Imprimir

Será Possivel um Ética Pós-Moderna?
Horácio Macedo

   O esfacelamento da sociedade do pós-guerra provoca alterações substanciais na possibilidade de ser formulada uma ética capaz de ser um dia, incorporada pela sociedade como um todo. Às dificuldades que, no passado, se opunham a esta formulação adicionam-se, neste decênio final do século, as que se originam nas perdas de referências sociais e culturais de grandes grupos e na consolidação da influência cultural contraditória das classes dominantes.

   Talvez seja possível conceitualizar os novos problemas ligados aos que se formaram e solveram historicamente, mediante a análise da alienação do homem na sociedade moderna e da hegemonia exercida pelos portadores e detentores do capital.

   Na vida de qualquer homem, instituem-se processos, sobre os quais exerce pouco ou nenhum controle, que o alienam, estranham-no, apartam-no de si mesmo e da sua própria atividade social.

   Assim, na observação clássica, o trabalhador se aliena do produto do trabalho, que, embora fruto direto da sua atividade social e individual, foge do seu controle e da sua vontade, objeto da posse, que é, do detentor do capital.

   Esta forma de alienação do homem social ativo e produtivo - frente ao resultado da sua atividade acentuou-se sobremaneira em face do gigantismo automatizado dos sistemas produtivos modernos. Num grande sistema automatizado, cada homem exerce uma tarefa que constitui um átomo do sistema todo, cuja complexa integridade e dominada por muito poucos. A alienação do produtor se acentua, então, pela espessa nuvem de ignorância em que se vê mergulhado. Embora o trabalhador moderno tenha de ter, em alguns casos, qualificação profissional talvez mais apurada que antigamente, a participação de cada um é relativamente menor do que a existente na linha de produção fordiana do passado. Não se pode minimizar este novo tipo de alienação - a do produtor ativo diante do instrumento de trabalho. Um operador de torno automatizado, por exemplo, não dispõe de conhecimentos, nem de saber, para corrigir o funcionamento da máquina, nem muito menos para diagnosticar sua operação. O analista de sistema é impotente diante de um grande computador e dificilmente será capaz de interferir com a sua estrutura material. O técnico de microeletrônica, por seu lado, será capaz de diagnosticar uma imperfeição de um circuito impresso e corrigi-la, mas e incapaz, nos casos correntes, de utilizá-lo numa programação. Desta forma, a alienação do trabalhador no processo produtivo não mais é determinada pela inexorável corrente da linha de produção, como nos Tempos Modernos de Chaplin. A inexorabilidade provém, agora, da ignorância específica de cada um e da repartição de saberes pelos diferentes e inumeráveis técnicos e operadores do sistema produtivo.

   Tem-se então, neste final de século, não apenas a alienação do trabalhador em face do produto do trabalho (que se traduz pela apropriação do produto por quem não o produziu), mas também a alienação de trabalhador em face do instrumento do trabalho (que se traduz pela impotência do domínio global e total do instrumento pelo trabalhador).

   Este entranhamento do homem em face da sua atividade produtiva só se obsta quando a atividade e o produto se reúnem indissoluvelmente e visam a atingir, sem intermediários, a pessoa humana. Neste final de século, mais do que antes, são os artistas que podem fazer está superação na esfera da produção do que correntemente se denominam "bens culturais" -música, pintura, teatro, literatura, etc. Entendamo-nos bem: podem os artistas fazer esta superação; não quer dizer que obrigatoriamente a façam nem que não contribuam para o agrava mento da alienação mencionada anteriormente. A capacidade antialienante dos artistas é sempre uma virtualidade que pode não se manifestar nesta ou naquela circunstância. Temos entre nós os exemplos do Graciliano, do Portinari, do Niemeyer, do Milton Nascimento e de muitos outros, além de outros muitos que ficam num outro campo...

   Aparentemente, neste final de século, o sistema capitalista caminha para um processo de entranhamento das grandes massas da população trabalhadora e a formação de uma sociedade materialmente cindida numa classe dominante fechada e uma inumerável classe de produtos dominados. Panorama terrificaste de um Admirável Mundo Novo no século XXI. Será? Talvez não, pois o sentido de permanência histórico do sistema capitalista exerce um controle sutil e eficiente sobre a sociedade que não acarreta, necessariamente, a adoção de métodos mecânicos de coação e domínio. É o que consegue com o exercício da Regem Na política e social que se insinua, filamentosamente, em todos os setores da vida em sociedade organizada.

   A hegemonia do capital foi construída historicamente. Conquista do o poder político (nos séculos XIX e XX), às vezes violenta e sangrentamente, o processo de consolidação do poder foi o processo da construção da hegemonia. O processo da substituição histérica das concepções doutrinarias do "ancien règime" pelas concepções não menos doutrinárias dos iluministas do século XV111, dos economistas clássicos da pragmática Inglaterra, dos idealistas democráticos da revolução norte-americana, dos radicais defensores do cidadão burguês, dos revolucionários de 89. É a hegemonia conceitual que se codifica no sistema jurídico, transmite-se nos sistemas educacionais, corporifica-se nos instrumentos coercitivos do Estado, define-se e aprimora-se nas instituições culturais, aprisiona e oprime as manifestações artísticas.

   Com este poder multifacetado, podem as classes dominantes no capitalismo exercer um firme e forte domínio social sem recorrer - a não ser em instantes de crise, ou contra grupos contestadores explícitos da sua hegemonia - a mecanismos de coerção violenta. Ao mesmo tempo podem manter, em cada pais, características nacionais favoráveis ao exercício da competição em nível internacional.

   Nos dias atuais, canaliza-se a manutenção cotidiana, incansável, da hegemonia capitalista, nos instrumentos de comunicação de massa. Comunicação que tem, com certeza, o poder de, durante espaços de tempo dilatados, em territórios extensos, fazer prevalecente a visão dominante sobre problemas e questões controvertidas; mas que não tem, é importante acentuar, a capacidade de superar a contradição social e individual expressa na alienação do homem produtivo.

   A grande ameaça à hegemonia do capitalismo, no século XX, foi a experiência socialista da antiga União Soviética. Esta experiência apontava para a possibilidade da construção de uma sociedade diferente da capitalista, em que desaparecia a alienação do trabalhador no seu trabalho e em face do produto do trabalho, e a hegemonia na sociedade se construía com a participação da totalidade da população, e não apenas de uma limitada classe social. Numa frase bastante gasta, mas não por isso menos bonita, era uma sociedade em que o reino da necessidade seria substituído pelo reino da felicidade.

   O fato de a experiência não ter tido o êxito desejado por milhões e milhões em todo o mundo não diminui a sua importância nem o seu significado. Pela primeira vez, na conflituosa história da humanidade, formulava-se o claro objetivo de o trabalho ser uma fonte de prazer, e não processo de alienação; dizia-se que a hegemonia política e social seria construída pelo conjunto dos trabalhadores em beneficio destes trabalhadores, não para manter uma certa estrutura social, mas, ao contrário, para destrui-la e iniciar um período de construção da vida de todos e de cada um muito diferente do que fora até então possível. Era o pensar uma utopia em termos materiais, com uma nova ética nas relações humanas.

   Com o que retornamos ao problema inicial, o da ética na sociedade deste fim de século.

   Em face do que foi esboçado, será possível formular-se uma ética que possa valer para toda a sociedade? E evidente que não. A Ática na sociedade capitalista é elemento importante da hegemonia burguesa. É parte integrante do aparelho ideológico da burguesia. É uma ética "boa" para os dominados, "irrelevante" para os dominantes. Os valores que aponta - disciplina no trabalho, respeito à ordem, moderação nos costumes, honestidade nas relações pessoais etc - valem para os alienados, mas não para os alienantes. E é exatamente por isso que os portadores da ética do dominante usam-na como imperativo categórico para os dominados, mas como expediente pragmático para si mesmos. Os recentes acontecimentos políticos no Brasil evidenciaram, com bastante propriedade, esta diferença. Vimos próceres reconhecidos e respeitados do estamento nacional fazerem, sem estremecer um único cílio, o jogo da corrupção de administradores públicos.

   Não se podem descartar, no entanto, sem exame nem ponderação, os princípios da ética proclamada pela hegemonia do capital. Ao se construir uma sociedade não alienante, será importante e desejável a disciplina no trabalho, a honestidade nas relações pessoais, o mútuo respeito ao cidadãos etc. O problema, no entanto, não é o de valorizar estes principias numa sociedade a construir, baseada na solidariedade, na fraternidade, na cooperação; o problema é o de saber se a imensa maioria dos dominados, numa sociedade de classes capitalista, pode assumir estes valores de uma sociedade solidária, fraterna, cooperativa. A resposta só pode ser negativa. É possível que um traço ou outro desta ética venha à tona e que grupos, correntes, subcamadas, camadas, corporações, adotem-nos com o maior empenho e maior consciência da sua importância. A hegemonia cultural da burguesia impede, no entanto, que se radiquem e expandam na sociedade. E esta hegemonia provoca, inelutavelmente, o divórcio entre o discurso e a prática. Nada mais ético, fraterno e humano que o juramento de muitas corporações profissionais; mas nada menos ético, fraterno e humano que a atividade de muitos e muitos profissionais. E tão menos ética quanto mais alienados os profissionais se sintam em face do trabalho que executam.

   Ficamos então num beco sem saída? Condenados a viver numa sociedade que não se pode denominar selvagem, em respeito aos selvagens habitantes da selva, mas que envolve traços de ferocidade, de violência, de desrespeito inter-humano, como poucas sociedades históricas?

   Há saídas e caminhos trilhados pela história. Um deles é o da formulação da ética pela via religiosa. Durante muitos séculos foi a ética religiosa dos oprimidos no Império Romano que possibilitou, como parte de uma contra-hegemonia, a derrubada do sistema escravista da antigüidade européia. Esta mesma ética, transformada na ética dominante, foi elemento essencial da hegemonia que moldou a sociedade feudal e a sociedade dos privilégios na Europa do século X até o século XIX. Foi uma ética calcada na religião que forneceu base ideológica firme para a construção do capitalismo do século XIX. Nesta construção, a ética religiosa foi instrumento poderoso de submissão dos povos coloniais, foi elemento tão importante para a expansão do capitalismo em escala mundial quanto as tropas e os exércitos das grandes potências.

   A ética religiosa pode ter um elemento contra-hegemônico se a religião, qualquer que seja, fizer uma opção pelos pobres. Quando os defensores da teologia da libertação fazem esta opção, na América Latina, certamente estão lançando as bases de formulação de uma ética que, qualquer que seja a sua conotação com elementos do saber extraterreno, é capaz de contribuir no combate à ética alienante do capitalismo.

   A outra via e a da formulação da ética de uma corrente política que assume, de principio e claramente, a idéia da necessidade apodíctica de construção de uma sociedade diferente da atual, desalienadora, e que subordine toda sua atividade ao caráter essencialmente humano desta sociedade. Era esta a ética que se queria na construção do socialismo. Ética em que os meios da construção são parte integrante dos fins e em que, sempre e em todas as circunstâncias, o homem é a medida das coisas, o irmão e o companheiro dos outros homens.

   Este referencial de ética está hoje comprometido pelo fracasso da construção do socialismo, pela consolidação das relações capitalistas, pelo atraso crescente do Terceiro Mundo, provocado e agravado pela ação dos países do Primeiro Mundo. Restaurar este referencial, reconstrui-lo, será a tarefa dos partidos políticos que, teimosa e imperiosamente, irão projetar no século XXI a utopia dos pensadores do século XIX, a construção de uma sociedade humana e por isso ética. Como diz, vinda do século XIX, a poderosa voz de Marx:

   "A doutrina materialista (vulgar), segundo a qual os homens são produto das circunstâncias e da educação, e que, portanto, homens modificados são produto de outras circunstâncias e de uma educação modificada, esquece-se de que são precisamente os homens que modificam as circunstâncias e de que o próprio educador precisa ser educado...".

   Nesta observação se concentra toda a possibilidade da construção de uma ética para combater a ética egoísta, falsa e hipócrita do capitalismo dominante.