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Parte II - Conceitos Básicos Volta índice | |
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Franklin
Leopoldo e Silva |
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Da Ética Filosófica
à Ética em
Saúde |
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Ética e
conhecimento Quando pretendemos situar a ética
no contexto das dimensões culturais, encontramos de pronto um primeiro problema. Como
separá-la de outras manifestações como, por exemplo, o conhecimento e a religião?
Será possível uma separação tal que a ética se constitua como uma instância
autônoma da cultura, claramente definida na sua especificidade? A relevância da ética
nos leva naturalmente a assinalar para ela um campo próprio, a partir do qual possamos
reconhecer um modo singular de existir, em primeiro lugar característico do ser humano e,
em seguida, delimitado com nitidez entre as dimensões da existência. Podemos partir
deste pressuposto, mas quando vamos entender concretamente esta separação e esta
especificidade as dificuldades se multiplicam. Elas aparecem quando tentamos, por exemplo, fazer a
distinção entre ética e conhecimento. Podemos dizer que quando descrevemos o mundo e
procuramos compreendê-lo efetuamos juízos que nos permitem assimilar a verdade dos
fatos; para compreender estes fatos efetuamos outros juízos, mais abstratos, acerca da
ligação entre eles e das razões que sustentam tais conexões. Conhecer as coisas é
descrevê-las e apreender racionalmente as relações que interligam os fenômenos.
Dizemos que aí encontram-se juízos porque se trata de uma atividade que inclui não
apenas a mera descrição, mas julgamentos acerca da validade e da necessidade das
conexões que pouco a pouco vamos conhecendo. São tais julgamentos que nos permitem
enunciar leis científicas. Estas não se encontram dadas simplesmente naquilo que
percebemos, mas é a partir do que percebemos e observamos que nos julgamos autorizados a
formulá-las, atingindo assim conhecimentos que superam os fatos parti-culares, embora
digam respeito a eles. Isto significa que a observação da realidade com vistas ao
conhecimento nos leva a julgamentos acerca desta própria realidade. É claro que quando
falamos em julgamentos, nesse sentido, queremos dizer apenas que a observação nos
autoriza a avaliar de forma mais ampla e mais geral o comportamento dos fenômenos, o que
nos libera do particular e nos abre o vasto horizonte da legislação da natureza: sabemos
não apenas como os fenômenos se comportam, mas também como eles devem se comportar,
pois as leis gerais valem para todos os fenômenos dentro das condições determinadas
pelos critérios da experiência. É evidente que assim alcançamos regras de
generalidade e de universalidade que ultrapassam o mero plano dos fatos estritamente
considerados. Atribuímos à natureza um grau de necessidade que nenhuma observação
particular poderia em si mesma justificar. E quando representamos a natureza desta
maneira, entendemos que possuimos acerca dela um conhecimento muito superior àquele que
nos forneceria a percepção atomizada de fatos isolados. Julgamos que o conhecimento
progride quando empregamos procedimentos intelectuais de ordenação, para por meio deles
justamente inferir a ordem dos fatos. Ora, uma das distinções que se costuma fazer para
separar conhecimento e moral é considerar que os juízos que a ciência emite estão na
ordem do ser e os juízos propriamente morais na ordem do dever ser. Com
isto, se quer dizer que a ciência trata da realidade como ela é, e a moral da realidade
como ela deve ser. A ciência elaboraria juízos de realidade e a moral juízos
dependentes de normatividade. Mas já vimos que a ciência atinge justamente os graus mais
elevados de conhecimento quando apreende as regras de conexão responsáveis pela
produção dos fenômenos. Já Aristóteles reconhecia que o saber acerca das coisas
inclui necessariamente o conhecimento das causas de seu aparecimento e de seu modo de ser.
E as epistemologias modernas enfatizam a constância das relações causais como um dos
mais importantes requisitos de conhecimento. Remeter desta maneira fatos a outros fatos
para apreender não apenas relações específicas mas a estrutura dos fenômenos já é,
certamente, avaliar a natureza, se não no sentido de qualificá-la pelo menos na
tentativa de compreender na maior generalidade possível a trama tecida pelos fatos. É preciso lembrar, ainda, que algumas teorias do
conhecimento da antiguidade _ como a de Aristóteles _ e da modernidade _ como a de
Leibniz _ incluíam na compreensão desta trama não apenas a eficiência causal da
produção fenomênica como também a finalidade a que cada parte está submetida na
arquitetônica da totalidade. Não bastaria entender como os fatos se produzem, mas seria
preciso compreender a função de cada um no conjunto e as razões da ordem esta-belecida.
Embora muitas vezes criticada na história das epistemo-logias modernas, a causalidade
final indica que o esforço de conhecimento solicita, como que naturalmente, completar-se
na formulação das indagações relativas ao porquê dos fenômenos descritos na
estrutura da realidade. E certamente este tipo de resposta, se fosse possível, permitiria
um tipo de conhecimento que não seria somente mais abrangente, mas mais avaliativo, isto
é, possibilitaria julgamentos mais seguros acerca da totalidade, pois nos faria ver _
talvez com mais clareza _ o sentido das partes e do todo, a razão da posição de cada
elemento na articulação geral e o modo pelo qual convergem, na sintonia e na diferença.
Não se poderia dizer a partir daí que inferiríamos, ao menos parcialmente, algo como as
normas que governam o real tanto no sentido do ser quanto no sentido do dever
ser? E, contudo, estaríamos ainda no plano dos juízos de
realidade, no sentido em que os entendemos quando dizemos que a ciência os produz para
descrever compreensivamente os seus objetos, articulando as percepções e sistematizando
a experiência. Mas talvez não fiquemos apenas nisto. Por um misto de ingenuidade e
pretensão, muitas vezes emitimos juízos que qualificam a realidade. Dizemos não apenas
que as coisas são desta ou daquela maneira, mas também que é bom que sejam assim, ou
que é mau, ou que poderiam ser de outra maneira. Talvez, de maneira implícita, isto
ocorra sempre, sendo impossível olhar as coisas sem atribuir a elas um valor, embora a
disciplina da atitude científica nos leve a recalcar este modo de julgamento. Talvez
persista na mentalidade do senso comum, e naquilo que o cientista tem de homem comum, algo
do animismo da relação primitiva com o mundo, que fazia com que todas as coisas
aparecessem como propícias ou maléficas, extravasando poderes que interferiam na vida e
nas ações humanas. Conhecer, neste caso, era também saber como aproveitar o caráter
benéfico e propiciatório ou conjurar o mal que as coisas poderiam causar. A ciência
eliminou esta valoração primeiramente pelo conhecimento das causas materiais que regem o
comportamento dos seres naturais e, em segundo lugar, estabelecendo leis gerais e
necessárias que nos permitem prever este comportamento para, desta forma, dominá-lo. O
mundo deixa de ser enigma quando o conhecimento se torna sinônimo de determinação
necessária. Critérios
éticos Quando pela primeira vez se tentou ligar conhecimento e
ética, o problema que surgiu foi justamente o da determinação necessária, isto é, a
dificuldade de estabelecer parâmetros de necessidade para as ações e, principalmente,
para os critérios pelos quais conferimos às ações este ou aquele valor. É possível
estabelecer condições gerais e necessárias a partir das quais possamos determinar o
valor ético das ações? Aristóteles pensava que não. Aquele que julga eticamente não
o faz a partir das mesmas condições daquele que conhece os objetos físicos. Aquele que
age moralmente não o faz da mesma maneira pela qual avalia a causalidade necessariamente
presente na ligação entre os fenômenos. Isto ocorre porque o universo das ações
humanas não é regido pela necessidade. O conhecimento eventualmente presente na esfera
da moral pode, portanto, não ser também necessário. É conhecida a interrogação
socrática acerca da possibilidade de se ensinar a virtude. Ensinar alguma coisa supõe
saber com certeza o que esta coisa é para poder transmiti-la com clareza àquele que vai
aprender. O homem de bem sabe com absoluta segurança teórica o que é o Bem? A prática
do bem supõe este saber? É possível saber, ensinar e aprender em moral como sabemos,
aprendemos e ensinamos geometria? A resposta é não, e a razão disto é a diferença
que existe entre conhecimento teórico e conhecimento prático. O conhecimento teórico se
constitui como saber acerca do que é necessário. O conhecimento prático se constitui
como saber acerca do que é contingente. O saber das coisas humanas pertence a este
segundo tipo. Daí as dificuldades e as oscilações que caracterizam os juízos morais.
Daí a interferência, nestes juízos, de fatores que no conhecimento teórico têm pouca
ou nenhuma influência. Por que nos julgamentos que envolvem decisões morais as pessoas
são sensíveis à persuasão derivada da eloqüência e da habilidade retórica daquele
que defende determinada causa? Por que a influência das emoções nestes casos pode ser
determinante? _ e os advogados sabem muito bem utilizar isto, já que se exercitam em
influir nas emoções daqueles que vão dar o veredicto. É porque nestes assuntos não é
possível a demonstração, ao menos no mesmo sentido em que ela pode ser efetuada
nas ciências teóricas. O bem e o mal não aparecem com a mesma imediatez e o mesmo
caráter coercitivo da verdade e do erro; não chego ao que é certo em moral da mesma
forma que chego à conclusão de um teorema. E no entanto existe o Bem, assim como existe a Verdade.
São critérios que em última instância servem de princípios para tudo que é bom e
para tudo que é verdadeiro. Mas não se passa do Bem ao bom da mesma forma que se passa
da Verdade ao verdadeiro. Melhor dizendo: não encontramos o Bem na contingência dos
fatos humanos da mesma forma que encontramos a Verdade refletida na demonstração das
conexões necessárias da ciência. Entre o que é necessário e o que é contingente a
diferença está na impossibilidade de demonstração; daí a aparente relatividade das
coisas humanas e do que se pode conhecer acerca delas. A Política, assim como a Ética,
participa deste caráter. Mas isto não significa um relativismo total, que resultaria na
impossibilidade de critérios que não fossem puramente circunstanciais e subjetivos. A
dificuldade da Ética consiste justamente em introduzir normatividade na contingência,
pois está fora de dúvida que quem age moralmente o faz a partir de normas que não são
apenas relativas à pessoa e ao momento. Dizer que as coisas humanas são relativas é o mesmo
que compará-las a um absoluto que as transcende. Este absoluto nunca se fará presente no
universo das ações, de maneira direta, mas constituirá sempre uma referência, pois
agir bem significa realizar o bem no plano da contingência, isto é, agir em vista de um
Bem que transcende a desordem humana. O fato de que não existem regras teóricas para
isto não afasta inteiramente a ação do conhecimento do Bem. Podemos dizer que quem age
moralmente conhece de certa maneira o Bem, pois o traduz, por assim dizer, na
particularidade de sua conduta. A extraordinária dificuldade que a Ética tem que superar
é o reconhecimento das mediações que se interpõem entre o Bem absoluto e as ações
particulares e contingentes. Nesta mediação está contido o discernimento, que é
a distinção entre o bem e o mal sem qualquer regra teórica de identificação. Pois as
ações humanas acontecem sempre numa confluência complexa de circunstâncias, no meio
das quais é preciso discernir o modo correto de agir. É sábio aquele que possui este
discernimento. Trata-se de um saber bem diferente do saber teórico, pois consiste
essencialmente em discernir o verdadeiro em meio à contingência, que não é a ordem
ideal das conexões necessárias da ciência. Teoria
e prática É a este saber que denominamos prático. Não
significa que ele seja uma aplicação da teoria, mas sim um outro saber que versa sobre
um objeto específico: a ação. Esta separação entre o teórico e o prático pode dar a
entender que a Ética está irremediavelmente relegada a um grau menor de certeza, sendo
portanto um tipo de saber inferior. Na verdade, esta distinção faz aparecer a autonomia
e a especificidade da Ética. Pois justamente mostra que ela não é uma teoria de segundo
grau, uma ciência incompleta ou um tipo de certeza flutuante. Trata-se de um saber de
outra natureza, com um perfil absolutamente próprio. Também a praxis humana
ganha, assim, um estatuto específico, já que é definida não apenas em relação aos
objetos da ciência teórica, como alguma coisa menor ou mais pobre, mas como um domínio
singular, afetado por extrema complexidade, sendo a contingência de que se reveste um
sinal desta singularidade complexa. Esta diferença de objeto e de procedimento enfatiza
de alguma maneira as proprie-dades singulares do universo humano, mostrando que ele é
diferente do mundo natural, muito embora o homem esteja, por muitos outros aspectos,
inserido na natureza. O que distingue assim tão fortemente o universo humano do mundo
natural é o valor, e por isto a Ética é o domínio dos juízos de valor. Isto nos leva ao problema da origem e da especificidade
destes juízos. Em geral, pode-se dizer que um juízo é sempre a subordinação de um
particular a um universal. Quando dizemos que a água é uma substância, estamos
referindo um elemento particular do mundo físico a uma categoria que, enquanto conceito
geral, subordina o particular e o define. O mesmo se poderia também dizer da
subordinação da espécie ao gênero (o cavalo é um animal). Tais relações servem para
ordenar o real e agrupar os objetos particulares, ressaltando a estrutura e o teor
sistemático do conhecimento. É possível notar que os conceitos gerais subordinam
particulares empíricos, mas relações do mesmo tipo podem ser estabelecidas entre entes
abstratos, na matemática e na lógica, como quando dizemos que seis é um número par ou
que a substância é uma categoria. A questão é saber se há um procedimento
rigorosamente paralelo quando dizemos que Pedro é generoso ou que a pobreza é uma forma
de opressão, ou que a mentira é um vício. Para que um juízo seja coerente, deve haver
concordância entre os termos empregados. Esta concordância aparece na visão da
compatibilidade entre o sujeito e o predicado, para tomarmos o juízo na sua forma mais
simples. Assim, quando dizemos que a água é uma substância ou que o cavalo é um
animal, a relação de subordinação está corretamente estabe-lecida porque, nestes
casos, há uma relação necessária entre os termos, o que faz com que o juízo exprima
um conhecimento. Aquele elemento que liga cavalo a animal ou água à substância é de
tal ordem que não permite a afirmação contrária como expressão de conhecimento. É
fácil notar que esta relação de necessidade não existe entre os termos da proposição
Pedro é generoso. Certamente, podemos dizer que quando a formulamos exprimimos que o
indivíduo Pedro pode ser incluído no conjunto dos indivíduos generosos; mas isto não
corresponde exatamente à inclusão do cavalo no conjunto dos animais. Pois o que faz com
que Pedro seja generoso é diverso daquilo que faz com que o cavalo seja um animal. Não
podemos entender que cavalo não seja animal, mas podemos entender que Pedro eventualmente
fosse mesquinho, ao invés de generoso. Isto significa que não é necessário que Pedro
seja generoso, da mesma forma que é necessário que o cavalo seja um animal. O que liga Pedro à generosidade, não sendo da ordem
da necessidade, impediria que a afirmação da generosidade de Pedro tivesse um caráter
teórico. O que faz com que Pedro seja generoso passa por uma incrível complexidade de
fatores, entre os quais está um que é particularmente importante para avaliarmos o
significado do que atribuímos a Pedro. Este fator é a vontade. Ainda que esta
vontade esteja mesclada com mil outros fatores, tais como a educação e a influência do
meio, os interesses de Pedro e o contexto das suas ações, há sempre um nível em que a
atribuição do predicado moral supõe que o sujeito quis possuí-lo, decidiu algo a
respeito de si, optou por uma determinada maneira de agir e de posicionar-se diante de si
e dos outros. Ainda que a vontade esteja mais ou menos determinada por múltiplos fatores,
ela se exerce, e o sujeito projeta-se diante de si mesmo de uma certa maneira, a qual
depende das escolhas que faz. É este elemento, não submetido a uma necessidade estrita,
que confere à generosidade de Pedro o caráter moral atribuído a este predicado.
Suponhamos que Pedro fosse um ser estritamente determinado a agir generosamente, da mesma
forma que os corpos pesados estão determinados a cair se algo não os sustenta. Não
haveria, neste caso, moralidade na generosidade de Pedro _ moralidade supõe
vontade e escolha. Mas supõe, então, da mesma maneira, que possamos
apontar o ser que é capaz de escolher a partir da vontade, isto é, o ser não submetido
à necessidade. A tendência a responder imediatamente que os seres humanos são dotados
de tal capacidade não é, de maneira alguma, tão óbvia quanto se poderia pensar. O
homem não é um ser que se defina apenas por um aspecto. A expressão animal racional, a
mais antiga definição teórica do homem, mostra por si mesma a dualidade de aspectos.
Enquanto animal, o homem tem algo que o vincula aos seres puramente naturais. Enquanto
racional, tem algo que o distingue. Se permanecemos no âmbito da sensação e da
percepção, estamos falando de modalidades de representação que, embora eventualmente
mais aperfeiçoadas no homem, não diferem essencialmente do que acontece no caso dos
animais, que são capazes não apenas de sentir e perceber como também de estabelecer
relações de consecução, como o cão que foge quando seu dono pega um bastão, se acaso
aconteceu de já ter sido espancado. No entanto, apenas o homem pode emitir juízos, isto
é, relacionar um caso particular com uma idéia geral, por definição não imediatamente
presente na situação empírica dada. A origem destas idéias gerais, mesmo no que se
refere ao mundo natural, é problema que foi resolvido de diversas formas na história do
pensamento. Mesmo assim não há como explicar o juízo sem este tipo de vinculação. A
questão que se coloca no caso da Ética é: a que espécie de generalidade vinculamos o
particular quando formulamos juízos morais? Como já sabemos que na Ética formulamos
juízos de valor, responderíamos que é a valores que remetemos os termos dos juízos
morais. E dizendo isto abrimos uma outra questão, que é a da generalidade dos valores e
do fundamento desta universalidade. A questão dos
fundamentos da ética Assim como os juízos acerca de fatos, os juízos de
valor também se remetem à generalidade. Quando dizemos que Pedro é generoso, e ainda o
admiramos por isto, o que queremos dizer é que Pedro adota, como diretriz de suas
ações, um valor dotado de superioridade em relação aos indivíduos particulares. Ainda
mais: assim fazendo, Pedro se coloca como um exemplo da possibilidade de as ações
humanas particulares encarnarem valores gerais que as transcendem. Quando julgamos Pedro
por sua generosidade, estamos implicitamente entendendo que o mundo seria melhor se todos
fossem como ele. Pois se todos os valores remetem ao Bem, aquele cujas ações encarnam
algum valor está contribuindo para a realização do Bem no mundo humano. Pedro seria
aquele sábio, de que se falou antes, que sabe como situar-se no mundo, discernindo entre
o bem e o mal, e escolhendo a partir deste conhecimento prático _ que seria algo como um senso
moral. O sentido da apreensão de valores é um saber prático, que muitos filósofos
chamaram de sabedoria. Não se adquire a sabedoria da mesma forma como se
adquire o saber teórico. Por vezes se concebeu que as duas coisas se opõem. No início
do Cristianismo, São Paulo opõe a ciência mundana, fruto do orgulho da razão, à
sabedoria da cruz, fruto da humildade. Por isto, a sabedoria cristã aparece como loucura
para os não-cristãos. Santo Agostinho, em perspectiva semelhante, difere ciência de
sapiência para mostrar que a atitude teórica, mesmo que atinja alturas elevadas de
contemplação da verdade, como aconteceu com alguns filósofos gregos, não permite a
posse e a fruição do objeto mais desejado em termos de um saber absoluto, que seria
Deus. Pelo contrário, a aceitação da fé e do mistério da mediação de Cristo na
relação com Deus é que possibilitaria possuir a verdade. A hierarquia que o
Cristianismo estabelece entre a alma e o mundo redunda numa separação das duas
instâncias, o que não ocorria entre os gregos, para quem o homem e sua alma eram parte
do mundo. A separação cristã, propondo o desprezo pelas coisas do mundo, concebe a alma
como peregrina, isto é, como não integrada ao cosmos no qual ela provisoriamente se
encontra, já que o seu destino deve se realizar em outra dimensão. O homem estaria
sozinho na imensidão do universo, não fôra o contato com Deus, e por isto Deus deve ser
o único objeto de aspiração. Isto significa que nada, a não ser Deus, determina como a
alma deve agir no itinerário de purificação moral. Determinar-se por qualquer objeto
sensível ou natural é renunciar à condição sobrenatural que constitui a natureza da
alma. Portanto, somente valores sobrenaturais são dignos de orientar o homem; tomar
qualquer outro objeto como valor ou como critério de ação é rebaixar a alma. Com isto,
a solidão e o estranhamento da alma num mundo a que ela não pertence tornam-se ocasião
para a afirmação da autonomia, isto é, a liberdade da alma perante as coisas. Assim como a vontade, a autonomia constitui também
noção central na Ética. A moral propriamente cristã vê esta autonomia da vontade como
subordinação a Deus, entendida como livre aceitação da condição de criatura e dos
desígnios de Deus. A modernidade vai entender a autonomia como autonomia da razão, e
isto certamente repercutirá nas teorias éticas. Mesmo assumindo a finitude e as
limitações humanas, Descartes, no século XVII, não admitirá como critério de verdade
em qualquer âmbito senão a demonstração racional. A autonomia da razão consuma assim
a sua separação da natureza. Esta é menos a totalidade na qual o homem está inserido e
muito mais algo que ele deve dominar para seu proveito através do poder que lhe confere o
pensamento, traduzido nos procedimentos racionais da ciência e da técnica. Por isto, a
noção cristã de sabedoria é modificada: considera-se agora que sabedoria é a perfeita
integração da teoria e da prática com a finalidade de conseguir para o homem a
felicidade, isto é, o gozo dos bens que podem advir do saber e do domínio racional da
natureza. Esta perfeita integração, numa perpectiva racionalista, se transforma
rapidamente numa subordinação da prática à teoria, na medida em que se concebe uma
continuidade entre a ciência e a tecnologia. Neste império da razão, a ética só pode
ser concebida a partir de uma perspectiva teórica e racionalista. Este é o motivo pelo
qual a moral aparece em Descartes como um ramo do saber que depende, para a sua
constituição, das ciências mais fundamentais que a precederiam, como a metafísica, a
física e a matemática. De direito não haveria diferença, a não ser em termos de grau
hierárquico, entre a moral e as outras ciências. Assim se perde aquela diferença entre o teórico e o
prático, estabelecida por Aristóteles. O prático passa a ser concebido como o domínio
de aplicação do teórico, maneira como ainda hoje o entendemos. As conseqüências desta
mudança são de largo alcance. O que aí se afirma é a unidade de uma racionalidade que
doravante deve governar todas as instâncias do mundo humano. Esta racionalidade tem um
paradigma e uma finalidade. O paradigma é a exatidão do saber matemático, que a razão
clássica considera como critério por excelência de conhecimento e de obtenção de
certeza. A finalidade é o domínio racional que se traduzirá concretamente na
subordinação da natureza às necessidades humanas e na expansão da técnica como
extensão da ciência, que deve realizar praticamente o domínio do homem sobre o mundo. A
prerrogativa do sujeito intelectual que desta maneira se estabelece contribuirá para
obscurecer a especificidade da praxis, já que esta deve forçosamente se submeter
aos critérios da racionalidade técnica. De modo que a predominância de uma perspectiva
em princípio humanista, posto que afirmadora da autonomia da razão, traz consigo esta
ambigüidade, ou pelo menos esta questão: terá a racionalidade técnica alcance
suficiente para cobrir todos os aspectos da vida humana, sobretudo os aspectos éticos?
Submeter a totalidade do mundo e a totalidade da vida a tais critérios não implicaria em
reduzir o mundo humano à perspectiva decorrente dos princípios metafísicos e metódicos
de uma razão auto-sufici ente mas talvez confinada a um domínio restrito? A afirmação da autonomia racional constitui o que
ficou conhecido na história por Iluminismo. Kant o define como a maioridade do gênero
humano, isto é, a capacidade de utilização plena da razão, sem a submissão a dogmas
ou a autoridades; portanto, o exercício maduro da liberdade. Mas como definir a
liberdade? Se analisarmos o que ocorre na ciência, verificaremos que a racionalidade da
experiência consiste justamente em compreender a necessidade que, a partir de princípios
lógicos do entendimento, governa a natureza. Isto significa que no âmbito da
experiência de conhecimento, que é o domínio da razão teórica, não se pode falar em
liberdade pois tudo a que temos acesso é a uma conexão de fenômenos logicamente
sistematizada, mas caracterizada justamente pela insepara-bilidade de causa e efeito,
condição e condicionado. Sempre haverá, na ordem da experiência, que é a ordem da
teoria, fenômenos condicionados, por mais longe que formos na cadeia dos eventos
naturais. Isto faz parte do determinismo da natureza e é o que possibilita a ciência, no
rigor das suas explicações. Assim, a liberdade terá que ser procurada fora do campo da
experiência e da razão teórica. Kant institui, então, o domínio da razão prática em
que é possível pensar a liberdade e reivindicá-la para o sujeito moral, mas nunca para
um objeto natural. Esta separação permite que se fale como que de dois mundos: um em que
as coisas estão estritamente determinadas, pois não existe efeito sem causa; outro em
que o sujeito moral, no plano das decisões éticas que nada tem a ver com o plano dos
eventos empíricos, pode escolher e optar, atuando assim como causa livre, isto é, como
aquele tipo de causa que nunca se encontra no universo dos fenômenos. Com isto as ações
humanas podem ser remetidas à liberdade do sujeito, quer dizer, a algo que não atua
determinadamente, mas que pode iniciar absolutamente uma série de ações. A esta liberdade corresponde a autonomia de que deve
ser dotado o sujeito nas suas decisões morais, autonomia que para Kant deve ser absoluta,
ou seja, nenhum motivo de qualquer ordem pode interferir na decisão do sujeito, sob pena
de contaminar a vontade com elementos que a tornariam dependente de outra coisa que não
ela mesma. Mas, então, qual o critério para a decisão moral, se absolutamente nada pode
interferir? O critério é a forma da universalidade que deve orientar a ação. Somente a
forma atinge a pureza que o ato moral deve revestir. Qualquer conteúdo, por mais geral
que seja, constituirá uma motivação extrínseca e comprometerá a autonomia do ato
moral. Quando estamos diante de uma decisão moral devemos perguntar: o que ocorreria se
esta ação fosse adotada universalmente? Devemos agir como se o critério de nossa ação
devesse estender-se universalmente. Qualquer ato que não seja susceptível de
universalização se autocontradiz em termos morais. O que se percebe é o esforço de
Kant para encontrar o critério universal que deveria pautar o juízo moral. A radicalidade
com que ele concebe este critério o faz encontrá-lo somente na esfera do formal. Assim,
o que Kant chama de prático não corresponde à esfera da contingência, mas a um mun do
inteligível no qual a pura racionalidade da norma universal garante a moralidade do ato.
Por isto o próprio Kant nos diz que, dentro de tais parâmetros, jamais houve um só ato
moral praticado pela humanidade. Porém isto não o impede de formular o que o ato moral deve
ser, na coerência lógica que teria de caracterizá-lo, independentemente das
condições concretas de realização. Fundamento
e experiência moral O que sobretudo impressiona nesta concepção
formalista da moral é a separação drástica entre os planos do ser e o do dever
ser. Não se trata apenas de separar o conhecimento teórico ou científico da moral,
mas de separar todos os aspectos da vida concreta da realização ética. Independente da
apreciação que possamos fazer da teoria kantiana, o importante é perguntar o que isto
significa no processo histórico da civilização moderna. No limiar da contemporaneidade,
numa época em que a ciência calcada no modelo newtoniano alcança a plenitude de suas
possibilidades, o homem é separado como que em dois sujeitos: o teórico, que realiza o
ideal de certeza absoluta no interior dos limites do conhecimento científico, e o moral,
que para compreender-se na esfera de sua liberdade é obrigado a colocar esta liberdade
numa altura transcendental em que ela se situa distante do plano da experiência. Talvez
possamos ver nesta solução a que chega a filosofia crítica uma espécie de
consolidação do caminho tomado pela moder-nidade. O que Kant percebe é que, na
continuidade do teor unitário da racionalidade, instituído por Descartes, não seria
possível dar conta da moral pois a racionalidade científica não atinge o plano dos
requisitos do ato moral, autonomia e liberdade. Isto o levou a conceber uma outra esfera
de racionalidade na qual os critérios de determinação teórica não teriam vigência. E
com isto separou o conhecimento da ação, ao menos naquilo que a ação comporta de
decisão moral. Podemos medir o alcance deste acontecimento lembrando que, no caso do
saber prático preconizado por Aristóteles, o sujeito discernia no seio da contingência
o meio de realizar a ação que guardasse alguma correspondência com o Bem absoluto. Em
Kant este é um princípio formal, que a razão pensa de maneira isolada do mundo
concreto, que vai decidir acerca da moralidade, isto é , da conformidade da ação à
moral. Isto significa a tentativa de vincular a universalidade formal à ação. Ora, o
mundo da contingência se distingue de um universo logicamente necessário como o da
ciência exatamente devido à impossibilidade desta vinculação. Por isto a moralidade
kantiana acaba sendo muito mais um ideal de que devemos nos aproximar do que um critério
de discernimento para a experiência moral concreta. A época contemporânea sentiu mais de perto o impacto
da experiência moral concreta. Talvez a drama-ticidade da história deste século tenha
manifestado de forma mais intensa certas contradições entre elementos da ação moral,
com que antes as teorias trabalhavam de maneira pacífica. O Existencialismo é
seguramente a corrente de pensamento em que estes problemas apareceram de forma mais
aguda. Pois nele, pela primeira vez, a liberdade é vista como o exercício doloroso da
constante invenção de si mesma. Nas teorias clássicas, a liberdade aparece como uma
sábia conformação à necessidade. Existe um Deus, existe um mundo transcendente de
valores, existe uma teleologia histórica, existem referências que dão sentido ao mundo
e aos homens. Claro, existe a insensatez, o erro, o pecado, a desordem, a contingência,
enfim, mas tudo isto tem causas e explicações que são fornecidas pela razão e mesmo
pela fé. Há uma ordem previamente dada. Quando me insiro nela de maneira harmônica,
sintonizo com o universo e com os seus princípios. Quando se torna mais difícil
descobrir esta origem e esta finalidade, como em Kant, tenho ainda o recurso da forma, que
é também um princípio a que posso tentar conformar minhas ações. Quando não me ponho
em sintonia com a totalidade, não é de todo minha culpa, é antes algo derivado da
finitude que afeta irremediavelmente o ser humano. Enfim, há essência, que posso
realizar de maneira mais ou menos completa, mas que constitui referência prévia à minha
existência. Mesmo quando sinto o universo imenso e estranho, e Deus afastado, posso
contar ainda com a esperança. Mas quando não há mais Deus nem valores
transcendentes, quando não há um plano a realizar, que sentido atribuir às
contradições, à desordem dentro e fora do homem, e à miséria histórica? O
Existencialismo coloca da maneira mais crua a questão da imanência, isto é, nada
existe acima do humano com que o homem possa contar para ordenar o seu mundo e para
orientar as suas ações. É apenas diante de si mesmo que ele deverá construir seus
critérios e suas justificações. A liberdade não é uma forma de Deus testar o homem,
é a forma de o homem existir, é o dado primeiro, não há critérios anteriores de como
utilizá-la, ela se faz na continuidade dos atos que a exprimem, cada vez que o homem se
projeta na construção de si mesmo. A liberdade é um fardo, como foi o destino para o
homem antigo. É isto o que significa dizer que a existência vem antes da essência e que
o homem está condenado a ser livre. A história da humanidade e a história de minha vida
me colocam diante de opções. Como enfrentá-las sem critérios absolutos de
discernimento e de escolha? Tenho de inventar, para cada ato, o valor a partir do qual eu
o escolho, não encontro este valor, ainda que outro mo apresente, tenho que torná-lo
meu. Cada um é aquilo que se torna, aquilo que faz de si em cada momento da existência.
Uma ética com um único critério, que se confunde com um dado irredutível de realidade:
a liberdade. Assumi-la é lucidez e autenticidade; negá-la é má-fé. O Existencialismo está na vertente das éticas que
partem de uma profunda meditação acerca da situação humana, tal como a reflexão a
apresenta. Procura então uma maneira de proporcionar o encontro do homem consigo próprio
e com a história a partir da consciência, entendida agora não mais como essência, mas
como projeto. Mas há uma outra vertente que faz da exterioridade a matriz do pensamento
ético, e nesta linha estão as éticas utilitaristas. Partem, por exemplo, de uma
concepção da evolução dos conceitos éticos para estabelecer a origem prática e
utilitária destes conceitos. O bom teria sido, na origem, o útil, isto é, a ação
benéfica para o indivíduo e, principalmente, para o grupo. Má seria a ação
prejudicial. Com o passar do tempo e com o progresso da civilização esta utilidade
imediata deixou de aparecer claramente como critério, mas se manteve a distinção, que
foi aos poucos tornada abstrata e resultou nos valores Bem e Mal. Esta posição procura
buscar a origem dos valores por meio de uma reflexão histórica e psicológica acerca da
evolução da humanidade, e utiliza critérios de uma lógica imanente ao desenvolvimento
das necessidades humanas. Em última instância, seria a sobrevivência do grupo a origem
dos valores, que são então estabelecidos para manter obrigações morais que assegurem a
sociabilidade, a cooperação e a coesão necessárias à estabilidade da sociedade. Nesta
vertente, a liberdade importa menos do que a adaptação do indivíduo a esquemas de
conduta que ele já encontra prontos e aos quais é coagido a aceitar. A relatividade
cultural dos valores aparece, assim, de forma mais nítida, pois é a perspectiva
histórico-sociológica que procura dar conta do estabelecimento e das mudanças dos
critérios morais. Existe uma racionalidade na prescrição dos valores, mas ela está a
serviço da coesão social. Trata-se de uma figura da racionalidade técnica que se
estrutura por parâmetros exclusivamente utilitários. Ética
e progresso da razão A modernidade se caracteriza pela hegemonia da razão,
o que se traduz no triunfo do seu mais eminente produto, a ciência e os seus
prolongamentos técnicos. Na verdade, esta hegemonia nunca deixou de ser contestada, quase
desde o seu aparecimento. Mas o século XX assiste a uma crítica procedente de
fundamentos historicamente concretos, que derivam de uma reflexão acerca da relação
entre meios e fins nas realizações da razão. Trata-se de um problema ético, mas de
certa forma colocado de maneira mais abrangente. O que se questiona é se as promessas de
emancipação contidas no ideário iluminista foram cumpridas ou estão efetivamente se
realizando. E um olhar crítico sobre a história da modernidade mostra que não. A
expectativa de que haveria a união entre a teoria e a praxis, que deveria
corresponder a uma proporcionalidade entre o progresso científico-técnico e o aumento da
felicidade, não se confirmou. Isto pode ser constatado de várias maneiras no plano do
desenvolvimento histórico. O homem da modernidade não mais se encontra submetido a
injunções que caracterizavam, por exemplo, a ligação do homem medieval com as
instâncias do sagrado, concretamente representadas pela imposição dos dogmas e da
autoridade religiosa. Tampouco se encontra submetido às forças naturais, que a ciência
explicou e dominou. Mas o progresso da razão gerou novas formas de dominação
ideológica, que se manifestam nos campos social, político, econômico e que somente são
possíveis num mundo em que domina a produção, essencialmente vinculada ao
aperfeiçoamento dos meios técnicos de transformação da natureza. O que se questiona é
se, num mundo governado pela razão liberada das amarras que a prendiam em épocas
passadas, o homem pode viver efetivamente de maneira emancipada, isto é, realizar a
autonomia enquanto condição da vida ética. A profunda reflexão de Marx a propósito
das relações entre racionalidade e ideologia serviu, pelo menos, para estabelecer
sérias dúvidas acerca da vinculação iluminista entre progresso e liberdade. O que se nota é que a emancipação não se realizou
porque as exigências do progresso técnico fizeram com que as instâncias de controle em
todos os aspectos da vida se tornassem autônomas, o que trouxe como conseqüência a
submissão do indivíduo a tais mecanismos num mundo totalmente administrado. Tais
instâncias de controle não pesam sobre o indivíduo como a fatalidade das forças
naturais ou a autoridade eclesiástica. Elas foram estabelecidas como mecanismos racionais
absolutamente necessários num mundo regido pelo progresso técnico. Isto significa que
foram introjetadas na consciência do homem moderno como parâmetros naturais de
relacionamento com os outros e com o mundo. Esta autonomização dos critérios de
racionalidade provocou uma inversão entre os meios e os fins: o que redundou na
dificuldade de se dimensionar, no mundo contemporâneo, a capacidade de discernir os fins
à possibilidade de mobilizar os meios. Nunca se dispôs de tantos meios, e nunca eles
estiveram tão distanciados dos fins a que deveriam servir. Ora, estabelecer a relação
entre meios e fins é problema ético. A característica da contemporaneidade é a
incapacidade de estabelecer esta relação pensando o prático, ou seja, o universo da
realização humana, como finalidade do progresso técnico. O que se observa, então, é a
constante reposição das condições do progresso técnico como se este fosse uma
finalidade em si mesmo. A racionalização do social, do político, do econômico e até
da instância cultural significa a administração de todos os aspectos da vida através
de parâmetros de objetividade técnica, o que se traduz principalmente na hegemonia da
tecnocracia. O que evidencia a profundidade da crise que afeta o
mundo contemporâneo é que, do ponto de vista ético, a tecnocracia é uma contradição
em termos. A técnica se caracteriza como a produção de meios. Se ela mesma coordena a
aplicação dos meios às finalidades, esta relação acaba se estabelecendo no interior
da própria técnica. Esta é a razão pela qual a planificação tecnocrática não
produz efeitos fora do próprio âmbito técnico. Vistas as coisas no limite, o que
caracteriza uma tal cultura é a recusa da ética. Vivemos num mundo técnica e
administrativamente ordenado, de modo unilateral, pela alternância entre progresso
técnico e satisfação de necessidades criadas na própria esfera da produção. Nesse
sentido, o consumo não é a finalidade da produção, mas a sua necessária contrapartida
tecnológica. O que caracteriza a situação presente e torna difícil a busca de
soluções é que a crise da ética provém de um desdobramento de atributos e
conseqüências inerentes à própria racionalidade técnica e ao progresso científico e
tecnológico ocorrido a partir dela. Por isto, para aqueles que consideram a
inevitabilidade dos rumos da história da razão na modernidade, a situação que estamos
vivendo deve ser aceita como conseqüência necessária, mesmo porque seria insensato
pensar em soluções que representassem retrocesso em relação ao já conquistado pela
ciência moderna. A dependência da civilização em relação aos produtos da ciência e
da técnica afasta do horizonte histórico este tipo de hipótese. Crise
da razão e ética aplicadas O surgimento das éticas aplicadas, entre as quais
está a ética da saúde, responde a uma dupla necessidade: de um lado, tenta-se diminuir
a distância que se abriu, na modernidade, entre ética e conhecimento; de outro,
procura-se instrumentos para recolocar questões pertinentes à relação entre ciência e
valor, relação esgarçada por conjunturas históricas sobretudo contemporâneas, que
contribuíram para o aparecimento de dúvidas profundas acerca do significado e alcance do
progresso científico. Há nisto algo como uma constatação implícita de que
a hegemonia da racionalidade técnica já não permite que o pensamento acerca da vida
prática, que os antigos denominavam discernimento, realize-se numa instância
autônoma, gerando parâ-metros de conduta tais que resultassem numa manutenção da
densidade do espaço público, isto é, o plano das relações sociais e da ação
política. A esfera da vida prática esvaziou-se na medida em que a liberdade, nas
sociedades capitalistas modernas, passou a ser considerada simples possibilidade de
decidir individualmente sobre assuntos privados. Mas as causas que contribuíram para isto
também suscitaram um tipo de reação que consiste em tentativas de adaptar a reflexão
ética à diversidade dos domínios das especializações. É claro que o pano de fundo
destas tentativas é uma reflexão mais abrangente sobre a relação entre ciência e
valor; mas a impossibilidade de levar a cabo esta reflexão na sua generalidade, bem como
a urgência histórica de restabelecer pelo menos alguma parcela da dimensão ética do
conhecimento, levaram à constituição de campos delimitados de reflexão, sobretudo a
partir de áreas que se mostraram especialmente problemáticas. Não se pode deixar de
dizer que, no fundo, trata-se de uma subordinação da ética ao processo de
especialização e de fragmentação do saber. A outra face desta atitude nos mostra, no
entanto, um esforço para recompor, dentro de certos limites, o interesse ético que deve
fazer parte da atuação do pesquisador e do profissional, principalmente quando os fatos
indicam que a ausência de preocupação ética ocasiona a transgressão das fronteiras
que separam o humano do inumano. Foi devido a razões como essas que a Bioética surgiu
a partir da pressão de fatos históricos, reveladores de práticas de pesquisa das quais
estava ausente qualquer parâmetro de consideração da dignidade do ser humano. Após a
Segunda Guerra tomou-se conhecimento de práticas experimentais em seres humanos,
conduzidas sob o nazismo por médicos e cientistas, que ultrapassavam qualquer expectativa
imaginável de degradação. A primeira manifestação de caráter mais sistemático e
normativo a respeito do assunto consta do Código de Nuremberg, que estabelece regras a
serem observadas quanto à experimentação com seres humanos. Dentre os preceitos
formulados destacam-se: a necessidade de consentimento daqueles que serão submetidos ao
experimento; o consentimento deve ser dado livremente, por pessoas que estejam em plena
capacidade de decisão e às quais devem ser explicadas com absoluta clareza todas as
condições do experimento, quais sejam, natureza, duração, objetivos, métodos, riscos,
efeitos e inconvenientes. Não se deve optar por experimentos em seres humanos quando
houver outros procedimentos compatíveis com os resultados esperados. Os experimentos em
seres humanos, quando absolutamente essenciais, devem ser precedidos de experiências com
animais, de modo a prover o pesquisador de um razoável conhecimento acerca do problema
estudado. Deve-se reduzir ao mínimo os incômodos decorridos do experimento, e este não
deve ser conduzido se houver risco razoável de dano grave e permanente. O paciente e o
sujeito de pesquisa humana devem ser protegidos por meio de cuidados especiais, sob a
responsabilidade do pesquisador, que deve suspender de imediato os procedimentos se houver
situação indicadora de risco grave. O sujeito do experimento deve poder retirar-se dele
a qualquer momento, por livre decisão. Os riscos devem ser proporcionais aos benefícios
para o indivíduo e para a sociedade. O que estes preceitos indicam é um esforço para
estabelecer uma relação adequada entre meios e fins. Supõe-se que há uma medida
humana para avaliar-se os custos do progresso científico, e isto, por sua vez,
pressupõe que o destinatário deste progresso é o homem, o que torna contraditório que
ele seja visto única e exclusivamente como meio. Um dos preceitos fundamentais da ética
kantiana diz que nenhum ser humano será visto como meio para a obtenção de qualquer
finalidade, porque a dignidade humana impõe que o homem seja considerado somente como
fim. Nesse sentido a Declaração de Helsinque é bem mais explícita, mormente na sua
segunda formulação, ao dizer claramente que "os interesses do indivíduo devem
prevalecer sobre os interesses da ciência e da sociedade". Uma maneira de
compatibilizar esta hierarquia com a necessidade de experiências com seres humanos é uma
avaliação cuidadosa da relação entre riscos e benefícios, bem como uma antecipação
criteriosa dos possíveis efeitos resultantes. Tudo isto decorre de uma concepção
básica: há direitos humanos, que se situam acima de qualquer outro interesse.
Nada justifica a exposição de qualquer ser humano a situações que possam configurar
crueldade ou degradação. Este restabelecimento da preocupação ética no planejamento e
desenvolvimento do experimento científico responde à urgência histórica de coibir os
abusos cometidos pelos nazistas em nome da ciência. Apesar de tratar-se de códigos, isto
é, de conjun tos de normas que disciplinam procedimentos, os mesmos devem ser vistos a
partir de uma questão mais abrangente, que apenas se explicitou em conseqüências
assustadoras. Na verdade, e por mais que nos seja difícil
reconhecê-lo, planejar politicamente o extermínio de pessoas em grande escala, organizar
os meios racio-nais, isto é, administrativos e científicos para que o extermínio seja
eficiente, aplicar tais métodos de forma sistemática e calculada, utilizar pessoas como
cobaias, tudo isto está em continuidade com o predomínio da racionalidade técnica desde
que esta seja concebida como absolutamente hegemônica, quer dizer, sem qualquer
parâmetro externo com o qual tenha de se confrontar. No contexto de tal situação não
há incoerência no fato de que seres humanos sejam vistos como simples cobaias, mormente
se se trata de um determinado grupo que se quer excluir da categoria da humanidade.
Certamente estamos, neste caso, diante de uma anomalia, caracterizada pela situação de
barbárie a que os indivíduos são conduzidos sob um regime totalitário. A tendência é
recuar ante o horror, mas considerar que foi apenas um "episódio",
terrivelmente incompreensível, na escalada histórica em que afinal predomina o progresso
da civilização. Mas é possível pensar, também, que os totalitarismos, com tudo o que
trazem de violência e desumanidade, não são interregnos malignos que uma compreensão
abrangente poderia ajustar à totalidade da história. São, em grande parte,
conseqüências de virtualidades regressivas que o progresso traz entranhadas em seu
percurso. Esta visão, que pode parecer pessimista, auxilia-nos a
compreender as ambigüidades do progresso e a prevenir as monstruosidades que ele pode dar
à luz. É nesta direção que podemos entender as preocupações éticas que se expressam
nos códigos de conduta e em outros conjuntos de normas aplicadas às pesquisas e às
profissões. A Bioética é a ética da vida, quer dizer, de todas as ciências e
derivações técnicas que pesquisam, manipulam e curam os seres vivos. A ética da
saúde ocupa lugar proeminente neste conjunto, uma vez que se ocupa de questões que
têm a ver com a manutenção da vida no caso dos seres humanos. Sendo a vida o primeiro
de todos os direitos, a ética da saúde enraíza-se profundamente no solo dos direitos
humanos, e no seu estudo vamos encontrar, como regras de normatização, alguns dos
grandes princípios que vimos aparecer no percurso da ética filosófica. A autonomia,
quer dizer, o direito à liberdade, o respeito ao ser humano considerado como fim (que em
Bioética recebe o nome de beneficência) e a justiça, isto é, a eqüidade de todos os
indivíduos inscritos no reino da humanidade. Considerados como princípios absolutos não
se pode dizer que qualquer um deles tenha sido plenamente realizado em qualquer época ou
circunstância histórica. Ou são proposições da ética filosófica ou são ideais
presentes nas grandes transformações políticas, por exemplo, nas grandes revoluções
da era moderna, que entretanto os traíram no próprio ato de tentar realizá-los, como
ocorreu na Revolução Americana, na Revolução Francesa e na Revolução Russa.
Dir-se-ia que não estão dentro das possibilidades humanas, embora sejam o motor do
progresso civilizatório e das transformações históricas. principalmente no estado de
carência de grande parte da humanidade. Nesse sentido, a atitude justificacionista, isto
é, a tentativa de simplesmente explicar e compreender as desigualdades que resultam na
carência da saúde, é profundamente antiética, mesmo e sobretudo quando assumida por
filósofos e eticistas. É preciso conhecer a realidade e as situações sobre as quais se
vai exercer o juízo ético; mas fazer com que este juízo traduza uma mera justificação
do que existe é propriamente renunciar à ética. Bibliografia Adorno T, Horkheimer M. Dialética do esclarecimento.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986. Arendt H. As origens do totalitarismo. São Paulo:
Companhia das Letras, 1997. Aristóteles. Ética Nicomaquéia. In: ________. Obras
Completas. Madri: Aguillar, 1960. Berlinguer G. Ética da saúde. São Paulo: Hucitec,
1996. Descartes R. Obra escolhida. São Paulo: DIFEL, 1962. Frankena W. Ethics.
Englewood Cliff: Prentice Hall, 1973. Gracia D. Fundamentos de bioética. Madri: Eudema,
1989. Heinnemann F. A filosofia contemporânea. Lisboa:
Calouste Gulbenkian, 1983. Kant E. Crítica da razão prática. Buenos Aires: Losada,
1965. Pessini L; Barchifontaine CP. Bioética e saúde. São
Paulo: CEDAS, 1989. Robin L. A moral antiga. Porto: Despertar, s.d. Sartre JP. O existencialismo é um humanismo. Lisboa: Presença, 1969. |
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