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Parte I - Introdução |
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Sérgio Ibiapina Ferreira
Costa Volnei
Garrafa Gabriel
Oselka |
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Apresentando a
Bioética |
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Na
totalidade do contexto científico e tecnológico poucas áreas evoluíram com tanta
rapidez quanto a bioética. Se imaginarmos que apenas em 1971 o cancerologista
norte-americano Van Rensselaer Potter publicou a obra que referenciou historicamente a
área _ Bioethics: a Bridge to the Future _, os avanços conquistados nestes 27
anos podem ser considerados extraordinários. Atualmente, é enorme o número de
publicações periódicas e de novos livros que surgem diariamente tratando dos mais
variados enfoques sobre o tema, além de incontável a quantidade de eventos acadêmicos
oferecidos sobre bioética em praticamente todas as partes do mundo, dirigidas as mais
diferentes especialidades interessadas no assunto. Nem o próprio Potter poderia imaginar a velocidade como as
coisas transcorreriam. É oportuno mencionar que sua visão original da bioética
focalizava-a como uma questão ou um compromisso mais global frente ao equilíbrio e
preservação da relação dos seres humanos com o ecossistema e a própria vida do
planeta, diferente daquela que acabou difundindo-se e sedimentando-se nos meios
científicos a partir da publicação do livro The Principles of Bioethics, escrito
por Beauchamp e Childress, em 1979. A obra destes dois autores praticamente pautou a
bioética dos anos 70 e início dos anos 80, sob uma linha que, posteriormente, veio a ser
cunhada como "principialismo", ou seja, o desenvolvimento da bioética a partir
de quatro princípios básicos, dois deles de caráter deontológico (não- maleficência
e justiça) e os outros dois de caráter teleológico (beneficência e autonomia). Apesar
de não serem absolutos sob o prisma filosófico, estes princípios foram rapidamente
assimilados, passando a constituir a ferramenta mais utilizada pelos bioeticistas na
mediação e/ou resolução dos conflitos morais pertinentes à temática bioética. É
importante definir para os leitores da presente publicação, desde já, que o
principialismo é apenas um dos vários dialetos (ou formas específicas de expressão) do
chamado "idioma" ou "linguagem bioética". Apesar de este ser o
dialeto mais utilizado e, hoje, quase hegemônico, deve haver o cuidado para que o mesmo
não seja confundido com o próprio idioma (1). Atualmente, já são mais de dez diferentes linhas ou
"dialetos" utilizados pela bioética no seu desenvolvimento, como o
contextualismo, o feminismo, o contratualismo, o naturalismo, entre outras (2). Destas,
merece destaque, sem dúvida, o contextualismo, que defende a idéia de que cada caso deve
ser analisado individualmente, dentro dos seus específicos contextos social, econômico e
cultural. Esta visão, por exemplo, faz com que a cultura japonesa se defina não como
contrária ao princípio da autonomia, princípio este simplesmente inexistente na cultura
oriental. A análise da questão da autonomia para os índios ianomamis ou terenas pode,
também, ser enfocada dentro desse mesmo contexto. Toda essa exposição tem o intuito não de confundir o
leitor, mas, pelo contrário, deixar claro que hoje nos encaminhamos em direção à busca
de uma bioética mais global, a qual, não prescindindo dos instrumentos teóricos e
práticos que até aqui a caracterizaram (os "princípios"), deverá avançar em
direção a uma visão mais globalizada, e ao mesmo tempo mais específica, do mundo e do
contexto atuais. Ou, no dizer de Campbell: "...a idéia da abertura de uma nova
visão do que possa significar o ser humano, ouvindo a surpreendente diversidade de vozes
culturais que procuram fazer-se ouvir, à medida que a bioética se expande do Ocidente
para outras culturas" (3). É exatamente sob essa ótica que se insere a busca da
construção de uma original "bioética brasileira", se assim podemos dizer,
capacitada a enfrentar, mediar e, se possível, dar respostas aos conflitos morais
emanados das diferentes questões bioéticas relacionadas com os costumes (mores) vigentes
na nossa sociedade. Nesse sentido, para a elaboração deste livro houve um
especial cuidado tanto na seleção dos temas e seu ordenamento como nos diversos
autores/pesquisadores convidados para escrever os diferentes capítulos. Assim, em
seqüência a esta introdução (parte I), a parte II da obra apresenta os "Conceitos
básicos" da bioética. A abertura cabe ao professor de filosofia da Universidade de
São Paulo, Franklin Leopoldo e Silva, que aborda o tema "Da ética filosófica à
ética em saúde". Em continuidade, os princípios básicos da bioética são
apresentados na seguinte ordem: "Princípios da beneficência e não-maleficência"
(professores Délio José Kipper e Joaquim Clotet, ambos da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul); "O princípio da autonomia e o consentimento
livre e esclarecido" (Daniel Romero Muñoz e Paulo Antonio Carvalho Fortes, ambos
da Universidade de São Paulo); e "O princípio da justiça" (José
Eduardo de Siqueira, da Universidade Estadual de Londrina). Os padres camilianos Léo
Pessini e Christian de Paul Barchifontaine, do Centro Universitário São Camilo, São
Paulo, fecham esta parte enfocando "Bioética: do princi-pialismo à busca de uma
perspectiva latino-americana". A parte III é a mais longa de todas, dando espaço a
grande diversidade dos temas específicos que dizem respeito à bioética. Ela é aberta
com o texto "Bioética e ciência _ até onde avançar sem agredir"
(Volnei Garrafa, da Universidade de Brasília). Entre os temas seguintes, estão alguns
dos mais polêmicos enfrentados pela bioética, quais sejam: "Reprodução
assistida" (Antônio Henrique Pedrosa Neto, secretário-geral do Conselho Federal
de Medicina e José Gonçalves Franco Júnior, Diretor do Centro de Reprodução Humana da
Fundação Maternidade Sinhá Junqueira, Ribeirão Preto, SP); "Bioética e aborto"
(Débora Diniz, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Bioética da
Universidade de Brasília, e Marcos de Almeida, da Escola Paulista de Medicina); "O
projeto genoma humano e a medicina preditiva: avanços técnicos e dilemas éticos" (do
geneticista mineiro Sérgio D. J. Pena e Eliane S. Azevêdo, da Universidade Estadual de
Feira de Santana); "Transplantes" (Regina Ribeiro Parizi e Nei Moreira da
Silva, diretores do Conselho Federal de Medicina); "Eutanásia e distanásia"
(padre Leonard M. Martin, Diretor do Instituto Teológico-Pastoral do Ceará); "Pesquisa
com seres humanos" (Corina Bontempo D. Freitas e William Saad Hossne,
respectivamente, secretária executiva e coordenador da Comissão Nacional de Ética em
Pesquisa, do Ministério da Saúde); "A Bioética e a saúde pública"
(sob a responsabilidade da advogada e professora da Universidade de São Paulo, Sueli
Gandolfi Dallari); "Bioética e biossegurança" (do professor da Escola
Nacional de Saúde Pública/FIOCRUZ, Fermin Roland Schramm); "Bioética e direitos
humanos" (abordado pelo especialista no assunto e professor de Direito da
Universidade de São Paulo, Dalmo de Abreu Dallari). Os capítulos subseqüentes dizem mais respeito a temas
de interesse médico, embora guardem relação direta com a própria bioética, de um modo
geral: "Erro médico" (Júlio Cézar Meirelles Gomes, diretor do Conselho
Federal de Medicina, e Genival Veloso de França, da Universidade Federal da Paraíba);
"Bioética e medicina legal" (Marco Segre e Cláudio Cohen, da
Universidade de São Paulo); "Aspectos bioéticos da confidencialidade e
privacidade" (professores Carlos Fernando Francisconi e José Roberto Goldim, da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul); e, finalmente, "Ética clínica: a
AIDS como paradigma" (de autoria de Guido Carlos Levi, do Hospital Emílio Ribas,
e Antonio Ozório Leme de Barros, do Ministério Público de São Paulo). Ao final, elaboramos um breve posfácio (parte IV) onde
é feita uma análise sobre o desafiante tema "A bioética no século XXI". |
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