A revista Bioética, publicada pelo Conselho
Federal de Medicina desde 1992, foi o periódico
científico pioneiro nesse campo de estudo e
pesquisa no Brasil – cuja criação ocorreu seis
anos após a criação da Bioethics, a mais consolidada
revista, na área, em nível mundial, publicada
pela International Association of
Bioethics (IAB).
Sua importância para a divulgação e consolidação
da disciplina pode ser dimensionada
pelo fato de que a
própria Sociedade
Brasileira de Bioética
(SBB) só foi fundada
em 1995 e seu
veículo editorial oficial,
a Revista Brasileira
de Bioética
(RBB), começou a
ser editado apenas
em 2004.
No encontro
que marca a criação
da Bioética estão
registradas as presenças
de reconhecidos
bioeticistas
brasileiros, alguns
dos quais ainda integram
o Conselho
Editorial. O apoio
desses renomados
pesquisadores e de
outros que posteriormente
vieram
somar esforços para
a consolidação do
periódico foi fundamental
para que,
em 1999, a Bioética
passasse a ser indexada
na base de
dados Lilacs. Atualmente,
é classificada
pela Capes
como “B” nacional nas áreas de Educação Física,
Enfermagem, Medicina II, Saúde Coletiva,
Serviço Social e “C” nacional na Filosofia/Teologia,
Medicina I e Multidisciplinar.
As centenas de artigos publicados durante
os seus 15 anos de existência atestam as transformações
ocorridas, refletindo o surgimento
das preocupações relativas à ética social em
bioética e o aprofundamento dessas questões
nas práticas de saúde. Congregando colaborações
de autores de diversas instituições, profissões
e regiões do país e do exterior, a Bioética
reflete a pluralidade do panorama que caracteriza
o campo. É possível constatar em suas
páginas essas perspectivas distintas, sempre
respaldadas em reflexões consistentes e ponderadas.
Nesse ínterim, o periódico aprimorou, também,
o seu processo editorial, adotando os
critérios normativos e de apresentação propostos
pela Bireme. Os dois projetos gráficos de
apresentação da revista espelham tal esforço,
demonstrando o empenho contínuo do CFM
para consolidar a qualidade do periódico. Assim,
quer por seu conteúdo exemplar quer por
seu aspecto gráfico primoroso, a Bioética é,
atualmente, a publicação, em seu campo, de maior reconhecimento no país, com influência
em toda a América Latina.
Seu papel na consolidação da disciplina é
forte incentivo para que continue a estabelecer
um processo editorial pautado pela excelência.
Buscando aumentar a eficiência no controle
da comunicação, garantir transparência e agilidade,
fomentar a credibilidade e, assim, despertar
o interesse dos pesquisadores e autores, a
Bioética inova mais uma vez, delineando novos
rumos.
Dentre as providências para atingir esse
objetivo destacam-se as voltadas ao aumento da
periodicidade, que passará a ser trimestral, bem
como da quantidade de artigos por número –
que, pretende-se, passem de 11 para 15, perfazendo
60 trabalhos publicados anualmente.
Além disso, em cada artigo passará a ser identificada
a data de recebimento e aprovação, medida
que reforça a transparência do processo
editorial.
Essas alterações, no entanto, não implicam
mudar o que está consolidado como marca de
qualidade do periódico. A submissão de todos
os artigos recebidos ao exame dos pares permanecerá
como norma inviolável para garantir aos autores e à comunidade científica a qualidade
do material publicado. Também será
mantida a tiragem de 10.000 exemplares, que
continuarão a ser gratuitamente distribuídos a
médicos, entidades médicas, bibliotecas e instituições
de ensino.
Da mesma maneira, o acesso eletrônico à
Bioética por meio do Portal do CFM – em
http://www.portalmedico.org.br/novoportal/index5.asp – continuará permitindo o acesso irrestrito ao
material publicado e às normas editoriais. Por
fim, o e-mail da revista – bioética@cfm.org.br –
seguirá recebendo os artigos destinados à
publicação, no intuito de facilitar o envio dos
trabalhos.
A história da revista Bioética reproduz a
trajetória da construção do conhecimento no
campo da bioética. Hoje, ao se falar em bioética
a primeira coisa que vem à mente são as
pesquisas sobre reprodução assistida, clonagem
e organismos geneticamente modificados – ou,
como são mais conhecidos, transgênicos. Essas
novas técnicas e tecnologias, que marcam
a imaginação quase como ficção científica, são
divulgadas com insistência nos meios de comunicação
e associadas diretamente à bioética.
Contudo, esse aspecto fantástico relacionado
aos avanços da ciência não resume o que o
campo discute atualmente. Incorporando a
esses tópicos uma vasta gama de temáticas,
associadas não apenas à recuperação da saúde,
mas à qualidade de vida de diferentes grupos
populacionais, a bioética vem ampliando o debate
sobre os aspectos morais e éticos que envolvem
o processo saúde-doença, estendendo-o
da prática clínica à dimensão social.
A identificação da bioética como forma de
reflexão ou instrumento de regulação dos
parâmetros éticos para as ciências da vida está
alicerçada no surgimento desse campo de estudo
e pesquisa na década de 70. Voltado à discussão
dos problemas éticos decorrentes do
uso de novas tecnologias, a bioética relacionava - se, principalmente, à pesquisa envolvendo
seres humanos.
Sob o marco da bioética principialista, cunhada
no período, foi introduzida a prática de informar
e consultar o sujeito de pesquisa sobre
os procedimentos aos quais estaria submetido
ao participar de um experimento. Como decorrência
do fato de grande parte da pesquisa em
saúde ser realizada a partir da clínica, essa prática
consolidou-se também na relação médicopaciente,
entre profissionais e usuários dos
serviços de saúde, inovando os princípios da
deontologia e trazendo à tona a discussão sobre
a autonomia do paciente.
Se o foco na tecnologia desenvolvida na
área da saúde e, de maneira menos acentuada,
no impacto ambiental decorrente do desenvolvimento
ajudou a divulgar e consolidar a bioética,
associando-a às novas tecnologias, acabou,
também, por tornar-se uma perspectiva restrita.
Tais debates passavam ao largo das situações
cotidianas vivenciadas pela maioria dos profissionais
de saúde, especialmente em países como
o Brasil, nos quais a assistência à população
ainda se revela precária. Somadas às dificuldades
no acesso aos serviços, à pobreza, à exclusão
e à desigualdade social fomentam o
adoecimento da população, em escala maciça e
de forma crônica.
Diante de tal quadro social a decisão de informar
o paciente sobre as circunstâncias de
seu adoecimento – descrevendo minuciosamente
o diagnóstico, terapêutica e prognóstico
e respeitando o seu direito de decisão
sobre o assunto – não respondia a todas as necessidades
éticas dos profissionais que, a cada
dia, deparavam-se com verdadeiras tragédias,
decorrentes da situação de vida das pessoas
que atendiam. Ainda que buscassem, com
rigor, preservar na clínica a autonomia dos pacientes,
restava-lhes a angústia frente aos conflitos
derivados daquelas condições insalubres,
ante as quais muitos se sentiam impotentes ou
desestimulados.
Para responder a tais impasses e formular
parâmetros compatíveis com a realidade vivida
pela maioria da população, bem como pelos
profissionais e pesquisadores que com ela trabalham,
os estudiosos da bioética voltaram seu
olhar na direção da sociedade: às mazelas sociais
e ambientais que causam impacto no
cotidiano, roubando a saúde e aviltando a qualidade
de vida. Consoante à perspectiva anteriormente
traçada pela saúde pública e pela epidemiologia,
começaram a ampliar a discussão
sobre a ética em saúde, alargando o espectro
de atuação da bioética e trazendo à baila
questões morais latentes. Dentre essas, as discussões
sobre a iniqüidade no acesso aos
serviços de saúde, as dificuldades no provimento
desses serviços em situação de escassez de
recursos e, ainda, a reflexão sobre as moralidades
que condicionam essas desigualdades entre
os diversos grupos e segmentos da sociedade.
Nesse sentido é importante destacar o
papel decisivo da Declaração Universal sobre
Bioética e Direitos Humanos, promulgada pela
Unesco em 2005, que constitui marco fundamental
dessa nova dimensão da bioética, pois
reafirma a importância do respeito aos direitos
humanos como condição essencial à saúde e
cidadania dos povos.
E é exatamente para abraçar o desafio de
produzir uma reflexão que ofereça respostas
efetivas aos conflitos e questionamentos sobre
a ética em saúde que a Bioética inicia nova etapa
de trabalho. Por isso, os editores da revista,
bem como seu Conselho Editorial, conclamam
os médicos e demais profissionais da área a contribuir
para essa discussão, enviando artigos.
Ao transformar suas percepções sobre o trabalho
cotidiano e o contexto no qual este se insere
em reflexão bioética, ampliarão ainda mais
a discussão sobre a ética em saúde.
Clóvis Francisco Constantino - Editor