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O
nascimento da Neurologia em A Lição Clínica do Doutor
Charcot
O
médico Jean-Martin Charcot .Fotografia (Paris)
Até
por volta de 1887, Neurologia e Psiquiatria eram especialidades não
muito delimitadas e que freqüentemente se confundiam. Foi o médico
Jean-Martin Charcot (1825-1893) quem diferenciou mais claramente as duas
especialidades. Graças aos estudos de Charcot, a Neurologia se
desenvolveu e passou a ser le-cionada no ensino universitário da
França. Não há dúvidas de que o médico
foi o maior neurogista francês e um dos maiores de todos os tempos,
tendo lecionado na Universidade de Paris de 1860 a 1893. É com
justiça que Charcot é considerado o "Pai da Neurologia"
moderna. Registre-se ainda que sua capacidade de sintetizar conhecimento
clínico e a habilidade de ensinar Medicina o tornaram um mestre
insuperável. Era uma personagem carismática e atraente a
todos que dele se aproximavam.
Charcot descreveu magistralmente a histeria. Quando ele chegou para trabalhar
no Hospital Salpêtrière, em 1862, acreditava-se que a doença
histeria (do grego hystéra= útero) era uma desordem do sistema
nervoso de fundo emocional, cansada por alterações nos fluidos
uterinos. Na época, o Salpêtrière era um grande hospital
público que recebia pobres com doenças do sistema nervoso
ou mentais. É oportuno destacar que o Hospital Bicêtre funcionava
então como asilo para doentes mentais do sexo masculino. O Salpêtrière
é considerado o berço da Neurologia mundial, a meca da Neurologia
européia e foi palco do nascimento da Neurologia científica.
O belíssimo quadro A Linção Clínica do Dr.
Charcot (1887), que mostra uma aula sobre histeria por ele ministrada
no Salpêtrière, foi pintado pelo vienense Pierre?André
Brouillet Charroux (1857-1914) e mostra a indiscutível liderança
científica do Dr. Charcot, haja vista que reunidos em torno dele
encontram-se muitos e atentos alunos e professores, que certamente se
deliciavam com sua eloqüência e seu conhecimento.
 
A
Lição Clinica do Doutor Charcot (1887).Pierre André
Brouillet Charroux (1857-1914).Óleo sobre tela. Museu de Nice (Nice)

Pormenor
de A Lição Clinica do Doutor Charcot
A pintura de Brouillet registra o momento em que Charcot demonstra em
aula que há uma grande diferença entre uma crise convulsiva
e um quadro de histeria. Entre outros, participaram da imortalização
da aula do Dr. Charcot:
Cornil (1), Philippe Burty (2), Debove (3), Mathias-Duval (4), Jean-Baptiste
Charcot (5), Alexis Joffroy (ó),Jean-Martin Charcot (o professor,
7),Joseph François Félix Babinski (o do sinal de Babinski,
8), Lebas (10), Le Lorrain (11), Guinon (12), Desiré?Maglaire Bourneville
(13), Gilbert-Louis-Siméon Ballet (14), H. Berbez (15), Gombault
(17), Pierre Marie (18), Charles-Samson Féré (19), Paul-Marie-Louis
Pierre (20), Blanche Wittman (a paciente, 21), Marduerite Bottard (a bedel,
22), Ecary (a enfermeira, 23), Londe (24), P.Berbez (25), Jules Clarette
(26), Alfred Naquct (27), Vigouroux (28), Brissaud (30) e Georges Gilles
de La Tourette (31). Foi Gilles de La Tourette quem descreveu a "Síndrome
de La Tourette". Esta é uma alteração psiquiátrica
caracterizada pela compulsão que tem o paciente por falar palavrão
ou palavras obscenas (coprolalia). Não foi poss*el identificar
as personagens sinalizadas com os números 9,16 e 29.
É importante atentar para o fato de o professor Charcot ter contado
na aula com a colaboração do Dr. Babinski, à época
seu aluno, que ampara com o braço esquerdo a paciente espástica,
curvada para trás. A maca ao lado da paciente denuncia a incapacidade
de deambular da enferma, levando-nos a crer que se tratava de um caso
grave.
O Dr. Pierre Marie (18), também docente no Salpêtrière,
foi, dentre outros, professor do Dr. Souza Leite, o primeiro médico
brasileiro diplomado pela Faculdade de Medicina da Bahia, a mais antiga
do Brasil, e que manteve durante muitos anos, em exposicno no seu museu
de Anatomia, as cabeças degoladas de Maria Bonita e Lampião
(Virgulino Ferreira da Silva, 1897-1938), o rei do cangaço.
Curiosamente, deve-se registrar que o imperador Dom Pedro II era amigo
e freqüentador da casa do Dr. Charcot, localizada no Boulevard St.
Germain, por ocasião de suas idas a Paris. Foi Charcot quem assinou,
em 5 de dezembro de 1891, o atestado de óbito de D. Pedro II.
Charcot também entrou para a história da Medicina por ter
sido professor de Freud, que aprendeu com ele a hipnotizar seus pacientes.
Pouco antes de casar-se, Freud ganhou uma bolsa de estudos com Charcot
em Paris, e a partir de então tornaram-se grandes amigos. O psicanalista
sempre manteve na parede principal de seu consultório - situado
na rua Bergga, número 19, em Viena, hoje Museu Freud - uma reprodução
de A Lição Clinica do Dr. Charcot. O original encontra-se
no Museu de Nice (França).

Hospital
Salpêtrière.Fotografia (Paris)

Babinski
Fotografia por Eugene Pirou .Fotografia .Foto Pirou.Boulevard St. Germain
nº 5 (Paris)
Com base
nessa tela há uma água?forte de Abel Lurat(1829-1890) feita
em 1888.
São também deJean-Martin Charcot os trabalhos clássicos
sobre atrofia muscular progressiva, esclerose múltipla, paralisia
agitante e esclerose lateral amiotrófica. Esta última enfermidade,
em sua homenagem, é também chamada de "Enfermidade
de Charcot". Ele foi um clínico no mais amplo sentido da palavra
e um exemplo no que concerne à relação médico-paciente.
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