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TRANSEXUALISMO NO BRASIL

Os profissionais brasileiros que se dedicarem ao tratamento cirúrgico do transexualismo necessitam estudar e compreender suas causas, a metodologia operatória, suas complicações e o seguimento da nosologia para colaborar na ressocialização do operado.

Os autores dividem os pacientes em transexuais primários (evidências clínicas na primeira infância) e secundários (aqueles manifestados na idade adulta), incluindo os casos limítrofes, que não deveriam entrar no protocolo de cirurgia experimental. É importante correlacionar o papel da diferenciação sexual humana pré e pós-natal com a gênese desta patologia. A pesquisa de inúmeros fatores - cromosômico, gonadal, da genitália externa e interna, civil, cultural, hormonal, funcional e cortical - permite compreender a fisiopatologia desta disforia de gênero. Dentre as pesquisas atuais, uma alteração anatômico-encefálica (estria terminalis do hipotálamo morfologicamente idêntica à feminina nos transexuais masculinos) indica que esta patologia cirúrgica tem um componente biológico cerebral impossível de atuar ou reverter por ser parte da área nervosa. Assim, poderíamos incluir o transexualismo (termo popularizado com forte conotação negativa) entre os estados intersexuais físicos. Melhor seria alterarmos sua nomenclatura para: disforia generiforme, hermafroditismo encefálico ou disforia de gênero hipotalâmica, mais consentânea e adequada à realidade científica.

No Brasil, ocorreram esporádicas cirurgias de reversão da genitália a partir dos anos 70. A experiência de mais de 40 centros mundiais demonstra que os operados recuperam sua condição social. Formularam-se padrões de conduta e pré-requisitos para os casos de encaminhamento cirúrgico, salientando-se o tratamento clínico e psicológico de no mínimo dois anos, além de outras condições, avaliações pré e pós-operatórias e comparação de parâmetros de ressocialização. Em nosso país, aguardam-se leis que devolvam ao cidadão registros e documentação apropriados à nova redesignação, ressalvando-se direitos individuais e de terceiros.

É uma patologia de minorias populacionais, estimando-se (por comparação estatística com outros centros) a possibilidade de 1,5 a 8 mil brasileiros nessa condição injusta e degradante. Eles aguardam interesse médico, principalmente das universidades, no equacionamento de seu tratamento. É mister a preparação de equipes aptas a realizar cirurgias de boa qualidade. O Conselho Federal de Medicina aprecia o interesse de várias especialidades cirúrgicas que desejam adquirir conhecimento e experiências para atender à demanda brasileira nessa área.

No caso do transexualismo masculino (6 a 10:1 feminino) basicamente ocorrem os seguintes procedimentos: 1. Área genital: reversão da anatomia contraditória com o máximo aproveitamento dos tecidos locais, evitando-se seqüelas cicatriciais extragenitais. Remoção de tecidos desfuncionalizados (gônadas e tecido cavernoso). As técnicas atuais pretendem atingir os seguintes objetivos: a) neovagina funcionante — dimensões adequadas para função coeundi; b) neovulva esteticamente aceitável — detalhes anatômicos semelhantes ao feminino; c) neomeato urinário — posição e óstio adequados à função mictória feminina; d) neurossensibilidade preservada — útil aos mecanismos da libido e clímax sexual; 2. Área extragenital: excisão do pomo de Adão, mamoplastias de aumento, depilificação na face e melhorias estéticas do nariz, lábios, rugas, cintura pélvica, região glútea, coxas, panturrilha, etc.

Poucas técnicas conseguem atingir todos os objetivos requeridos, mormente em uma única etapa cirúrgica. Temos empregado o chamado "retalho neurovascular do tegumento peniano" para a neovagina, e remanescentes escrotais e uretrais para os detalhes das ninfas vulvares e neoclítoris, com sucesso desde 1984. Podem ocorrer casos de revisões de neovagina ou neovulva, mas, de modo geral, a função é razoável. Grande número de pacientes melhora os parâmetros indicativos de ressocialização nos níveis social, psicológico, econômico e sexual. Quando a quantidade de tegumento peniano-escrotal é escassa, há necessidade de utilizar outros retalhos cutâneos, salientando-se o "retalho pudendo-ingüinal de Cingapura", também muito útil para ampliar as dimensões da neovagina nas cirurgias secundárias.

Entre os casos seguidos, encontramos pacientes casados, integrados na área social, exercendo profissão definida. Poucos obtiveram novos documentos através da Justiça e apenas um obteve redesignação de sexo e nome confirmados pelo Tribunal de Justiça. Salientamos o apoio familiar importante durante o tratamento, principalmente das progenitoras, que, inconformadas com a situação dos filhos, clamam pela compreensão médica. Muitos operados possuíam formação secundária e, pelo menos quatro, um diploma superior. Muitos apresentavam elevado grau intelectual, eram poliglotas e autores de livros, em geral dedicados à sua condição. Evitaram-se tratamentos em casos de prostituição e promiscuidade avançadas, em portadores de doenças sexualmente transmissíveis ou com passado de sociopatias. Mais de 80% viviam na pobreza e sem condições econômicas para suportar as etapas do tratamento, razão pela qual adaptaram-se aos hospitais públicos. Nestes, ocorriam situações adversas, exemplificadas pela necessidade de acomodação em leitos coletivos (masculinos ou femininos), ou ainda curiosidades e incompreensões — das administrações ou das equipes médicas e paramédicas. Foram, sem dúvida, momentos difíceis que felizmente estiveram restritos ao ambiente hospitalar. Os anos de luta dos disfóricos em gênero trouxeram a aceitação social e compreensão dos problemas, substituindo-se as chacotas, o abandono e a marginalidade pelo necessário apoio médico-social,
destacando-se a avançada e destemida posição dos Conselhos de Medicina que normatizaram esta situação no Brasil.

Há inúmeros operados no Brasil e no exterior que não atingiram os objetivos da cirurgia. É necessário que os médicos utilizem os conhecimentos de transplantes de tecidos e a criatividade para colaborar nos casos de menor êxito. Assim, é justo pleitear que, nas equipes cirúrgicas, as especialidades que atuam na área genital e urológica ou vascular colaborem com o cirurgião plástico, cabendo ao profissional mais experiente chefiar o ato operatório. Há grande responsabilidade dos médicos nesta fase experimental do tratamento, que deve alcançar boa qualidade para perenizar mais esta conquista da ciência em favor da sociedade.

Esta situação tem um equacionamento muito difícil. O tratamento pode ser realizado, mas o êxito funcional ainda é falho. No futuro, a microcirurgia ou homotransplantes poderão produzir melhores resultados quando surgirem drogas imunossupressoras menos agressivas à saúde. Os principais obstáculos atuais, além das inúmeras etapas cirúrgicas necessárias, constituem: 1. Escolha de uma área doadora compatível com a construção de um neofalus — Ausência de pilificação e poucas cicatrizes inestéticas; 2. Construção de uma neouretra funcional e sua junção ao meato natural sem complicações. A pele com seus anexos é a mais utilizada, embora as mucosas sejam os tecidos preferenciais; 3. Laparotomias para remoção da genitália interna e gônadas, além da vaginectomia; 4. Construção da bolsa escrotal com próteses testiculares; 5. Criação de um mecanismo eretor eficiente, com material autógeno ou aloplástico fixo ao púbis; 6. Neofalus com aspecto estético, incluindo detalhes da glande; 7. Cirurgias complementares: adenomastectomias subcutâneas, construção do pomo de Adão, etc.

É salutar que as universidades, hospitais de ensino, sociedades médicas, comitês supra-institucionais, associações médicas, etc. fomentem a criação de serviços voltados para a redesignação cirúrgica do sexo. É tema atual, que não pode ser ignorado pela ciência, pois fere a dignidade do ser humano no mais recôndito local da afetividade humana, o relacionamento sexual.

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Jalma Jurado é doutorado em cirurgia plástica e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

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