of Medicine),
em 20 de julho de 2007, indicou 91 publicações de 1950 até a atualidade (ver anexo
1). As mais recentes versam sobre auto-hemoterapia com ozônio,
sendo a mais atual a de Biedunkiewicz, Lizakowski, Tylicki et al. (2006). As indicações mais antigas, referentes à
auto-hemoterapia ‘clássica’ ou “propriamente dita”, como neste parecer se
convencionou chamar, datam de 1950 (Mariotti; Reddick; Fruhauf; Haferkamp;
Serane; Rojas), dos quais nem abstracts
podem ser obtidos. Há referências leigas obtidas na Web de publicações mais
antigas, sem que se possam obtê-las. Essas publicações mais antigas referidas
nesses sites datam do início do
século XX. No entanto, foram coletadas
cinco referências de publicações da década de 1930, via Archives of Medical
Research [http://www.sciencedirect.com/
science/journal/01884409]: os artigos, três deles datando de
1935, um de 1934 e um de 1932, se referem ao uso da auto-hemoterapia em estados
alérgicos (asma, anafilaxia e urticária). Foram eles:
1. An enquiry into the value of
autohemotherapy in juvenile asthma : Maddox,
K., and Back, R. F.: Arch. Dis. Child. 10: 381, 1935
Journal of Allergy, Volume
7, Issue 6, September 1936, Page 637
2. An inquiry into the value of
autohemotherapy in juvenile asthma: Kempson,
M., and Black, R. F.: Arch. Dis. Child.10: 381, 1935
Journal of Allergy, Volume
7, Issue 2, January 1936, Page 200
3. Autohemotherapy
in the treatment of bronchial asthma : Maddox, K., and Back, R.: M. J.
Australia 1: 277, 1935
Journal of Allergy, Volume
6, Issue 5, July 1935, Page 513
4.
Anaphylaxis
and autohemotherapy : Rother, C.: Zentralbl. f. Chir. 60: 1336, 1933.
Journal of Allergy, Volume
5, Issue 3, March 1934, Page 329
5.
Urticaria—Etiology
and treatment, with special reference to
autohemotherapy: R. M. BALYEAT AND E.M. RUSTEN, OKLAHOMA CITY.. (Abstract)
Journal of Allergy, Volume
4, Issue 1, November 1932, Pages 70-74
Nenhuma
diretriz Nacional ou internacional sobre essas condições, oriunda das
especialidades de Alergia, Imunologia e Pneumologia, incluem a auto-hemoterapia
como recurso terapêutico. Tais trabalhos, mesmo que se revelassem favoráveis ao
procedimento, não foram replicados ou corroborados .
Das 91 indicações
da base de dados
referida (ver anexo),
26 não estão escritas
em inglês, senão nos idiomas dos países
em que
foram publicadas: 3 em polonês,
6 em russo, 7 em
alemão, 1 em
chinês, 3 em espanhol,
2 em francês,
e 4 em italiano.
Desses 91 artigos,
apenas 39 apresentam abstracts disponíveis
e 18 estão em idiomas não identificados pela
fonte. Sete
dos 39 artigos com
sumário/abstracts em
inglês, foram publicados na íntegra
em idiomas
diferentes. Apenas 29 estão redigidas em língua
inglesa, tendo sido publicados em 15 revistas
diferentes. Destas, 8 estão incluídas na
relação de periódicos
da CAPES (www.periodicos.capes.com.br). São elas: Archives of Medical Research, Journal of
Alternative and Complementary Medicine, Medical Hypothesis, Mediators of
Inflammation, Artificial organs, Free Radical Biology & Medicine, Clinical and
Laboratory Haematology, Revista
Cubana de Enfermería.
TAMPÃO
SANGÜÍNEO PERIDURAL
O procedimento denominado “tampão sangüíneo peridural” (TSP) consta da injeção
de sangue autólogo no espaço peridural
para tratamento
de cefaléia refratária
(p.ex. após tentativas feitas com a administração
com paracetamol, AINE, gabapentina, ou com a infusão intravenosa de líquido,
etc.), em conseqüência de anestesia
raquidiana. Tal cefalalgia parece relacionada à redução da pressão
intracraniana, provavelmente devida à perda de líquido
cefalorraquídeo (LCR) através da perfuração das meninges.
A magnitude da perda
de LCR está relacionada com as dimensões
das lesões produzidas pelas punções, sendo mínima
quando se trata
de agulha de fino
calibre (Oliveira
Júnior, 2007; Weil, Gracer e Frauwirth,
2007; Imbeloni e Carneiro, 1997). A técnica
consta da administração de sangue,
retirado do próprio paciente, por injeção peridural
(Safa-Tisseront, Thormann, Malassine et al., 2001). O mecanismo
através do qual a administração de sangue faz cessar o vazamento, parece ser a
formação de um coágulo ao nível da laceração meníngea. No entanto, o efeito
sobre a cefaléia pode envolver outros mecanismos. Existe uma literatura relativamente ampla acerca do tema “tampão sangüíneo
peridural”, publicada inclusive em revistas
reconhecidas internacionalmente, notadamente vinculadas à anestesiologia. Uma pesquisa na base
de dados PubMed/Medline sobre “epidural
blood patch”, como já mencionado,
produziu 576 referências.
Uma revisão sistemática deste procedimento realizada pela base de dados Cochrane de revisões sistemáticas (Sudlow e Warlow, 2003) concluiu que:
" At present, except in the context
of a randomised controlled trial, we believe that epidural blood
patching should be reserved for exceptional cases only (such as)
post-dural puncture headache complicated by subdural hemorrhage or
disabling headache after one week or more."
Um crítica favorável em relação a este
procedimento é feita por Paech (2005), talvez a mais recente, cujas referências
bibliográficas são apresentadas no anexo 2.
Uma busca na Revista Brasileira de
Anestesiologia sobre o tema tampão sangüíneo peridural resultou em apenas um artigo
(Silva et al, 2003), onde dois outros do mmsmo periódico são citados, na
introdução do qual os autores afirmam:
“Com o
advento das agulhas de fino calibre para anestesia subaracnóidea, diminuiu
muito a incidência de cefaléia pós-punção da duramáter 1, permitindo
inclusive que a técnica seja indicada para pacientes ambulatoriais 1,2.
No entanto, a complicação ainda ocorre, podendo a mesma ser intensa e
incapacitante. Nesses casos as medidas convencionais como repouso no leito, hidratação,
administração de antiinflamatórios e analgésicos podem não apresentar
resultados satisfatórios, fazendo com que a opção pelo tampão sangüíneo
peridural seja cogitada 1. O método tem mostrado eficácia que,
segundo alguns autores, pode chegar a 98% 1. Na literatura nacional,
um estudo mostrou a eficácia do método em 60 parturientes que apresentaram
cefaléia pós-raquianestesia (agulha 7 - 21G), cujo tratamento foi feito com
tampão sangüíneo peridural (10 ml) com remissão dos sintomas em todas elas 3”.
1.
IMBELLONI LE, CARNEIRO ANG - Cefaléia pós-raquianestesia: causas, prevenção e
tratamento. Rev Bras Anestesiol,
1997;47:453-464.
2.
BELZARENA SD - Bloqueio Subaracnóideo, em: Cangiani LM - Anestesia
Ambulatorial, São Paulo, Atheneu, 2001;231-248
3.
PEDROSA GC, JARDIM JL, PALMEIRA MA - Tampão sangüíneo peridural e alta
hospitalar precoce: análise de 60 pacientes portadores de cefaléia
pós-raquianestesia. Rev Bras Anestesiol, 1996;46:8-12.
AUTO-HEMOTERAPIA COM SANGUE TRATADO POR ALGUM AGENTE
QUÍMICO OU FÍSICO
Outros
procedimentos designados como auto-hemoterapia constam da administração de sangue venoso submetido à ação
de algum agente químico ou físico (ozônio, radiação ultravioleta, etc.), por
via intravenosa,
intramuscular ou subcutânea.
Destes, o método mais
usado, denominado em língua inglesa de Ozonated
autohemotherapy (O3-AHT) ou,
aproximadamente, auto-hemoterapia com ozônio, consta da administração de sangue
ozonizado por via intravenosa
(AHT Major),
por infiltração ou
por via intramuscular (AHT Minor), de acordo com Gracer e Bocci (2005). Neste contexto,
a auto-hemoterapia é utilizada para
a administração de ozônio, um
‘fármaco’ com
pretensa ação terapêutica
benéfica, notadamente sobre doenças
degenerativas crônicas, alguns transtornos
imunológicos (Di Paolo, Gaggiotti e Galli, 2005) e processos
infecciosos resistentes (Biedunkiewicz,
Tylicki, Racho net al. 2004). Na técnica
de auto-hemoterapia (AHT) major com ozônio, 50 a
100 mL de sangue são
retirados do paciente, misturados a uma dose de ozônio-oxigênio de concentração
predeterminada e então devolvido pelo mesmo cateter intravenoso ao paciente. Na AHT Minor,
10 mL de sangue venoso
é administrado por via
intramuscular, após ozonização. Uma técnica chamada
ozonização e oxigenação extracorpórea de sangue (Extracorporeal
blood oxygenation and ozonation ou EBOO) tem permitido
a administração de sangue
ozonizado por circulação
extracorpórea (Di Paolo, Gaggiotti e Galli, 2005; Gracer e Bocci, 2005). Outras
vias de administração
de ozônio
têm sido empregadas, até mesmo por meio de
insuflações retais, como
assinalam Hernandez Rosales et al.
(2005). Para
Tilicki et al (2003), a auto-hemoterapia com
ozônio é
usada como
uma abordagem médica
complementar
no tratamento de transtornos
vasculares, como a
isquemia aterosclerótica
dos membros inferiores,
embora outras doenças
tenham sido abordadas por essa terapia. Di Paolo, Gaggiotti e Galli (2005), assinalam
que a EBOO apresenta grande potencial
em pacientes
doença arterial periférica
grave, doença
coronariana, cholesterol embolism,
dislipidemia grave, doença
de Madelung e surdez súbita de origem
vascular. No entanto,
relatos isolados dão conta do uso
desse procedimento em outras doenças, inclusive asma (Hernandez Rosales
et al., 2005). Há escassos relatos na literatura de uma modalidade de auto-hemoterapia na qual
o sangue é irradiado com raios
ultra-violeta. (Kadiev, Alekseev, Novitskaia et
al., 1990; Lur'e, Alekseev e Kadiev, 1986). A auto-hemoterapia
com ozônio não parece ser procedimento de mesma índole do que aquele onde simplesmente
se retira sangue
da via intravenosa
para administrá-lo no músculo.
Neste caso a discussão
crítica deveria incidir
sobre efeitos
e conseqüências da ozonização do sangue, o que não parece pertinente neste parecer. É descrita também a proloterapia com
sangue ozonizado (Gracer e Bocci, 2005).
Fica evidente que
esses procedimentos são distintos em face de seus pretensos mecanismos
de ação. Na ozonioterapia
por auto-hemotransfusão, o agente terapêutico é o ozônio, que deve ser reconhecido, então, como um fármaco,
visto que é a substância ativa do procedimento terapêutico em apreço.
OZONIOTERAPIA POR AUTO-HEMOTRANSFUSÃO
Escassos
ensaios clínicos
de ozonioterapia por auto-hemotransfusão
apresentaram resultados positivos, como
o de Di Paolo, Bocci, Salvo et al.
(2005), que compararam a EBOO com prostaciclina no tratamento
de doença arterial periférica.
Embora nenhum
parâmetro de permeabilidade arterial
tenha se modificado, eles relataram melhora das lesões
cutâneas, alegando que deveria haver um mecanismo diferente para justificar tal ação visto que não foram demonstradas alterações na circulação arterial. Um
outro estudo
clínico com
resultados positivos,
mas apenas
com 2 casos
arrolados, foi o de De Monte, Van der Zee e Bocci (2005). Um
ensaio clínico
envolvendo 10 pacientes hemodializados com claudicação intermitente,
não controlado e não
randomizado, também forneceu dados positivos,
segundo Biedunkiewicz, Tylicki, Nieweglowski
(2004). Um trabalho
polonês, de Paradysz et al. (2002), dá conta, em abstract, de um
estudo em
122 crianças portadoras de refluxo
vesico-ureteral, tratadas com
auto-hemoterapia intravesical endoscópica versus
terapia conservadora, concluindo que a eficácia
da AHT na eliminação do refluxo bilateral de alto grau foi comparável àquela obtida com
2 anos de tratamento
conservador. O artigo
na íntegra está escrito
em polonês. Outro estudo
com escasso
número de pacientes,
dá conta de alívio
de sintomas de isquemia
de membros inferiores
em 5 pacientes
hemodializados e 7 sob diálise peritonial tratados
com ozonioterapia (Tylicki, Niewglowski,
Biedunkiewicz et al., 2001).
A análise das informações disponíveis nos permite concluir que:
1.
As indicações da
auto-hemoterapia com ozônio
são muito
diversificadas e o número de trabalhos cientificamente orientados que amparam a utilização clínica dessa terapia
é insignificante. Os estudos sempre
apontam resultados positivos
e não foram devidamente replicados.
2.
Considerando o Nível de Evidência Científica
por Tipo
de Estudo (Oxford Centre for
Evidence-based Medicine, 2001), não
existem trabalhos com
força de evidência
científica elevada.
Dos ensaios clínicos
disponíveis, apenas
um apresenta, possivelmente, grau de recomendação
B [Paradysz et al., 2002]. No entanto este estudo não é corroborado por
nenhum outro
trabalho que nos foi possível
coletar.
3.
Na auto-hemoterapia major com ozônio, a análise crítica
deve incidir sobre
o ozônio e não
sobre a administração
intravenosa de sangue
por si
mesma, notadamente, quando
o procedimento é realizado com hemodiálise e os estudos
realizados sempre visaram a ação do ozônio e não do sangue.
4.
A variedade de indicações é muito
grande e cada
uma deveria ter um
acervo de evidências
oriundas de ensaios clínicos
com força
de evidência clínica
elevada. Na verdade
o que nos
foi possível recolher
constitui uma quantidade insignificante
de estudos para indicações muito amplas.
5. Não existe qualquer artigo
sobre esta terapia
em revista
de renome internacional
ou considerada pela
comunidade científica
como sendo de elevado padrão científico (fator de impacto elevado).
6.
Indicações diversas incluindo doenças de etiopatogenia tão díspares nos
leva a supor
trata-se tal modalidade
terapêutica de uma panacéia .
Isso é corroborado pela
ausência absoluta
de estudos em
uma quantidade significativa
sobre cada
indicação e pela
ausência de interesse
de publicação em revistas
de elevado padrão científico.
Enfim,
essas constatações conduzem
inevitavelmente à conclusão de que a ozonioterapia por
auto-hemotransfusão não apresenta evidências confiáveis de sua
efetividade em seres
humanos, ao menos
que possa ser
deduzida de análise da literatura
disponível indicada pela
base de dados
mencionada.
AUTO-HEMOTERAPIA PARA QUEIMADURAS OCULARES
Lenkiewicz,
Ferencowa e Szewczykowa (1992), apresentam os resultados
gerais da auto-hemoterapia
subconjuntival de queimaduras térmicas e químicas
em 940 olhos
concernentes a 734 pacientes.
Concluem os autores que
os resultados obtidos confirmaram que a auto-hemoterapia subconjuntival aplicada juntamente com
vasodilatadores é um método muito valioso no tratamento
de queimaduras oculares. O abstract não
oferece mais informações acerca da metodologia utilizada, embora
embora seja afirmado ter sido arrolado um
grande número
de observações. Parece evidente que o estudo não foi
controlado e nem randomizado. Não foi possível obter o trabalho na íntegra, pois está escrito em russo e publicado em
periódico sem
qualquer repercussão internacional (ver
bibliografia).
Como as lesões oculares
curam espontaneamente, podendo apresentar
ou não complicações infecciosas ou de outra índole, com variados tipos de conseqüências,
os estudos não-controlados e
não-randomizados dessa natureza
apresentam baixo nível
de evidência científica.
Em face do grande número de observações positivas, o que indica um resultado a
ser considerado como um bom início de efetividade, não encontramos outros
trabalhos semelantes em pesquisa na base de dados mencionada.
Enfim, este estudo não permite uma
conclusão acerca da efetividade do procedimento referido, fato que desautoriza
o seu uso na prática clínica, ao menos no Brasil.
AUTO-HEMOTERAPIA PROPRIAMENTE
DITA
Apenas
um artigo sobre este tema específico (Grebnev e Shumkii, 1995), foi encontrado
na base de dados já mencionada, com exceção das cinco referências de
publicações da década de 1930, via Archives of Medical
Research [http://www.sciencedirect.com/
science/journal/01884409], já citadas.
Grebnev
e Shumkii (1995), em periódico soviético,
relatam a melhora de pacientes com estomatite herpética
crônica com
auto-hemoterapia magnética
e afirmam ter demonstrado uma tendência
à normalização de alguns parâmetros da imunidade
celular e humoral em pacientes assim tratados. Este trabalho, publicado há
12 anos na Rússia, não
foi analisado no original e, portanto, não é
possível determinar
o seu nível
de evidência. É improvável que este
estudo tenha tido algum impacto no Ocidente
em face
do idioma em
que está publicado, da precária distribuição
internacional da revista
em apreço
e da ausência de publicações sob o tema.
Pelo que
consta no abstract, o controle utilizado nesse ensaio
foi de pacientes tratados
com a forma convencional de auto-hemoterapia, a qual é objeto
de questionamento. Na verdade, o que pretenderam seus autores foi mostrar
a superioridade de sua
técnica de auto-hemoterapia magnética sobre
a auto-hemoterapia convencional.
Assim,
não foi possível obter
estudos confiáveis e com força de
evidência científica elevada que
indiquem ser a auto-hemoterapia propriamente dita um
procedimento efetivo e seguro. O que existe em abundância é uma propaganda na Internet em
linguagem inadequada à ciência, às vezes
vulgar, desprovida
de cultura científica,
que pretende convencer
pela dramaticidade de relatos de casos isolados sobre uma grande variedade de
enfermidades e de estudos carentes de metodologia
científica.
O que
se dispõe para avaliação são
alguns documentos
que se tornaram públicos
(disponíveis Internet) e aqueles que são apresentados na “juntada”
de documentos entregues ao CFM.
Um destes documentos é da autoria de
José Felippe Júnior que, em
essência, se refere à teoria
da Infecção Focal, a qual exalta, mas que não é objeto
deste parecer. No entanto,
ao expor o tratamento
para as doenças
sistêmicas pretensamente provocadas por reação orgânica a foco
de infecção, cita a auto-hemoterapia como recurso terapêutico, sem
fazer qualquer
análise crítica, assinalando, porém, que
“É difícil
encontrar trabalhos
indexados sobre o uso
de auto-hemoterapia, mas que este
procedimento já foi utilizado nas seguintes condições,
com sucesso
estatístico ignorado por nós”. Cita,
então, uma lista
de 37 doenças pasíveis de tratamento pela auto-hemoterapia. A lista
de enfermidades, grupos de enfermidades e transtornos diversos tratados com sucesso pela
auto-hemoterapia, segundo o articulista, chega
a incluir enfermidades
de patogenia tão
díspares como
o alcoolismo, glaucoma,
epilepsias, hipertensão
arterial, úlcera péptica,
esclerodermia, doença de Crohn, esclerose
múltipla, DPOC, doenças pancreáticas e
tantas outras. Não
há neste documento qualquer
referência a trabalhos
científicos bem
elaborados que amparem o uso da auto-hemoterapia no tratamento
das doenças referidas.
Outro documento é da lavra do Dr.
Luiz Moura, que consta de uma exposição didática da auto-hemoterapia, iniciando por
uma definição do procedimento, seguida
de sumário, histórico
e ação terapêutica.
Uma
apresentação em vídeo existe e foi assistida pelo parecerista, onde o Dr. Luiz
Moura, disserta sobre auto-hemoterapia em linguagem simples. Tal vídeo pode ser
obtido em http://esclerosemultipla.wordpress.com/2007/04/20/em-ah/
e é possível que exista em outros sites.
Nesta apresentação, o Dr. Dr. Luiz Moura afirma que os resultados da
auto-hemoterapia nas doenças auto-imunes, como
lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatóide e outras, é “muito bom”.
Defende o preclaro
colega que
a auto-hemoterapia é um recurso terapêutico
de baixo custo,
simples, que
se resume em retirar
sangue de uma veia
e aplicar no músculo
do mesmo paciente.
Afirma que esse
procedimento estimula o sistema retículo-endotelial,
qudruplicando os macrófagos em todo organismo.
Informa ainda
o Dr. Luiz Moura que
a técnica consiste na retirada
de sangue de uma veia
do braço, comumente da prega do cotovelo,
na quantidade de 5 mL a 20 mL, na dependência da gravidade
da doença a ser tratada, aplicando, então,
por via
intramuscular, no braço ou região glútea.
Este
procedimento, diz Dr. Luiz Moura, eleva
o número de macrófagos durante cerca
de 7 dias, passando de 5% a 22% em 8 horas, assim permanecendo por
cinco dias,
e declinando nos 2 dias
seguintes para
valores normais.
Lembra que a volta a normalidade se dá quando não mais existe sangue
no músculo.
De grande
interesse é a sua
informação de que
foi o ilustre cirurgião