Novembro / 2002 
ENTREVISTA 


SONHOS TROPICAIS

 
     O CFM promoveu, no dia 24 de outubro, durante o Encontro, uma sessão especial de exibição do longa-metragem Sonhos Tropicais, filme dirigido por André Sturm, baseado no romance homônimo de Moacyr Scliar. Tanto o escritor como o cineasta estiveram presentes, prestigiando a sessão e debatendo o filme com os participantes do Encontro. Sonhos Tropicais, o primeiro longa-metragem de André Sturm, traz à baila a questão da primeira grande tarefa da saúde pública no Brasil, ocorrida no momento em que o governo se mobilizou para evitar as epidemias de dengue, varíola e febre amarela que grassavam no país, especialmente no Rio de Janeiro, nos últimos anos do século 19 e primeiros do século 20. O filme mostra a saga do médico sanitarista Oswaldo Cruz, que lutava para influir na consciência higiênica da população e para convencer os políticos sobre os benefícios de uma campanha de vacinação em massa. A relutância de uma ala dos políticos contra a vacina (especialmente dos positivistas, que não acreditavam em micróbios por supô-los conceitos teóricos) e a manipulação da consciência da população com propósitos demagógicos resultou num sangrento episódio histórico, conhecido como a "Revolta da Vacina". O filme de André Sturm constitui leitura fiel do Brasil. Sua atualidade é única neste momento de epidemia não assumida da dengue no país, exatamente como em 1899. O jornal Medicina aproveitou a presença dos dois convidados em Brasília e conversou com ambos sobre a saga de Oswaldo Cruz, saúde pública, história do Brasil, literatura e cinema.


     

 

     Moacyr Scliar, natural de Porto Alegre, o escritor Moacyr Scliar nasceu em 1937 e cresceu no Bom Fim, bairro predominantemente judeu da capital gaúcha. Quando começou a se aventurar no mundo da literatura, não queria mais do que ser o escritorzinho do Bom Fim, como o chamavam seus vizinhos.
     Hoje, após muitos prêmios recebidos e mais de 40 títulos publicados entre contos, crônicas, ensaios e romances, em mais de 11 línguas, Scliar torna-se cada vez mais um grande escritor. Recentemente, recebeu mais um prêmio, o importante Jabuti, por A mulher que escreveu a Bíblia, inspirado na teoria de que uma parte do livro sagrado teria sido escrito por uma mulher.
     O judaísmo e a Medicina são temas sempre abordados pelo escritor gaúcho. A recorrência se explica. Scliar é médico sanitarista, filho de imigrantes judeus russos. Em Sonhos tropicais, editado em 1992, estão presentes as duas questões. Nele, Scliar traça uma biografia romanceada da vida do médico sanitarista Oswaldo Cruz.
     O tema das polacas judias também está no livro. É por meio da saga de Esther que Scliar tange o assunto que, por muito tempo, foi tabu na comunidade judaica. Em O ciclo das águas, de 1978, com o qual causou polêmica e ganhou o prêmio Érico Veríssimo, Scliar já havia aprofundado o drama dessas personagens que também ajudaram a construir a história do Brasil.
     Dentre suas obras adaptadas para o cinema, também estão O centauro no jardim, cujos direitos foram comprados por produtores americanos, e o Sonho no caroço do abacate, que virou o filme O caminho dos sonhos, sob a direção de Lucas Amberg.
     Em 1952, publicou seu primeiro trabalho, o conto O relógio. Com o livro O carnaval dos animais, de 1968, recebeu o Prêmio Academia Mineira de Letras. Colunista do jornal Zero Hora e da Folha de S. Paulo, Scliar também recebeu outros inúmeros prêmios, como o da Câmara Brasileira do Livro, em 1988 e 1993; o da Casa de Las Américas, em 1988, pela coletânea A orelha de Van Gogh; e o prêmio José Lins do Rego, promovido pela Academia Brasileira de Letras, com o romance A majestade do Xingu.

MEDICINA - As questões relativas à cultura judaica e à medicina são recorrentes em sua obra. São influências diretas de seu trabalho e origem, não?

Moacyr Scliar - Fui muito marcado pela experiência de ser filho de imigrantes judeus e pela rica tradição judaica, especialmente o humor. Mas não sou um autor judeu, sou um escritor brasileiro que traz para a nossa literatura o tema do judaísmo. Fico feliz de poder combinar em minhas obras esta influência com minha vivência brasileira, que foi intensificada pelo meu trabalho como médico sanitarista, no qual conheci a face oculta do Brasil. A figura de Oswaldo Cruz sempre esteve muito presente e influenciou tanto minha vida como meu trabalho literário.


MEDICINA - Como foi contar episódios essenciais da vida profissional de Oswaldo Cruz, uma figura tão polêmica da história brasileira?

Moacyr Scliar - A princípio, quando ouvi a sugestão de Luiz Schawrcz, editor da Companhia das Letras, não me entusiasmei, pois achava que sua vida não me trazia muitos atrativos do ponto de vista ficcional. Mas depois, quando passei a pesquisar e tive acesso aos arquivos da Fundação Oswaldo Cruz, me deparei com uma pessoa extremamente fascinante e contraditória, muito distante da noção estereotipada que temos nos livros escolares. Ele é uma figura emblemática do período histórico em que viveu, num país cheio de contrastes, ainda arcaico, que lutava para se tornar moderno. Ao mesmo tempo em que representava esse Brasil moderno sendo o fundador da ciência brasileira, possuía um lado contraditório, com problemas emocionais, uma aura mística e rituais estranhos. Ele ficou literalmente no meio do campo de batalha entre o governo e a população. Não possuía o dom da diplomacia para tratar com os políticos, nem conseguia manter diálogo com o povo. Como era a figura mais exposta do governo, sofreu todas as críticas. Não havia veículos de massa que falassem a seu favor. É claro que ele estava certo, suas técnicas de

combate à febre amarela são as mesmas usadas até hoje contra a dengue. Mas ele só focava sua ação na técnica. Deveria ter prestado mais atenção nos aspectos culturais da população para que nada fosse 'empurrado' - e, assim, conseguisse obter apoio popular.

MEDICINA - O tema das polacas judias também é polêmico. Como nasceu a idéia de contar essa história?

Moacyr Scliar - Essa história já tinha sido abordada em Ciclo das águas e volta em Sonhos tropicais, em escala menor. Mesmo sendo filho de judeus, só tomei conhecimento delas aos 27 anos, quando atendia no Lar de Velhos da Comunidade Israelita de Porto Alegre e cuidei de uma senhora que havia sido prostituta. Ela faleceu, mas a história ficou na minha cabeça. Era um tema tabu, evitado pela comunidade judaica por muito tempo, pois os 'traficantes' de escravas brancas também eram judeus que não hesitavam em enganar suas patrícias. Havia ainda a ambivalência de que algumas eram enganadas mesmo; outras, viam na prostituição o único meio de melhorar de vida. Fui muito criticado quando lancei o livro porque era um assunto vergonhoso, mas essa parte da história brasileira tinha de ser contada.


MEDICINA - Como bom cinéfilo, como você vê suas obras serem adaptadas para o cinema?

Moacyr Scliar - Fico muito feliz. Adoro cinema e me agrada muito ver um livro meu virar filme. Sei das diferenças estéticas e de conteúdo entre as duas linguagens. Não há como comparar. Por isso, sempre deixei os diretores muito livres para adaptar minhas obras. Tenho muita confiança no cinema nacional. Acho que está evoluindo tanto no conteúdo quanto tecnicamente. Os diretores brasileiros aprenderam a contar uma boa história.