| A Ética na Emergência |
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Luís Carlos Sobania |
A
emergência representa uma situação ameaçadora, brusca
e que requer medidas imediatas de correção e de defesa. Também
significa acidente e necessidade urgente. A urgência no dicionário
médico consta como um estado patológico que se instala bruscamente
em um paciente, causado por acidente ou moléstia e que exige terapêutica
médica ou cirúrgica urgente. Que urge, que deve ser feito com
rapidez.
Em todas as cidades existem serviços denominados de
emergência ou de urgência ou como é comumente falado "prontos-socorros".
Uma questão que de inicio exige uma reflexão é que nesse
inicio de década, nestes anos 90, talvez muitos dos chamados prontos-socorros
não poderiam nem assim ser denominados, porque não apresentam
as mínimas condições de prestação dos serviços
que seriam obrigados a prestar, e isto estaria muito mais na esfera da justiça
comum do que na discussão ética, que é mais profunda. E
não vamos perder tempo com o que é do âmbito da política
e do Poder Judiciário.
A
emergência médica é muito diferente da medicina do posto
de saúde, do consultório. do tratamento programado, quer seja
ou não em hospitais, porque na emergência nós temos uma
situação única em que a decisão médica e
a decisão ética tem de ser imediatas. E esse imediatismo tem de
estar pronto, portanto as pessoas que trabalham nesses locais têm de estar
preparadas médica e eticamente dentro dos princípios médicos
e éticos para dar um atendimento competente e um respeito aos direitos
do paciente, que, por ser em um serviço de urgência, mais facilmente
corre o risco de ser ameaçado.
A emergência, os pacientes são levados muitas
vezes contra a sua vontade, recusando o atendimento médico padrão.
Muitas vezes podem estar com o seu estado mental perturbado, quer seja por um
problema psiquiátrico, por uma doença ou até por uma intoxicação.
Os médicos que ai trabalham têm muito pouco tempo para ter acesso
a capacidade de raciocínio, ou à competência do paciente
em tomar decisões que protejam sua saúde, e tem que tomar decisões
rápidas, sem ter o beneficio de poder consultar as comissões de
ética, por exemplo. Em muitos lugares, existe o atendimento pré-hospitalar,
em que o pessoal não médico trabalha e os médicos também
são responsáveis pelas decisões dessas pessoas e autorizam
medidas, sem ver diretamente os pacientes.
Na emergência, o trabalho e longo, duro, estressante,
sem adequado repouso e alimentação. Os médicos são
solicitados a tomar conta e a coordenar o cuidado de muitos pacientes simultaneamente.
Eles têm de estar cientes de suas limitações e capacidades
para dar o melhor cuidado aos seus pacientes e mesmo assim não diminuir
sua efetividade pela fadiga ou frustração.
O paciente tem dificuldade em manter um relacionamento confidencial
em um ambiente aberto no qual medicas, enfermeiras, pacientes, segurança,
polícia, socorrista e técnicos em medicina interagem simultaneamente.
Associado a tudo isso, acrescentam-se os problemas ocasionados
por um imperfeito sistema de saúde, que acaba sendo mais bem demonstrado
em um setor de emergência, dificultado pelas más condições
de trabalho, de poder dar o atendimento adequado, e acrescentando a isso, em
nosso país, a inadequada remuneração dos profissionais
da área da saúde, facilitando o risco de que o atendimento seja
alterado pelo status social, pelo tipo da doença, do trauma e até
da possibilidade de pagar, de ter ou não ter dinheiro.
A medicina é uma profissão a serviço
da saúde do ser humano e da coletividade e deve ser exercida sem discriminação
de qualquer natureza, e o médico deve agir com o máximo de zelo
e o melhor de sua capacidade profissional. Para que isso aconteça, deve
ter boas condições de trabalho e ser remunerado de forma justa,
de tal maneira que possa viver tranqüilamente e possa se atualizar constantemente,
podendo sempre indicar o procedimento adequado ao paciente.
Pelo nosso Código Penal, Código Civil e pelo
Código da Ética Médica, é vedado ao médico
deixar de atender em setores de urgência e emergência, quando for
de sua obrigação fazê-lo, colocando em risco a vida dos
pacientes. Esta e a obrigação maior da profissão médica
e, sem discussão, através dos tempos, o respeito pela vida de
outra pessoa. Dai o porque de devermos ser sempre contra a greve na emergência
e por extensão à pena de morte e à tortura.
A porta de entrada a um sistema de saúde se faz ou
por meio da atenção primária em nível dos postos
de saúde, dos consultórios ou por meio da emergência, quando,
de repente, por inúmeras razões, necessitemos de uma atenção
a mais imediata possível, senão corremos o risco de termos nossas
vidas realmente alteradas. E por esta razão que na situação
da emergência existe uma obrigação real do Estado de prestar
e assegurar este tipo de atendimento, que é totalmente independente da
questão ideológica, porque alguém inconsciente não
tem a capacidade e a competência de determinar o seu destino e a sociedade
como um todo tem de assegurar por meio do Estado o atendimento adequado ao cidadão.
Esta é a questão ética mais importante,
e ainda não está resolvida, porque o restante depende de competência
técnica que pode ser aprendida nos bancos escolares e no relacionamento
humano entre médico e paciente, que também pode ser ensinado e
que deveria sê-lo nos bancos escolares.
O acesso a setor de emergência é um direito individual
de toda a pessoa, e devemos lutar de todas as maneiras a remover as barreiras
que impeçam esse acesso. O direito à emergência é
igual ao direito à vida. A sociedade como um todo tem de tomar conhecimento
deste direito para poder assegurar um direito que se estende desde a fase pré-hospitalar,
hospitalar, seguimento ambulatorial e a reabilitação. A fase pré-hospitalar
é uma extensão do setor de emergência dentro da comunidade.
Os pacientes devem ter acesso rapidamente a pessoas treinadas para que possam
ser atendidas e transportadas adequadamente a hospitais onde possam receber
o atendimento correto. O acesso a esses serviços não pode ser
limitado, e cabe à comunidade, como um todo, participar junto com os
que governam assegurando os recursos mínimos para que isso aconteça.
Para que, quando a população necessitar, não lhe seja negado
o atendimento, tomando por base considerações de ordem financeira.
Como exigir condutas éticas, se a parte fundamental
não está corrigida? Este é fator fundamental que leva os
médicos e os pacientes a muitas vezes de digladiarem, a colocar grades
nas portas dos prontos-socorros para que só possam entrar pessoas em
estado real e flagrante da situação urgente, negando assistência
a quem procura médico e vai ao pronto-socorro porque sabe que lá
tem médico 24 horas. O que é urgência? Para quem tem dor
de cabeça, é urgente que ela passe. Como detectar isso? A dor
é subjetiva. Como limitar o atendimento? Faltam postos de saúde,
as pessoas estão sendo atendidas nos lugares errados. Os recursos para
área de saúde são ínfimos. Quanto cada um de nós,
as empresas, contribuem para isso? Quanto o Estado separa para a saúde?
Como resolver as questões éticas do relacionamento individual
da microssociedade, se a macrossociedade não se importa com isso.
Antes da discussão da ética médica, temos
de discutir a ética na sociedade. Enquanto nós cidadãos
não estivermos preocupados com a saúde, enquanto com saúde,
como poderemos nós quando traumatizados, injuriados, doentes, intoxicados,
gritar por nossos direitos? Por essa razão no nosso pais, neste ano de
1993, encontramos na área médica atividades de ponta altamente
sofisticadas em pleno funcionamento, ao lado de serviços de emergência
sujos, mal estruturados, pondo pacientes internados em corredores, quando deveriam
estar em unidades de terapia intensiva. Como discutir ética de relacionamento
médico-paciente, se de repente ele se acostumou a esta situação?
Os ministros da área da Saúde vêm se renovando
constantemente, e não vejo que, pelo menos na minha vivência nos
últimos 15 anos tenham realmente contribuído para que esta situação
que deve assegurar o direito à vida venha a melhorar. Deve a sociedade
por meio do Estado assegurar o direito à vida, e na área da medicina
deve existir um setor de emergência em cada vila, em cada cidade, que
assegure, dentro dos recursos disponíveis e com prioridade, condições
adequadas de tratamento por pessoal devidamente treinado profissional e eticamente.
Como conseguir isso? Na vida nós aprendemos que as
decisões importantes devem iniciar por quem as vai usufruir. Na áreas
da saúde deverão, portanto, participar os usuários por
meio logicamente de suas representações, os médicos e demais
profissionais da área da saúde, a área governamental correspondente
e todas aquelas outras pessoas que de alguma forma têm o interesse de
manter a saúde da população. Temos ai, portanto, pessoas
que por certo procurarão encontrar as melhores soluções
para um sistema de saúde. Terão de ter função deliberativa
e, se isso funcionar, em nível de cada governo, isto é, em nível
municipal, estadual e federal teremos finalmente pessoas que irão em
busca de recursos, que lutarão para que as decisões na área
do orçamento atinjam realmente a saúde e saiam do discurso puramente
eleitoral cumprindo o disposto na Constituição: "A Saúde
é um Direito de Todos". Esta é a maneira que os países
civilizados utilizam para que seus sistemas de saúde possam funcionar,
e todos com certa prioridade para
emergência.
No nosso pais, essas idéias já estão
na Constituição e nas leis, falta apenas operacionalizá-las.
São os Conselho de Saúde, solução ou pelo menos
encaminhadores efetivos com possibilidades de solução na áreas
da saúde. Se nós tivermos o principio básico da emergência
resolvido, ficará mais fácil discutir os diferentes aspectos éticos
do atendimento.
A relação médico-paciente começa quando
o paciente entra literalmente no sistema. O contato inicial geralmente é
efetuado por pessoal do hospital em um balcão de triagem, em uma sala
de espera. Algumas vezes o paciente pode até escolher o seu médico,
mas não é o mais comum. O ideal seria que essa primeira entrevista
fosse efetuada por pessoa da área da saúde e, neste caso, uma
enfermeira especializada em atendimento de emergência que na forma de
pré-consulta pudesse levantar os dados básicos, a história,
as queixas principais e os dados vitais fundamentais. Com isso ela poderia,
em um julgamento sumário conceder a prioridade ou não no atendimento.
A ordem aqui é de que serão primeiramente atendidos os casos mais
graves, mas todos serão atendidos. Nesta pré-consulta se percebe
a angústia, a ansiedade, e isto pode ser também prioritário.
A outra forma de entrada e quando vem trazida por ambulância, tendo sido
atendida na rua, em casa pelo pessoal médico e socorrista do sistema
pré-hospitalar de atendimento, onde o primeiro contato foi efetuado,
por exemplo, por um socorrista bombeiro que foi acionado por um telefone padrão
por alguém da comunidade, atendido em uma central de emergência
por médico que despachou uma ambulância para o local, informando
que lá chegaria em um prazo mínimo de tempo e que, dependendo
da informação, estaria também presente um médico.
Na urgência esse atendimento rápido no local do acidente, por exemplo
transmite uma tranqüilidade e uma esperança de salvamento. Sendo
atendida no local por socorrista, por médico e transportada adequadamente
para o hospital, convenientemente selecionado, inicia uma relação
mais fácil porque esta entrada ao hospital já é direta
ao setor médico, uma vez que já iniciou a fase de pré-consulta
e em parte já de consulta o que facilita a comunicação
com o hospital a situação mais ou menos critica do paciente. Desta
forma, o próprio hospital já pode se preparar para o atendimento.
Nesta fase pré-hospitalar, podem se apresentar pelo menos duas dificuldades,
a primeira a necessidade de deslocar ou não um médico para o local
do acidente, porque, na questão do trauma, a função pode
na fase pré-hospitalar ser delegada sob supervisão médica,
pois em um primeiro momento nós não precisamos fazer um diagnóstico
exato do que está lesado, e sim tratar de suas conseqüências:
proteger o ferimento; diminuir a hemorragia; manter a respiração
e as batidas do coração. Precisa ou não precisa do médico
no local. Esta é a decisão a ser tomada baseada nas informações
de quem pediu socorro e nas informações do socorrista no local
do acidente. Na duvida, deverá ter disponível e enviar um médico
ao local? A outra situação ainda na fase pré-hospitalar
é na relação com o paciente, que deseja ser conduzido para
determinado hospital que e aquele que não esta na relação
dos hospitais dentro do sistema de emergência da cidade e que muitas vezes
tem a competência para efetuar o tratamento. O que fazer? Obedecer rigidamente
ao sistema. O que pode ser a solução mais fácil desde que
essa regra tenha sido aprovada pelo Conselho Municipal da Saúde, ou então
saber administrar caso a caso. O que tem de ser uma decisão rápida
porque nesse momento está em jogo o resultado final, e cabe a responsabilidade
pelo caso a quem atende o paciente. Se o resultado final do atendimento for
mau, aquele que levou para determinado hospital também é responsável
em parte pelo mau resultado.
No hospital, o médico, ao entrar em contato com o paciente,
deverá dar o melhor de sua competência, respeitando a dignidade
de seu paciente. Deverá obrigatoriamente comunicar, se possível,
honesta e efetivamente, as decisões que deverá tomar para a proteção
da saúde. O primeiro objetivo, portanto, é dar um caminho para
se obterem resultados semelhantes, e isto existindo, nos teremos que respeitar
o direito de autodeterminação dos pacientes adultos que tenham
capacidade de tomar uma decisão apropriada. O direito do paciente e um
principio fundamental da nossa sociedade e, nesse sentido, para que ele possa
decidir, e necessário ser adequadamente informado. Por exemplo, em algumas
áreas da medicina o tratamento poderá ser cirúrgico ou
conservador, com Inconvenientes em ambos os processos. Se no dia do acidente,
o paciente não tiver muitas condições de tomar decisões,
talvez o dia seguinte seja o melhor momento. Lembro-me de um caso de meu professor
de ortopedia, que na visita médica hospitalar geral aos doentes diante
de um paciente que apresentava fratura de fêmur e que estava sob tração
esquelética, comentou que seria assim que gostaria de estar se tivesse
soando um acidente em uma de nossas estradas e, tendo perdido a consciência,
acordasse no dia seguinte em um leito hospitalar onde ao lado visse um médico
jovem que Ihe dissesse: "O senhor sofreu uma fratura diafisária
do fêmur e uma contusão craneana, e nós colocamos essa tração
para que agora o senhor pudesse decidir entre um tratamento cirúrgico
que lhe possibilitará ficar livre deste leito, que seja feito aqui, ou
em sua cidade; ou o senhor deseja permanecer em tração que também
e um bom método de tratamento, só que terá de permanecer
no leito de 60 a 90 dias?". Lembrou ainda que poderia acontecer de outra
forma, ter acordado no dia seguinte e ao lado do leito o medico Jovem lhe dissesse
: O senhor teve traumatismo craniano leve e, como apresentasse bom estado geral,
e uma fratura de fêmur transversa, nós aproveitamos e já
fizemos o tratamento adequado. Operamos e colocamos uma haste intramedular de
tal modo, que o senhor dentro de poucos dias poderá se locomover com
muletas e ficar livre do leito hospitalar". Este caso representa o exemplo
típico que pode acontecer no setor de urgência. O que passa no
cérebro de um traumatizado ao se dar conta do seu problema? Em um primeiro
momento houve um acidente, não sabe bem o que aconteceu, houve vozes,
gritos alguém lhe atende, pergunta se está tudo bem, é
tirado do local, "Graças a Deus" alguém está
atendendo, é colocado em um leito duro e dai, em cima de uma maca ou
algo parecido conseguir ver o céu, depois o teto de uma ambulância,
rostos preocupados, dar entrada em outro ambiente continuando vendo rostos e
tetos e depois não vê mais nada, de repente acorda com alguém
vestido de médico que não conhece, que não sabe aonde esta,
que hospital que está, que cidade está, que condições
tem esses hospital, falam tanto em infecção hospitalar e eu já
fui operado. Como proceder, deve agradecer por que alguém cuidou de mim,
devo questiona?
Em principio, quando realmente for possível o médico
é obrigado a dar um tempo suficiente para informar honestamente e respeitosamente
as informações para que o paciente possa entender e avaliar as
opções e decidir o que seria o melhor atendendo aos seus interesses,
na Informação deve estar claramente colocado os riscos e os benefícios.
O tempo que o médico dedica a esse ponto em um setor de emergência
vai estar necessariamente ligado a obrigação com os outros pacientes.
Na situação de emergência esta questão
está levantada desde que haja possibilidade para isso, se o paciente
tem a capacidade e competência de tomar decisões, nem sempre e
possível e na verdade nem sempre dá tempo para isso, mas o que
se vê é que parece nunca haver tempo e nos sabemos que em muitas
situações isto é perfeitamente possível.
O médico deve estar também consciente quando
atender menores de idade, resguardando os casos em que existe risco de vida
ou de grave perda funcional inadiável onde o médico tem autoridade
e competência de agir. O consentimento para tratamento deve ser obtido
dos pais ou de quem o representa legalmente, portanto nas condições
menos urgentes deve o médico envidar esforços em obter o consentimento
dos pais.
Poderemos ter situações em que os pais recusam
determinado tipo de tratamento, mas a severidade da lesão possa requerer
uma intervenção imediata. Nessa situação especifica,
seria importante a opinião de um segundo médico, que corrobore
com a necessidade da intervenção. E é necessário
estar documentado, assim como a comunicação do fato ao diretor
técnico da instituição. O nosso código de ética
também prevê que, em determinadas situações de menores
próximos da maturidade, eles mesmos possam tomar as decisões que
devem ser consideradas.
Outra questão que deve ser considerada similar aos
menores é a dos pacientes mentalmente incapacitados, seja naturalmente
ou pela propicia causa que originou a urgência. Deve o médico procurar
obter, se possível, o consentimento dos pais, ou de membros da família.
A verdade é fundamental e deve ser apresentada de maneira
que o paciente ou seus responsáveis possam entender, em algumas situações,
a presença de um médico conhecido da família poderá
ajudar a compreender a necessidade de uma intervenção e restabelecer
um relacionamento entre o médico e paciente.
A confidência é um outro principio básico
na relação médico paciente. No cuidado adequado, o medico
necessita obter informações bastante intimas e deve, portanto,
tomar cuidado para que essas informações não sejam violadas
e perturbem a relação e que é mais público. Há
algumas situações que podem gerar conflitos áticos. O médico
tem a obrigação de seguir as leis e proteger a sociedade como
um todo.
Se o paciente revela uma informação ou tem uma
conduta que possa indicar um perigo a si mesmo e ou aos outros, deverá
o médico considerar se deve ou não violar a confidência.
Essas circunstâncias em geral incluem a comunicação de uma
doença de notificação compulsório e até de
notificar a policia, se for crime de ação publica. Enquanto o
médico coloca na mente estas dificuldades e faz o balanço entre
o paciente e a proteção da sociedade, deve lembrar que não
é agente de polícia e que o principio da confiabilidade não
pode ser violado por qualquer coisa. O interesse no cuidado da saúde
do seu paciente deve ser a sua principal preocupação.
No setor de urgência, a questão da manutenção
da vida e do atendimento à parada cardiorespiratória é
com certeza o momento mais angustiante, na verdade a razão principal
de ser do setor de urgência. Todo o serviço deverá ter um
protocolo de atendimento que deverá ser seguido rigidamente em todos
os seus tópicos, até que finalmente o responsável considere
o paciente morto. Esta situação de parada cardiorrespiratória
poderá eventualmente acontecer em momentos na vida de uma pessoa que
possa apresentar situações que mereçam considerações,
como, por exemplo, com uma doença terminal o paciente tenha manifestado
o desejo de que não se tomasse medida de ressuscitação,
caso tivesse uma parada cardiorrespiratória. Quais os limites de respeitar
esta decisão? Saberá o paciente realmente de sua situação?
Estará o médico que o atende comumente com a certeza do diagnóstico
e evolução? Neste ponto nos encontramos em um terreno que está
entre tomar uma atitude médica, e que na dúvida deve ser tomada,
ou então passarmos a iniciar uma discussão que entra no campo
da eutanásia passiva, que não é o assunto deste capitulo,
mas que devemos encarar com maior serenidade, porquanto a eutanásia ativa
na nossa opinião não faz parte da prática médica
e é eticamente inaceitável.
A minha experiência no setor da urgência tem mostrado
outro campo que é freqüentemente desrespeitado. Como fica a família
do acidentado, do doente? Ela é habitualmente relegada a um canto, sem
ter acesso só a nenhuma informação, como se ela não
fizesse parte do caso, como se o paciente que está sendo corretamente
atendido não fosse mais parte daquela família, como se o setor
de urgência não tivesse obrigação com aquelas pessoas.
Lembra o passageiro de uma aeronave que não obtém nenhuma informação
na eventual complicação a bordo e que isso diz respeito apenas
aos que dirigem e cuidam do avião. Parece que esqueceram que os pais,
os cônjuges, os filhos, os amigos não têm sentimentos, não
tem dúvidas, não sofrem angústias. Quantas vezes fomos
chamados por um familiar amigo para ir até o pronto-socorro, uma vez
que, por eu ser médico, poderia ter acesso a um setor de urgência
e poderia saber o que estava acontecendo com seu filho, se estava vivo, se estava
morto, se tinha condições de sobrevivência, pois já
estava uma hora lá dentro e ninguém dizia nada. Em um tempo em
que o homem assiste o parto de sua mulher, em um tempo em que a criança
tem o direito de ter a presença da mãe ao lado de seu leito no
hospital, ainda é difícil a obtenção de informações
em nível do setor de urgência. No serviço de emergência
padrão, deve existir a sala da família, onde algum profissional
da área da saúde poderá mantê-los informados. O ideal
talvez fosse uma psicóloga, pois existem pessoas mais ou menos angustiadas
a quem o médico, no momento possível, desde que não interfira
na sua ação, tenha a obrigação de levar o conhecimento
da real situação.
Podem existir conflitos entre o médico, o paciente,
os familiares e a questão da transferência de médico ou
de hospital pode surgir. Deve o médico, considerar esta situação
como natural e discutir o problema com quem de direito. A primeira situação
seria, o que é dever fundamental do médico que é se o paciente
necessitar de cuidados mais intensivos que o hospital não consiga resolver.
O médico é que deve solicitar a transferência, dando toda
a assistência para que isso se efetive adequadamente. A outra poderá
ser a impressão do paciente e dos familiares. Senão houver risco
real de vida, deve o médico expor claramente os outros riscos e concordar
desde que os cuidados de transporte ou para onde se dirigir o paciente forem
adequados. O melhor resultado nós vamos obter quando o paciente quiser
ser por nós tratados.
Um outro tópico se desenvolve e acaba acontecendo no
setor de urgência, é a questão da morte encefálica,
que leva a decisões sobre a possível doação de órgãos
para o transplante. O medico que atende urgências tem de entender claramente
os critérios de morte encefálica, e o paciente que acabou de ter
decretada essa morte torna-se um candidato a poder ajudar a outros pacientes.
Cabe a esse médico que durante horas lutou pela vida e com toda compaixão
possível, calmamente, informar a família da situação
para que ela possa entender, compreender e decidir pela doação,
no caso de o paciente em vida não deixar nenhum documento explicitando
este desejo, já que a lei lhe dá esse direito.
O setor de urgência em um hospital é o lugar
onde principalmente em nosso meio há uma troca constante de pessoal pelo
trabalho árduo, estafante que lá se exerce. O controle de qualidade,
portanto, não é fácil de ser mantido e deve e tem responsabilidade
sobre este setor o diretor técnico da Instituição no sentido
de manter educação médica continuada, por meio de cursos
e fundamentalmente no estabelecimento de protocolos em cada tipo de ação
que exerça. Isto manterá uma rotina em cada procedimento, que
deverá ser obedecida rigidamente em cada hora, em cada dia, por cada
um dos plantonistas, de tal modo que a rotina seja mantida e as mudanças
que existam sejam justificadas e todos os atos devidamente documentados. Só
desta maneira, teremos condições de verificar na evolução
a qualidade do atendimento. No setor de urgência, o paciente procura ou
é conduzido ao hospital, não procura diretamente este ou aquele
profissional em um primeiro momento porque a situação de urgência
não é esperada. A existência de protocolo, a fiel, mas sucinta
descrição dos atos executados, seguindo um protocolo previamente
discutindo e aprovado medicamente, coerente, em um prontuário, é
a maior defesa que o médico terá, se for necessário no
Âmbito ético, bem como no campo da justiça comum.
O tratamento na área da urgência termina
em geral ou na internação que se dá ao redor dos 30% dos
casos e onde nós teremos outros tipos de responsabilidades e condutas
éticas que não cabem agora discutir, ou então no encaminhamento
para casa e para um atendimento de seguimento ambulatorial que todo o hospital
de emergência deve ter. O paciente sairá com uma receita do que
fazer, e a este doente terão de ser fornecidas as informações
sobre o que possa acontecer principalmente sobre as possíveis complicações
que possam advir, quer pela evolução natural doença, quer
por possíveis complicações do próprio tratamento
efetuado, pois em medicina não existe o absoluto. E uma profissão
de meios, apesar de que em parte em determinadas situações seja
também de resultado. O ideal é que essas informações,
além da descrição oral, fossem feitas também por
escrito, não sendo tão difíceis porque elas já estão
até padronizadas, e isto facilitaria o entendimento entre o médico
e paciente, principalmente se forem decorrentes do tratamento. O paciente, quando
atendido no setor da urgência, pelo problema apresentado que não
era esperado, fica de certo modo perturbado e acaba muitas vezes não
escutando o que o medico falou e, se receber por escrito, com certeza irá
ler no aconchego do seu lar.
O médico trabalha com enfermeiras, técnicos
de raios x, técnicos de laboratório, assistentes sociais, psicológicos,
pessoal da ares de recepção, socorristas do atendimento pré-hospitalar
e outros médicos. Deve existir um inter-relacionamento em que além
da cordialidade e boa educação, prevaleça a competência
profissional, que é o que irá atender o melhor interesse do paciente.
O médico é que tem a maior responsabilidade sobre os aspectos
no manuseio do paciente, e toda a função exercida por outros profissionais
é por ele delegada, para isso ele tem de ter a competência de estar
em dia com o avanço sempre existente da medicina. Isto acontecendo, muito
provavelmente por parte dele não existiria nenhum deslize ético.
Mas quando a falta de cordialidade e de educação prevalecer, então
sim passaremos a ter dificuldades no relacionamento. Quando a falta de competência
surgir, perderá o médico o seu espaço e as outras profissões,
principalmente a enfermagem, ocuparão o seu lugar. Ao que parece é
o que vem acontecendo com as diversas áreas da saúde, necessitando
de repente revisar e definir o que é ato médico.
E no campo da emergência que o hospital está
exposto à maior quantidade de queixas e reclamações. É
aqui que entra de modo importante a comissão de ética da instituição,
um fórum relativamente recente e ainda não foi percebido pela
população como um lugar onde poderá esclarecer suas dúvidas
e até encaminhar uma reclamação real de um atendimento
não realizado corretamente. Recordo que em um dos hospitais de emergência
que eu visitei, em toda informação escrita, fornecida ao paciente,
existia no final um aviso para que, se tivesse alguma discordância ou
reclamação a fazer, se dirigisse este fato para seus amigos e
familiares. Outro fato importante seria estar afixado em local visível
os nomes da comissão de ética e o respectivo local onde poderiam
ser encontrados, em uma demonstração clara de que o hospital está
preocupado com o bom atendimento de seus pacientes, para que se algo houve que
não correspondeu, o hospital demonstre o firme propósito de corrigir
falhas que porventura existam.
O serviço de pronto-socorro apresenta a oportunidade
do médico utilizar vários sistemas de diagnósticos; no
tratamento, a oportunidade de usar os mais variados tipos de implantes. Em virtude
disso, tem de tomar cuidado com os presentes que possa ganhar da indústria
biomédica, que não podem e não devem influenciar no julgamento
do que utilizar. Pequenos presentes ou alguma forma de melhorar a educação
podem ser aceitas, mas presentes de alto custo, viagens que irão influenciar
o julgamento clinico não podem ser aceitos.
Na vida de uma cidade, existem momentos que podem se transformar
em grandes tragédias, que é quando acontecem desastres como acidentes
com transportes coletivos, ônibus, avião, trem, em que ar mesmo
tempo surgem dezenas de feridos. Nesses casos, o médico que atende urgências
terá de tomar decisões que beneficiem o maior numero de sobrevivestes.
Isto acontecerá na triagem de quem podara se beneficiar dos recursos
existentes, optando em primeiro lugar, por aquelas pessoas que julgar em estado
grave, enquanto outras que apresentem lesões menores devem ser colocadas
em situação confortável, para que possam aguardar a sua
assistência até que as coisas se acomodem.
Todas as questões que apresentamos já foram
estudadas, já foram discutidas, já estão escritas. Por
que será que levamos tanto tempo para operacionalizá-las? Por
que será que o ensino da emergência-urgência, a maneira de
se comportar, encontra tanta dificuldade em ser ensinado, nas escolas médicas?
Será porque a medicina se desenvolveu tanto, com fatos detalhes técnicos
em cada ato que se tornou difícil juntá-los todos em um só
indivíduo e ao mesmo tempo considerá-lo um ser humano que sente,
que sofre que não sabe das coisas? Creio que não dedicamos o tempo
suficiente para estudar, falar de pessoas; de como nos entender com elas. O
curso médico se transformou em informações, conhecimentos
e competências técnicas que são muito importantes. Mas a
formação médica só estará completa com o
domínio do conhecimento e do comportamento do homem sozinho ou vivendo
em sociedade, e é na emergência que a fragilidade da estrutura
emocional se coloca na superfície. Teremos de incentivar esses aspectos
na formação do nosso profissional da área da saúde,
principalmente o médico, que normalmente comanda essa equipe.
O último tópico que gostaríamos de discutir
é a greve na emergência. Nós já vimos que o nosso
código da ética, que o código da vida, dá-nos o
direito de fazer greve, mas, com a exceção do setor de urgência.
Do ponto de vista ético, a discussão terminaria aqui, pois é
vedado ao médico deixar de atender em setores de urgência-emergência,
quando for de sua obrigação fazê-lo, colocando em risco
a vida de pacientes, mesmo respaldado por decisão majoritária
da categoria. Mas, mesmo assim, alguns conceitos eu gostaria de emitir. Em todas
as greves do setor saúde que eu presenciei, existiam as conhecidas comissões
éticas de triagem, que definiam o que era ou não emergência
e com toda certeza ocorriam erros de diagnóstico. O que é emergência?
Nem os médicos sabem com certeza delimitar os seus limites. O que não
é emergência para o médico nesse momento, pode se tornar
daqui a pouco. E a emergência que o médico não viu que,
deflagrada a greve, o paciente não procura atendimento porque sabe que
não será atendido, então o caso se agrava e não
dá mais tempo de fazer alguma coisa. O sistema de saúde francês
foi em busca também da definição do que é emergência,
mas, junto aos usuários do sistema, o que a população entende
por emergência. Na verdade nós vamos lentamente nos envolvendo
em todo o conceito de greve no setor saúde. As greves existentes ou que
existiram sempre foram contra instituições, e nunca contra os
usuários, que normalmente contribuem com o que lhes é pedido.
Mas são eles as vítimas, e o setor os usa como reféns,
é justo?
A greve no setor da saúde, portanto, no meu entender,
não tem trazido de forma clara os resultados almejados. Acredito que,
somente quando discutirmos a crise do setor com aqueles que o usufruem e os
fizer-mos entender que o ganho adequado e melhores condições de
trabalho é fundamental para o bom atendimento, nós teremos a solução
para esses problemas. Já existe possibilidade que é a representação
médica nos conselhos de saúde, que podem deliberar para onde vão
os recursos disponíveis e com que prioridade.
Finalmente, podemos tirar algumas conclusões sobre
a ética e a responsabilidade médica na emergência. Aqueles
médicos que trabalham no setor têm a obrigação de
dar o melhor de sua atenção técnica e ética a todos
os pacientes que procuram esse setor. E a instituição que o mantém
tem obrigação de fornecer a ele direta ou indiretamente uma educação
médica continuada, que possa manter sua qualidade no atendimento, exigindo
das organizações mantenedoras que forneçam os recursos;
que eles sejam correspondentes às necessidades, mantendo em todas as
áreas sistemas de controle de qualidade, usando, se for necessário,
os órgãos fiscalizadores das profissões, não se
esquecendo de lançar mão também da justiça comum.
Bibliografia
- American College of Emergency
Physicians. Ethics Manual, Anais of Emer-gency Medicine. 20: October, 1991,
1153-1162.
- Código de ética médica. Resol. CEM 1246/88.
- Dicionário Médico-Blakiston-2a Edição-Organização
Andrei Editora Ltda-São Paulo.
- Dicionário de Termos Médicos-88 Edição: Dr. Pedro
A. Pinto-Editora Científica-Rio, 1962.