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PARECER Nº 1889/2007 CRM-PR

PROCESSO CONSULTA N. º 91/2007– CI N.º 23/2007- CODAME

ASSUNTO: CARBOXITERAPIA E INTRADERMOTERAPIA

PARECERISTA: CONS. EWALDA VON ROSEN SEELING STAHLKE

 

EMENTA: Intradermoterapia e Carboxiterapia.

CONSULTA

Trata-se de consulta formulada pela Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos  - CODAME, com o seguinte teor:

 “Tendo em vista o fato da Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos – CODAME, receber constantemente consultas referentes aos procedimentos de Carboxiterapia e Intradermoterapia, solicitamos parecer sobre os aludidos assuntos”.

 
FUNDAMENTAÇÃO E PARECER

PARECER SOBRE INTRADERMOTERAPIA

ANÁLISE

 

O conceito de  intradermoterapia parece ter se originado  na França em 1952, com o médico Michel Pisto. A proposta baseia-se na introdução de medicamentos na derme, camada profunda da pele, através de agulha apropriada, de quatro a seis milímetros de comprimento, os medicamentos habituais são administrados em até  0,2 mililitros para cada ponto de aplicação, em toda a extensão da lesão, com a finalidade de  tratar processos inflamatórios neuro-musculares e articulares, alopécia areata, assim como agir em situações de caráter estético, tais como, celulite, estria, gordura localizada e revitalização facial.

Ao pesquisarmos o termo intradermoterapia encontramos, na mídia voltada para leigos que os seguintes produtos: DMAE, finasterida, alcachofra ou luteolina, centelha asiática, ginkgo biloba, vitamina C, ácido hialurônico, cafeína, desoxicolato de sódio ou lipostabil® e toxina botulínica são indicados e propagados em material publicitário.  A maioria não apresenta registro na ANVISA por não serem produtos industrializados, mas manipulados, cabe observar que os princípios ativos ou insumos são de responsabilidade exclusiva  da indústria, e à farmácia de  manipulação compete somente a obtenção de produtos de fabricantes idôneos, no entanto, os trabalhos são da indústria, não havendo produção científica independente ou isenta, dentro as regras internacionais de estudo de eficácia e segurança.

Mesoterapia, outro termo amplamente usado, é uma  técnica minimamente invasiva que consiste na injeção de variadas substâncias na derme com finalidade de potencializar seu uso farmacológico, largamente empregada em todo o mundo, porém, na maioria, sem subsídio científico suficiente para seu uso, e já existem diversos relatos de complicações.

Em consulta ao site da ANVISA não encontramos registro de vários destes produtos injetáveis. Em relação à  intradermoterapia  para  fins estéticos,  a ANVISA em agosto de 2003 fez a recomendação para que fossem proscritos e assim como os pareceres CFM 484/2002 e 34/2003. Em 19 de outubro de 2005 a ANVISA  esclarece sobre a situação do “lipostabil brasileiro” ou  desoxicolato de sódio, substância manipulada que só pode ser vendida com prescrição médica,  que por não haver pesquisas que comprovem a segurança e a eficácia do uso do Desoxicolato para a redução de gorduras localizadas, proibiu a propaganda do medicamento fosfatidilcolina ou desoxicolato de sódio para fins estéticos, em qualquer meio de comunicação, inclusive a internet.

A utilização  de produtos injetáveis seja para fins terapêuticos ou estéticos deve seguir as seguintes premissas:

§      ser baseada em evidências científicas,

§      utilizar produto reconhecido, certificado e licenciado no país

§      ter respaldo da comunidade científica e da especialidade para a finalidade em uso

§      o médico deve obrigatoriamente ter uma formação sólida, com conhecimento amplo de anatomia, biologia, fisiologia e patologia da pele,

§      ter respeito ao paciente, com indicações claras e orientações adequadas para o entendimento do limite da técnica e das expectativas de resultados.

 

Na prática médica, quando são utilizados corticóides e antinflamatórios, usualmente referimo-nos a eles como infiltração intra-lesional ou intra-articular.

 

CONCLUSÃO

 

O médico tem a obrigação de buscar esclarecimentos quanto à procedência dos produtos, de certificar-se do registro dos mesmos pelas instâncias oficiais,  e de saber se  as empresas, sejam produtoras, importadoras ou distribuidoras  estão em conformidade com a legislação vigente, visto que  poderá ser arrolado como autor ou cúmplice se houver alguma ilegalidade, pois é sua a escolha e a indicação.

Embora o termo intradermoterapia esteja difundido no meio médico e leigo, a maioria das substâncias aplicadas sob este  conceito não tem respaldo até o momento das sociedades científicas reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina e pela Associação Médica Brasileira, pelo que não recomendamos o uso de produtos que venham a conflitar com o Código de Ética Médica e as leis vigentes.

            

Fonte:

Dermat Surg 2006; 332:1467-72SBCD

ANVISA

Google

Wikipédia

CFM

 

PARECER SOBRE CARBOXITERAPIA

 

ANÁLISE

A denominada carboxiterapia consiste  na administração subcutânea de anidro carbônico, gás carbônico ou CO2, através de injeção hipodérmica, diretamente nas áreas de celulite, flacidez cutânea, estrias e  gordura localizada e ainda  seria indicado na terapêutica de arteriopatias, flebopatias, úlceras vasculares e psoríase, entre outras. Outro modo de aplicação seria via transcutânea ou como balneareoterapia, na forma de banho seco ou em água carbonada.

A administração terapêutica do gás carbônico iniciou-se nos anos 30 na França, é um gás atóxico presente normalmente como intermediário do metabolismo celular,  o gás é o mesmo utilizado em cirurgia videolaparoscópica para  realizar pneumoperitôneo, histeroscopia e contraste em arteriografias, embora considerado não embólico há um  relato de embolia na literatura acessada.

Possíveis efeitos colaterais limitar-se-iam  a dor durante o tratamento, sensação de crepitação no local da aplicação devido a pequeno enfisema  que desapareceria em média em até 30 minutos e pequenos hematomas decorrentes da punção. A maioria dos trabalhos não se relacionam com estética, nesta categoria há carência de estudos com rigor científico.

Somente alguns dos  infusores de CO2, que tem registro na ANVISA,  faz constar em seu manual o uso percutâneo.

Na mídia é divulgado que o  próprio fabricante de determinado equipamento informa  que dados histopatológicos obtidos por biópsia, em pacientes tratados na Itália e por seu representante nos Estados Unidos, mostrariam que o método é inócuo ao tecido conectivo, incluindo-se estruturas vasculares e nervosas, e que  já teriam  sido realizados  20 000 (vinte mil) aplicações  de carboxiterapia  com índice de complicações, reações adversas e  mortalidade de zero.

Os treinamentos costumam ser realizados pelas empresas que representam os aparelhos, na maioria das vezes, em locais inadequados, expondo o paciente e o médico a grandes riscos, assim como banalizando um procedimento que é invasivo.

O Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia em resposta à  solicitação da Delegacia Regional de Piracicaba do CREMESP, publicada no Jornal do CREMESP em julho de 2007, sobre  tratamentos  recomendados para a Lipodistrofia Ginóide, conhecida comumente no meio leigo como celulite, assim posicionou-se: “A carboxiterapia ainda não está reconhecida como tratamento formal para a lipodistrofia ginóide. Existem poucos trabalhos científicos e controlados que mostram resultados em relação a este tratamento específico. Há na literatura vários estudos utilizando esta técnica para outros tipos de alterações. Alertamos para a falta de literatura embasada de forma científica e sugerimos que sejam feitos protocolos específicos. No momento a Sociedade Brasileira de Dermatologia não fornece aval para a utilização desta técnica na lipodistrofia ginóde. Em relação a outros tratamentos, não existe uma lista de aprovação. Visto que a lipodistrofia é uma alteração com múltiplos efeitos e sintomas, o médico deve manter os princípios básicos de ética, bom senso e segurança para o paciente”.

 

CONCLUSÃO

Embora a constante divulgação deste método, especialmente por médicos italianos, até o momento não existe literatura que esteja de acordo com a recomendação internacional de produção científica e que comprove a eficácia da carboxiterapia, para fins estéticos ou terapêuticos,  não sendo técnica isenta de risco, pois a ocorrência de infecção poderá eventualmente atingir graves dimensões, visto ser método invasivo, e embora rara poderá ocorrer embolia gasosa, portanto, é  nosso entendimento, neste momento,  não haver justificativa para seu uso, assim como  recomendamos que não seja divulgada, por ser técnica não reconhecida e sem evidências científicas pela comunidade médica.

É o parecer, s. m. j.

Curitiba, 11 de novembro de 2007.

 

Cons. Ewalda von Rosen Seeling Stahlke

Parecerista

 

Aprovado em Reunião Plenária n.º 1.977ª, de 26/11/2007 – CÂM I