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CFM promoveu, no dia 24 de outubro, durante o Encontro, uma
sessão especial de exibição do longa-metragem
Sonhos Tropicais, filme dirigido por André Sturm, baseado
no romance homônimo de Moacyr Scliar. Tanto o escritor
como o cineasta estiveram presentes, prestigiando a sessão
e debatendo o filme com os participantes do Encontro. Sonhos
Tropicais, o primeiro longa-metragem de André Sturm,
traz à baila a questão da primeira grande tarefa
da saúde pública no Brasil, ocorrida no momento
em que o governo se mobilizou para evitar as epidemias de
dengue, varíola e febre amarela que grassavam no país,
especialmente no Rio de Janeiro, nos últimos anos do
século 19 e primeiros do século 20. O filme
mostra a saga do médico sanitarista Oswaldo Cruz, que
lutava para influir na consciência higiênica da
população e para convencer os políticos
sobre os benefícios de uma campanha de vacinação
em massa. A relutância de uma ala dos políticos
contra a vacina (especialmente dos positivistas, que não
acreditavam em micróbios por supô-los conceitos
teóricos) e a manipulação da consciência
da população com propósitos demagógicos
resultou num sangrento episódio histórico, conhecido
como a "Revolta da Vacina". O filme de André
Sturm constitui leitura fiel do Brasil. Sua atualidade é
única neste momento de epidemia não assumida
da dengue no país, exatamente como em 1899. O jornal
Medicina aproveitou a presença dos dois convidados
em Brasília e conversou com ambos sobre a saga de Oswaldo
Cruz, saúde pública, história do Brasil,
literatura e cinema. |
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Moacyr
Scliar, natural de Porto Alegre, o escritor Moacyr Scliar
nasceu em 1937 e cresceu no Bom Fim, bairro predominantemente
judeu da capital gaúcha. Quando começou
a se aventurar no mundo da literatura, não queria
mais do que ser o escritorzinho do Bom Fim, como o chamavam
seus vizinhos.
Hoje,
após muitos prêmios recebidos e mais de 40
títulos publicados entre contos, crônicas,
ensaios e romances, em mais de 11 línguas, Scliar
torna-se cada vez mais um grande escritor. Recentemente,
recebeu mais um prêmio, o importante Jabuti, por
A mulher que escreveu a Bíblia, inspirado na teoria
de que uma parte do livro sagrado teria sido escrito por
uma mulher.
O
judaísmo e a Medicina são temas sempre abordados
pelo escritor gaúcho. A recorrência se explica.
Scliar é médico sanitarista, filho de imigrantes
judeus russos. Em Sonhos tropicais, editado em 1992, estão
presentes as duas questões. Nele, Scliar traça
uma biografia romanceada da vida do médico sanitarista
Oswaldo Cruz.
O
tema das polacas judias também está no livro.
É por meio da saga de Esther que Scliar tange o
assunto que, por muito tempo, foi tabu na comunidade judaica.
Em O ciclo das águas, de 1978, com o qual causou
polêmica e ganhou o prêmio Érico Veríssimo,
Scliar já havia aprofundado o drama dessas personagens
que também ajudaram a construir a história
do Brasil.
Dentre
suas obras adaptadas para o cinema, também estão
O centauro no jardim, cujos direitos foram comprados por
produtores americanos, e o Sonho no caroço do abacate,
que virou o filme O caminho dos sonhos, sob a direção
de Lucas Amberg.
Em
1952, publicou seu primeiro trabalho, o conto O relógio.
Com o livro O carnaval dos animais, de 1968, recebeu o
Prêmio Academia Mineira de Letras. Colunista do
jornal Zero Hora e da Folha de S. Paulo, Scliar também
recebeu outros inúmeros prêmios, como o da
Câmara Brasileira do Livro, em 1988 e 1993; o da
Casa de Las Américas, em 1988, pela coletânea
A orelha de Van Gogh; e o prêmio José Lins
do Rego, promovido pela Academia Brasileira de Letras,
com o romance A majestade do Xingu.
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MEDICINA
- As questões relativas à cultura judaica
e à medicina são recorrentes em sua obra.
São influências diretas de seu trabalho e
origem, não?
Moacyr
Scliar - Fui muito marcado pela experiência
de ser filho de imigrantes judeus e pela rica tradição
judaica, especialmente o humor. Mas não sou um
autor judeu, sou um escritor brasileiro que traz para
a nossa literatura o tema do judaísmo. Fico feliz
de poder combinar em minhas obras esta influência
com minha vivência brasileira, que foi intensificada
pelo meu trabalho como médico sanitarista, no qual
conheci a face oculta do Brasil. A figura de Oswaldo Cruz
sempre esteve muito presente e influenciou tanto minha
vida como meu trabalho literário.
MEDICINA - Como foi contar episódios essenciais
da vida profissional de Oswaldo Cruz, uma figura tão
polêmica da história brasileira?
Moacyr
Scliar - A princípio, quando ouvi a sugestão
de Luiz Schawrcz, editor da Companhia das Letras, não
me entusiasmei, pois achava que sua vida não me
trazia muitos atrativos do ponto de vista ficcional. Mas
depois, quando passei a pesquisar e tive acesso aos arquivos
da Fundação Oswaldo Cruz, me deparei com
uma pessoa extremamente fascinante e contraditória,
muito distante da noção estereotipada que
temos nos livros escolares. Ele é uma figura emblemática
do período histórico em que viveu, num país
cheio de contrastes, ainda arcaico, que lutava para se
tornar moderno. Ao mesmo tempo em que representava esse
Brasil moderno sendo o fundador da ciência brasileira,
possuía um lado contraditório, com problemas
emocionais, uma aura mística e rituais estranhos.
Ele ficou literalmente no meio do campo de batalha entre
o governo e a população. Não possuía
o dom da diplomacia para tratar com os políticos,
nem conseguia manter diálogo com o povo. Como era
a figura mais exposta do governo, sofreu todas as críticas.
Não havia veículos de massa que falassem
a seu favor. É claro que ele estava certo, suas
técnicas de
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combate
à febre amarela são as mesmas usadas até
hoje contra a dengue. Mas ele só focava sua ação
na técnica. Deveria ter prestado mais atenção
nos aspectos culturais da população para
que nada fosse 'empurrado' - e, assim, conseguisse obter
apoio popular.
MEDICINA
- O tema das polacas judias também é polêmico.
Como nasceu a idéia de contar essa história?
Moacyr
Scliar - Essa história já tinha sido
abordada em Ciclo das águas e volta em Sonhos tropicais,
em escala menor. Mesmo sendo filho de judeus, só
tomei conhecimento delas aos 27 anos, quando atendia no
Lar de Velhos da Comunidade Israelita de Porto Alegre
e cuidei de uma senhora que havia sido prostituta. Ela
faleceu, mas a história ficou na minha cabeça.
Era um tema tabu, evitado pela comunidade judaica por
muito tempo, pois os 'traficantes' de escravas brancas
também eram judeus que não hesitavam em
enganar suas patrícias. Havia ainda a ambivalência
de que algumas eram enganadas mesmo; outras, viam na prostituição
o único meio de melhorar de vida. Fui muito criticado
quando lancei o livro porque era um assunto vergonhoso,
mas essa parte da história brasileira tinha de
ser contada.
MEDICINA - Como bom cinéfilo, como você vê
suas obras serem adaptadas para o cinema?
Moacyr
Scliar - Fico muito feliz. Adoro cinema e me agrada
muito ver um livro meu virar filme. Sei das diferenças
estéticas e de conteúdo entre as duas linguagens.
Não há como comparar. Por isso, sempre deixei
os diretores muito livres para adaptar minhas obras. Tenho
muita confiança no cinema nacional. Acho que está
evoluindo tanto no conteúdo quanto tecnicamente.
Os diretores brasileiros aprenderam a contar uma boa história.
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