O
Humanismo,em todas as suas dimensões e versões,
sempre foi a tônica da assistência à saúde.
Infelizmente, por diversos motivos, essa fundamental característica
da "arte do cuidar" do bem-estar e da
qualidade de vida da população e de nossos pacientes
foi desaparecendo. Este breve texto, numa abordagem sucinta
mas abrangente, discorre sobre vários aspectos teóricos
e pragmáticos visando subsidiar a tentativa de "resgate
da humanização" que ora vem ocorrendo em
nosso sistema de saúde.
Em termos de bases teórico-filosóficas,
poderíamos afirmar, inicialmente, que a própria
definição de saúde nos indica que a mesma
não é só a ausência de doença
mas, e principalmente, o bem-estar físico, psíquico
e social recentemente ampliada para incluir o bem-estar espiritual,
sendo também por muitos defendida a inclusão da
visão de "bem-estar" num meio ambiente equilibrado
e sustentável.
Essa definição
aponta clara e indubitavelmente que o profissional de saúde
deve estar conveniente e adequadamente preparado para trabalhar
todas as dimensões existenciais do ser humano e da vida
humana, o que necessariamente faz com que a erudição,
o cultivo do intelecto e um conhecimento sociocultural antropológico
tornem-se condições "sine qua non" para
o estabelecimento de uma boa prática profissional.
Em nossa abordagem teórica
não poderíamos esquecer de citar o novo paradigma
científico conhecido como "Quântico-Relativista"
ou "Holístico", que, baseado na física
quântica, demonstra que no mundo das subpartículas
atômicas "tudo é energia, tudo tem a ver com
tudo, tudo se relaciona com tudo e tudo influencia tudo",
o que contrasta substancialmente com o anterior modelo mecanicista
e fragmentado. Este novo paradigma reforça a importância,
o poder e o lugar privilegiado que tem o Humanismo, numa abordagem
integral e efetiva de nossos pacientes - tão útil
e eficaz quanto qualquer tecnologia de ponta.
Não menos relevante
é relembrar os quatro principais pilares da Dialética,que
nos en-
sinam que tudo está inter-relacionado, tudo muda, havendo
necessidade, para que hajam as mudanças, das polaridades,
dos opostos, do
contraditório e que, finalmente, tudo evolui, passando
de um estado quantitativo para um
estado qualitativo superior, abordagem filosófica essa,
de entender a realidade e a nature-
za,que está em completa sintonia com o mais avançado
pensamento científico, constituindo-se, em nossa opinião,
um "saber" imprescindível na assistência
à saúde.
A própria Ética,surgida
com Sócrates, Platão e Aristóteles há
25 séculos,como um conjunto de juízos e valores
para decidirmos o que é bom e mau, certo e errado,direitos
e deveres, nos encaminha, fortemente, para a atual "Ética
da Responsabilidade" onde, mais do que uma ética
utilitarista,nos conscientiza de
que somos responsáveis por tudo e por todos e nos concita
a avaliar e pesar o custo risco-
benefício de todas as nossas posturas e atitudes como
profissionais,quer individual ou coletivamente -prática
essa que não pode dissociar-se da humanização
da assistência.
Não menos importante
para o renascimento do Humanismo foi o surgimento
da Bioética, na década de 70,com Potter e companhia,que
com a sua preocupação com uma
nova ética aplicada como uma "Ponte para o Futuro"
(título do seu primeiro livro), urgente para a sobrevivência
da vida planetária, trouxe um questionamento essencial
acerca dos saberes das áreas das ciências básicas
e da saúde, como a medicina e a biologia, em comunhão
com todas as outras ciências, assim como da biotecnociência,
e uma profunda reflexão, não dogmática
e sem verdades apriorísticas, sobre valores em relação
ao fenômeno vida,em suas diversas formas.Em sua abordagem
principialista a Bioética trouxe para a pauta do dia-a-dia
dos profissionais de saúde e dos pacientes as questões
da não-maleficência, beneficência, autonomia
e justiça.
Nos parece que o esquecido
"poder" da relação profissional-paciente,
do teatro terapêutico e do efeito placebo, também
se encaixa perfeitamente nessa "visão teórica"das
bases filosóficas da necessidade da humanização
da assistência à aúde, expressa subliminarmente
na antiga máxima, possivelmente hipocrática, de
que "a Medicina às vezes cura, de vez em quando
alivia,mas sempre consola" convenientemente lembrando-nos
de que a porcentagem de êxitos depende de vários
fatores, tais como o tipo de enfermidade e personalidade do
paciente, mas também, e muito, do tipo de atitude e comportamento
adotado pelo profissional de saúde envolvido no atendimento.
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Esse
importante papel da humanização no lidar com os
doentes e com as doenças foi mui-
to bem demonstrado pela psicossomática, que prega a visão
holística da indivisibilidade, integralidade e totalidade
do ser humano,onde não só o psiquismo influencia
o corpo,mas
todo o contexto social, histórico, econômico e ecológico,já
visto anteriormente.
Cabe agora uma curta revisão
do próprio Humanismo,que pode ser definido, dentre muitas
possibilidades e abordagens,como um ideário no qual existe
uma primazia de importância do ser humano e dos valores
humanos.
Tendo origens ancestrais em nossa cultura ocidental, recebe a
influência dos filósofos e intelectuais gregos,como
podemos verificar no
dito "humanismo clássico",onde o sofista grego
Protágoras (séc.V a.C.)afirmava que "o homem
é a medida de todas as coisas",ou em
Demócrito,que defendia que "o homem é o microcosmos",ou
ainda em Sófocles,pai da tragédia grega,que pregava
que "muitas são as coisas extraordinárias,mas
nada existe de mais extraordinário do que o homem".O
grande Aristóteles,no
século IV a.C.,também propunha que o homem
é o princípio das ações". Esses
pensadores gregos foram seguidos por outros,agora romanos,como
o estóico Cícero (séc.I a.C.),que cunhou
o conceito
de humanismo enquanto cosmovisão,na qual o homem ocupa
o ponto central,e Sêneca (séc.I d.C.), que divulgava
a visão de que "para a humanidade,
a humanidade é sagrada".
É importante citar,nesta
breve revisão,o ressurgimento do Humanismo com o "Renascimento",
onde se destacam os florentinos do século XV,como Leonardo
da Vinci,Marsílio Ficino ("Conhece-
te a ti mesmo,ó linhagem divina vestida com trajes mortais")
e Giovanni Pico della Mirandola, autor
da famosa Oração/discurso sobre a dignidade do homem
, na qual sustentava que pelo fato de o homem ser inacabado,e
portanto poder evoluir, possuía uma dignidade especial
e até mesmo superior à dos deuses e anjos -que são
eternos, perfeitos, mas não mudam.
No século XVIII,merece
destaque especial Immanuel Kant, considerado um dos maiores teóricos
do Humanismo,que escreveu:"Age de modo que consideres a humanidade
tanto na tua pessoa quanto na de qualquer outro,e sempre como
objetivo, nunca como um simples meio". Não menos importantes
para o corpo epistemológico do Humanismo são,no
século XIX, o dinamarquês Kierkegaard e o alemão
Feuerbach, que defendiam que "o homem é a base da
natureza". Na verdade, os séculos XIX e XX foram extremamente
profícuos em termos de humanistas e existencialistas, de
diversas matizes e endências, mas as reflexões sobre
todos esses personagens e suas contribuições -como
Gandhi, Erich From, Marx, Engel, Bertrand Russel, João
XXIII, Carl Rogers, Dom Helder, Nietzche, Sartre, Einstein, Hans
Jonas, Berlinguer, Morin, Dalai Lama, Boff, Rohden e Paulo Freire
-, além de intermináveis, fugiriam do escopo deste
artigo.
Na portunidade, gostaríamos
de afirmar que a Declaração Universal dos Direitos
Humanos, marco humanístico do século XX, deveria
ocupar lugar central na construção de um paradigma
para a humanização da assistência à
saúde e na formação dos profissionais de
saúde. Necessário se faz uma brevíssima abordagem
sobre a realidade e a atual crise na qual se encontram os profissionais
de saúde, para que a luta pela humanização
não se torne apenas bela e erudita digressão teórica
e filosófica,pois como bem disse o filósofo espanhol
Ortega y Gasset: "Eu sou eu e minhas circunstâncias".
É preciso ter a clareza de que os profissionais de saúde
estão aviltados nos seus salários e em suas condições
de trabalho e que o atual sistema não valoriza a qualidade
da assistência, mas sim a quantidade. Na verdade, os trabalhadores
da saúde estão se proletarizando ou se tornando
"biscateiros free-lance". Além disso, vêm
sendo submetidos a um altíssimo nível de estresse,
causado pelas péssimas condições de trabalho,
baixíssima remuneração, gigantesca duração
da jornada de trabalho diária e semanal, falta de tempo
para lazer, leitura e estudo e, não menos importante, por
terem se tornado os "bodes expiatórios" de todas
as mazelas do sistema.
Junte-se ao exposto o fato
de que esses profissionais foram, e continuam sendo, deformados
durante o seu período de treinamento, principalmente
nas universidades, onde se subestimam as variáveis
subjetivas e antropológicas da pessoa enferma e a integralidade
biopsicossocial-espiritual do ser humano. Some-se a isto a "herança"
que os profissionais
trazem para o seu cotidiano, como os preconceitos de gênero,
raça e classe social,apreendidos durante a sua socialização,
inclusive no próprio convívio familiar. Note-se
que existe uma falta de "educação doméstica"
generalizada e os profissionais de saúde são, infelizmente
em um número não tão diminuto, broncos, grosseiros
e rudes no trato com os pacientes.
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CONCLUSÕES
E RECOMENDAÇÕES PRAGMÁTICAS
No resgate do Humanismo na assistência à saúde
poderíamos ressaltar e sugerir, além do colocado,
que:
1)O Humanismo expressa uma atitude ou doutrina etnocêntrica
onde o homem está no centro de tudo e há uma centralidade
da espécie humana na natureza, independente de se essa
concepção e convicção é baseada
em preceitos científicos, filosóficos, antropológicos,
sociais, mitológicos ou religiosos. É uma crença
no homem, em seu valor, valor esse infinitamente grandioso e valioso,
e na sua capacidade de progredir e construir uma sociedade melhor.
Os seres humanos devem ser educados para se tornarem melhores
seres humanos, em consonância com a máxima do Humanismo
iluminista de que "os cavalos nascem, os homens se formam";
2)O Humanismo não pode ser confundido com "educação
doméstica", muito menos reduzido a ela, apesar da
mesma ser muito importante para a otimização da
relação profissional-paciente e da qualidade da
assistência;
3)Existem comportamentos e atitudes humanizadoras e humanizantes
que otimizam a assistência e devem ser observados, tais
como solidariedade, paciência, tolerância, disponibilidade,
compreensão, apoio e generosidade;
4)Arelação profissional-paciente deve ser vista
como uma oportunidade não só propedêutica
e terapêutica mas também de interação,
troca, crescimento, prazer e felicidade para ambos;
5)A relação profissional-paciente deve ser de amizade,
cumplicidade e confiança, e nenhum outro objetivo ou fim
deve alterála ou prejudicá-la, principalmente os
interesses financeiros e comerciais;
6)Auniversidade não pode ser só informativa, porque
"instruir sem dar formação é uma tragédia".
Assim, é tarefa primordial, para os
ativistas e militantes do Humanismo, transformá-la para
que possa realmente transformar. A transformação
dos currículos, com a inclusão e valorização
de eixos humanísticos, pode e deve ser considerada
como um primeiro e importantíssimo passo, não se
podendo compactuar com a construção de
profissionais técnica e ciberneticamente bem preparados
mas humanamente desqualificados;
7)O profissional de saúde deve ser consciente da importância
do poder intrínseco da relação com o paciente,
assim como do teatro terapêutico, do efeito placebo e da
tríade "informação, apoio e carinho"
- que possui em muitos casos tanta eficiência quanto as
mais altas tecnologias;
8)Trabalhar pela humanização significa lutar por
mudanças de atitudes e culturas, fortalecendo os ideais
humanísticos quer pessoais quer coletivos e institucionais;
9)É preciso mudar o sistema como um todo, para que o mesmo
valorize a vida, bem maior de nossa existência;
10)Ahumanização da assistência à saúde
não pode ser separada do Humanismo, que inclui aspectos
teóricos e filosóficos mas dialeticamente requer
também uma clara
militância e ativismo para que, através de nossos
sonhos e labor diário pragmático, possamos construir
um mundo mais fraterno, justo, feliz, saudável e, portanto,
mais plenamente humano.

Arquivo pessoal
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Aurélio
Molina é professor doutor adjunto da Universidade
de
Pernambuco,Ph.D.pela University of Leeds,coordenador de
pesquisa da UPE e membro fundador do Núcleo de Bioética
de Pernambuco e dos Comitês de Ética em Pesquisa
da UPE e do CISAM
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