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Endocrinopatias
na arte
A
puberdade precoce de Eugenia

A
Monstra Desnuda (1680).Juan Carreño de Miranda (1614-1685). Óleo
sobre tela, 165 x 108 cm. Museu do Prado (Madrid)

Eugenia
Matínez Vallejo (1680). Juan Carreño de Miranda (1614-1685).Óleo
sobre tela , 165 x 107 cm.Museu do Prado (Madrid)
As endocrinopatias,
por causarem frequentemente gritantes modificações na aparência
dos pacientes, têm despertado a atenção de muitos
artistas. Estes há muito perceberam que tais doenças podiam
ser excelentes motivos para suas pinturas. Obras de arte, em diversos
lugares pelo mundo, documentam com precisão acadêmica casos
de cretinismo, hipertireoidismo, bócio, síndrome adiposo-genital,
hipertricose, nanismo e puberdade precoce, dentre outros.
Uma pintura que atrai bastante a atenção dentre as expostas
no Museu do Prado (Ma-drid) é Eugenia (1680), também chamada
de A Monstra Desnuda ou A Gorda. Na verdade, o nome da criança
é Eugenia Martínez Vallejo. Médicos aventaram a hipótese
de tratar-se de uma representação artística da endocrinopatia
denominada puberdade precoce. Como o nome sugere, em tais casos o desenvolvimento
somático e sexual antecede a época puberal.
De maior prevalência no sexo feminino, decorre freqüentemente
de alteração gonadal, adrenal ou hipofisária. Eugenia
foi pintada aos seis anos de idade pelo grande retratista espanhol Juan
Carreño de Miranda, nascido na cidade de Avilés em 1614
e falecido em Madrid em 1685. Amigo e discípulo de Velázquez
(1599-1660), ostenta em seu currículo os títulos de "Pintor
da Corte", "Pintor de Camara" e "Pintor do Rei"
Em reconhecimento da elegancia de sua pintura, foi considerado o artista
mais representativo da época da regência de Mariana de Áustria
e do rei Carlos II de Espanha.
Eugenia era uma atração na corte do rei, onde vivia. Natural
de Bársenas, na província de Burgos, pesava cerca de 75
quilos. Médicos que estudaram mais intensamente o "caso Eugenia"
aventaram a hipótese de haver sido ela acometida da síndrome
de Prader-Willi, descrita por Andrea Prader, Alexis Labhart e Hein-rich
Willi. Essa síndrome associa obesidade, baixa estatura, hipo-genitalismo
e oligofrenia. É também conhecida pela sigla HHHO (hipopsiquismo,
hipogonodismo, hipotonia e obesidade).
Mãos pequenas, pele sem hirsutismo e sem estrias e a elevação
dos tubérculos do lábio superior que ladeiam o filtro corroboram
a hipótese diagnóstica. Meninos, muito freqüentemente
acometidos (coeficiente sexual de 3:1), apresentam usualmente criptorquia.
Com o avançar da idade, há uma forte tendência de
o paciente desenvolver diabetes mellitus. A freqüência com
que surgem casos dessa doença é de 1 para 25 mil nascimentos.
Dentre os diagnósticos diferenciais encontra-se a síndrome
adiposo-genital de Fröhlich.
Eugenia, nascida em 1674, foi retratada por Carreno tendo
maças me ambas as mãos. Trata-se de uma insinuação
pictórica de seu apetite voraz e uma alusão ao pecado da
gula. No retrato em que aparece desnuda, sua imagem evoca um Baco infantil;
aliás, a folha de parreira que encobre sua genitália externa
é uma menção explícita ao deus do vinho.
A
hipertricose dos Gonzáles

Gonzales
(1585).Lavínia Fontana de Zappis (1552-1614).Óleo sobre
tela.Castelo de Ambras (Innsbruck)
Outra doença
de natureza endócrina, também perenizada em telas a óleo,
é a hipertricose, seja universal ou localizada. A hipertricose
universal, doença que beira a ficção, acometeu Pedro
Gonzales. Nascido em Tenerife, nas Ilhas Canárias, em 1556, Pedro
foi dado de presente à corte de Henrique II, como se fosse um bichinho
de pelúcia. Ele teve três filhos (duas meninas e um menino)
e um neto, todos com a mesma doença. Um dos primeiros casos conhecidos
de hipertricose universal congênita foi, portanto, o de Pedro Gonzales.
Em razão de sua inteligência e de sua presença marcante,
Henrique II fez dele um de seus mais importantes embaixadores.

Castelo
de Ambras (Innsbruck).Fotografia aérea
Como o quadro que retrata a hipertricose do senhor Gonzales encontra-se
no Castelo de Ambras, em Innsbruck, Áustria, tal doença
thipertricose universal) tornou-se conhecida como síndrome de Ambras.
Em 1585, a artista Lavinia Fontana de Zappis, nascida em 1552 e filha
do também artista Prosperam Fontana - amigo de Michelangelo Buonarroti
e retratista do papa Júlio leram -, pintou o quadro Filha de Gonzales.
Apesar de portar um ornamento sobre a cabeça, de possuir um olhar
negro penetrante e de usar um vestido suntuosamente bordado, encimado
por uma gola trabalhada, o que na verdade chama a atenção
na filha de Gonzales é a densa camada de pêlo que recobre
sua face de criança, como se fosse um animal selvagem. Nascida
na Holanda em 1572, Antonieta Gonzales, conhecida por Tonina, herdou do
pai, Pedro Gonzales, casado com uma bela holandesa, a hipertricose universal
congênita.
Vistos como aberrações da natureza, os Gonzales eram requi-sitados
como espécimes para aulas em alguns países da Europa. Eram
também exibidos durante festas promovidas na corte, como exemplos
de "como a natureza maligna podia invadir um corpo humano pecador".
Filha
de Gonzales (1585).Lavínia Fontana de Zappis (1552-1614).Óleo
sobre tela .Kunsthistorishes Museum (Viena)
Em 1592, o médico e professor da Universidade de Bolonha Ulisse
Aldrovandi examinou os Gonzales e documentou os casos em seu livro ilustrado
com xilogravuras, o qual recebeu o título de História de
Monstros. No final do capítulo, o médico registra ter recebido
a notícia de que Tonina havia se casado e dado à luz um
filho peludo.
A
Mulher Barbuda
O espanhol José
de Ribera (1591-1652), pintor valenciano apreciador de Caravaggio (Michelangelo
Merisi) e criador do claroescuro na Itália, pintou a tela A Mulher
Babuda (1631). 0 quadro retrata Magdalena Ventura aos 52 anos de idade.
Nascida na região de Abruzzi, em Nápoles, consta que ela
estava com 37 anos quando passou a ter, em um curto espaço de tempo,
barba e bigode. Teve sete filhos, três antes de surgir barba e quatro
depois do hirsutismo localizado. Magdalena casou-se duas vezes, e ao seu
lado na pintura aparece Felix, o segundo marido.

A
Mulher Barbuda (1631).José de Ribera (1591-1652).Óleo sobre
tela .Museu do Hospital de Tavera (Toledo)
A tela foi pintada por encomenda do duque de Álcalar, de Nápoles,
que desejava documentar aquele caso médico e levá?lo ao
conhecimento do rei Filipe III.
Magdalena Ventura, a barbuda, é vista em primeiro plano amamentando
seu filho caçula com sua volumosa mama direita. Em seu rosto, vê-se
um espesso bigode e densa barba negra. Sua fisionomia masculina é
marcada por múltiplas rugas frontais e profundos sulcos nasolabiais.
A pilosidade patológica conhecida como hirsutismo, de localização
tipicamente masculina, se deve a uma produção aumentada
de andrógenos pelos ovários ou pelas supra-renais. A Mulher
Barbada é um caso de androgenização magnificamente
registrado em obra de arte. Encontra-se presentemente no acervo do Museu
Hospital Tavera, um verdadeiro palácio Greco-Romano do século
XVI, construído às expensas do cardeal Tavera.
Os
anões de Velázquez e de Picasso
O nanismo, em suas
variadas formas, foi documentado por alguns pintores. Diego Velázquez
(1599-1660) foi quem mais se dedicou a tal doença. É famosa
sua pintura intitulada As Meninas. * Nessa cena familiar da corte do rei
Filipe IV, de Espanha, da qual Velázquez era pintor oficial, aparecem
da esquerda para a direita: o próprio Velázquez, Maria Augusta
Sarmiento, infanta Margarita Maria (a princesa, então com cinco
anos de idade), Isabel de Velasco, Marcela Ulloa (a freira, tendo ao seu
lado um segurança), a anã Mari-Bárbola e o anão
Nicolás (Nicolasico) Pertusato, com o pé sobre o cão.
Na porta surge José Nieto. No espelho estão refletidas as
imagens de Mariana de Áustria, que casou-se em 1649 com Filipe
IV, viúvo de Isabel de Borbón. Mariana fora prometida em
casamento ao príncipe Baltazar Carlos, filho de Filipe IV, falecido
ainda jovem.
Com base nesse quadro, Pablo Picasso (1881-1973) pintou As Meninas Segundo
Velázquez (1957), no qual pode-se facilmente identificar os anões
Nicolasico e Mari-Bárbola (acondroplásica).

As
meninas (1656).Diego Vel'zquez (1599-1660). Óleo sobre tela, 323
x 276 cm Museu do Prado (Madrid)

As
Meninas Segunda Velázquez (1957). Pablo Picasso (1881-1973). Óleo
sobre tela, 194 x 260 cm Museu Piccasso (Barcelona)

Pormenor
de As Meninas Segundo Velázquez evidenciando a anã Mari-Bárbola
ao lado do anão Nicolasico (com o pé no cão)
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