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Ética e Política
Roberto Saturnino Braga

   Preliminar

   O presente artigo não é um texto acadêmico composto em linguagem de rigor filosófico, mas reflete um propósito que é mais de convocação ao interesse geral sobre um tema tão rico quanto importante para o Brasil dos dias correntes, vivendo a mais grave crise de sua história, demandando toda uma reconstrução da sua vida política e exigindo um reforço substancial da dimensão ética desta prática.

   Ética é um dos grandes capítulos em que se divide o pensar do ser humano desde os primórdios da filosofia, na Grécia Antiga. E desde essa origem a ética teve e tem uma íntima ligação com a política, chegando mesmo a uma quase identificação naquele momento da Antigüidade. É que ética é um conceito Iminentemente ligado ao coletivo seja esse coletivo a corporação (o caso das éticas profissionais), a nação ou a humanidade (onde se colocam todas as questões dos direitos humanos). Assim é que a filosofia política foi sempre tratada dentro do grande capítulo da ética que, com a física (e a metafísica) e a lógica, compunham o quadro geral da filosofia na Antigüidade.

   O conceito de ética é também algo estreitamento vinculado ao sentimento dos povos, ao seu modo de viver e aos seus costumes, como indica a raiz grega da palavra (ethos), e tem naturalmente evoluído no seu conteúdo, como evoluem esses costumes ao longo do tempo e da história. As éticas de hoje são em vários aspectos profundamente diferentes das antigas, e a forma de encarar a escravidão é provavelmente o exemplo mais conspícuo dessas diferenças que abrangem muitos outros aspectos relevantes. Os antigos não conheciam, por exemplo, nenhuma ética da humanidade e um dos seus princípios de virtude era o de fazer o mal aos povos inimigos.

   Quanto à política, a sua idéia se desdobra em dois conceitos diferentes que convivem quotidianamente na opinião dos cidadãos e na motivação da ação dos políticos: um é o de que a política, a mais nobre das ocupações humanas, é o empenho na realização do bem comum, do bem da coletividade ao qual se aplica como a um propósito final; é a concepção de Platão e de Aristóteles, dos filósofos pregos que a explicitaram na sua polêmica de afirmação da filosofia (que se confundia para eles com a política), contra o pragmatismo dos sofistas e dos retóricos que ensinavam a linguagem eficaz para o manejo das assembléias e das funções políticas. O outro é o de que a política é a arte e a sabedoria de conquistar e de manter estável o poder; o fazer o bem; nesta visão, não é propriamente um fim, mas um meio de ganhar o apoio dos cidadãos para a conservação e a estabilização do poder, empregado em paralelo com outros meios também válidos, como o marketing, o controle da mídia, o clientelismo, o populismo e até mesmo a mentira, a violência e a corrupção. Este é o conceito derivado das interpretações mais correntes dos conselhos de Maquiavel e é o que melhor se enquadra nas concepções da ciência política moderna, entendida a ciência como conhecimento neutro, isto é, destacado de qualquer consideração de natureza ética.

   Ambos os conceitos são correntes no mundo e nos tempos, tendendo a prevalecer, no geral, o "realismo" do segundo. Assim é que, entre nós, contemporaneamente, a virtude mais popular da política é a esperteza, que a linguagem simples tem chamado de "jogo de cintura", juntamente com a coragem, macheza ou ousadia; qualidade das quais nasce a confiança no político, como alguém capaz de bem dirigir o povo com pulso e habilidade. A idéia do bem, entretanto, estará sempre presente e importante, a fazer a crítica permanente do pragmatismo, impedindo o poder de violar certos limites ditados pela ética e levando-o mesmo a fazer concessões a muitas de suas postulações, ainda que vistas freqüentemente como românticas ou quixotescos. E o propósito do bem, a sua busca pela política, tende a ganhar dimensão de hegemonia nos momentos de crise grave que abale os fundamentos éticos da sociedade, gerando verdadeiros momentos revolucionários que operam profundas transformações político-sociais.

   As relações da ética com a política se dão principalmente em três vertentes, quais sejam, as relações de conflito, as de convergência ou encontro e aquelas que se desdobram numa dialética de condicionamento ou de iluminação.

   Relações de Conflito

   Um primeiro campo de relacionamento, que tem sempre suscitado mais interesse nas especulações e nos debates que se travam sobre o tema, é o dos conflitos entre os princípios da ética e a realidade da política.

   Formou-se neste campo uma verdadeira dialética do pragmatismo dos fins com o dever dos meios que assumiu formas diversas ao curso da história. Na Antigüidade, a critica pela perspectiva da ética era feita pelos filósofos em nome do ideal da "vida digna" sobre as políticas dos governantes que buscavam a glória e especialmente dos tiranos que exerciam o poder por cima das leis. Na Idade Média, o objetivo do pragmatismo estava ligado a estabilidade dos reinas e à glória dos príncipes, enquanto a critica pela perspectiva ética era feita em nome dos princípios da moral cristã que deviam pautar os "bons governos". Na modernidade, o eixo do pragmatismo transferiu-se para a eficácia vista pela ótica do econômico, enquanto a critica ética se fundava nas ideologias da igualdade econômica e da justiça social.

   Assim, ética e política sempre tiveram uma intensa relação dialética de conflito, na convivência, variando os termos e os temas desse confronto. Entre esses temas, sempre se ressaltou o da mentira política, como uma espécie de agressão mais aceitável aos princípios morais. Platão, por exemplo, dava aos médicos e aos políticos o direito ao uso da "mentira útil", aquela capaz de agir como um fármaco sobre os indivíduos e sobre a pólis em estado de doença. Modernamente, a polêmica da mentira e da verdade se tem situado em torno do conceito da "razão de Estado" que se originou nas relações de diplomacia entre os Estados monárquicos e se estendeu às relações governantes-súditos, significando projetos e informações que tinham de ser mentidos em segredo nos círculos mais íntimos do poder. Negar peremptoriamente a existência de um projeto ou dispositivo de defesa que não pode ser conhecido é um caso típico, a manutenção de segredos militares; forjar imagem negativa de uma nação inimiga ou do seu líder é outro. Muito além do uso da mentira, casos bem mais graves de violação de princípios morais, como o assassinato de inimigos perigosos, são cometidos secretamente em nome dessas razões de Estado e, quando revelados posteriormente, podem ser compreendidos e até aceitos por grande parte da opinião corrente, desde que justificados com a apresentação de um fim que possa ser considerado eticamente mais forte, como a defesa da nação ameaçada. Tal aceitação, todavia, nunca é consensual, mesmo nos casos mais leves, e sempre suscita reações e críticas que fazem do conceito de "razões de Estado" motivo de muita polêmica e contestação.

   O uso da mentira nas ações políticas pode também ultrapassar o conjunto dos casos caracterizadamente decorrentes de "razão de Estado" e continuar tendo aceitação, muitas vezes até mais consensual, sob o ponto de vista da critica feita segundo a ética. Por analogia, poder-se-ia invocar para esses casos uma justificativa reconhecida como "razão de Governo". Exemplo típico é o de um congelamento de preços, ou qualquer outra medida de governo que não possa ser conhecida com antecedência, sob pena de provocar especulações e manobras destruidoras dos efeitos intentados; a negação desses atos pelo governante até o dia em que são decretados é uma mentira política bastante aceitável pelos critérios éticos correntes, desde que explicada imediatamente após pelos próprios fatos.

   A dialética da política com a mentira tem ainda outras áreas de contato, a atividade política necessariamente tem uma dimensão que é o "fazer imagem", construir e cultivar a imagem do líder, a imagem do candidato, a imagem do partido, algo que fácil e corretamente escorrega para o "forjar imagem", com o sentido de forçar os limites da verdade, e se confunde freqüentemente com a impostura e a mentira útil para o forjador. É sabido que a política lida muito com "versões", e não tanto com verdades científicas, cujo estabelecimento é missão da história, com seus métodos e sua perspectiva de tempo. A versão é um tipo de informação imediata e oportunista, naturalmente sujeita ao erro e ao equívoco, podendo resvalar com freqüência para a mentira fazedora de imagem, sem que seja fácil detectar a intenção maldosa. Dentro desta mesma área de contato, colocam-se também os esforços de mobilização para adesões populares de sustentação a posições de governo ou de oposição, que trabalham com versões, com compromissos apenas relativos com a verdade, com promessas sabidamente irrealizáveis, buscando antes a eficácia no que concerne aos objetivos colimados.

   O entendimento que compatibiliza esses conflitos da ética com a política é o de que ambos os conceitos tem tudo a ver com a vida humana, com o Ser do homem em sociedade, e este Ser recusa qualquer tipo de enclausuramento dentro de princípios absolutamente rígidos. Se a moral, no âmbito do indivíduo, admite margens de flexibilidade no que respeita aos seus princípios (e só na teoria aceita os imperativos categóricos, não obstante a enorme lucidez de Kant para mostrar que não existe diferença entre teoria e prática), a ética, que preside as ações na perspectiva da coletividade, invoca tantas vezes a razão, atributo essencial desse Ser, a fim de validar margens de tolerância para as ações políticas, sem que tenha de renunciar ou abrir mão de seus princípios, simplesmente flexibilizando-os. Não seria preciso chamar Hegel para compreender a força racional dessas realidades.

   Há formas e feições desses conflitos que são especificas do funcionamento da democracia representativa que se vai consolidando como sistema político em todas as partes do mundo. É o caso, por exemplo, da promessa política, usada, larga e genericamente, de maneira mais ou menos ética, como meio de conquista do voto, que é a via de legitimação própria do sistema. A promessa, que o mais das vezes é uma demanda do próprio eleitor (e por isso tão intensamente usada), decorre da necessidade humana de alimentar expectativas existenciais positivas e assume formas extensamente variáveis no que tango à possibilidade de compatibilização com a ética, desde aquelas realistas e lícitas, feitas com o propósito de cumprimento, até as que envolvem favores pessoais particulares e não divulgáveis (mesmo cumpridas), e as falsas promessas, que se enquadram no capítulo da mentira política, mas sem nenhuma relação ou justificação possível sob argumentos de razões de Estado ou de Governo.

   A promessa aqui referida é a que se dirige a indivíduos ou a grupos constitutivos da clientela do candidato, não é a promessa ligada a compromissos programáticos ou de governo, apresentada ao todo da comunidade eleitora. Esta é verdadeiramente uma exigência da representação e da democracia, embora ela também possa freqüentemente resvalar para a mentira, pela via da demagogia, e tornar-se incompatível com a ética.

   Outras questões do regime democrático dizem respeito à compartimentação de representação política pelo corporativismo e à tendência manifesta nas democracias modernas ao desinteresse crescente da população em relação à esfera das coisas públicas, desinteresse mesmo pelo que concerne ao destino nacional respectivo. Penso que esta é uma questão que também tem a ver com a ética: a constatação de que a preocupação absolutamente predominante em assegurar as franquias e direitos da esfera da sociedade civil, e a exacerbação das disputas típicas das sociedades de mercado, as disputas de interesses legítimas dentro desta esfera (sociedade civil), como que vão amesquinhando a ética eminentemente política, a Ética de Hegel, e gradativamente substituindo-a pela ética do Gerson, para usar o jargão que o nosso povo entende. E a ética não pode ficar contida na esfera da vida privada em seus confrontos, a ética não se separa da política, da esfera da vida pública. A ética é política, é matéria pública, ou não é ética, pode ser moral, conjunto necessário de princípios das ações individuais. Logo adiante voltarei a comentar este ponto tão relevante.

   E, ainda nessa abordagem de questões específicas do sistema democrático, há finalmente os que pretendem afirmar a relativa falta de importância de qualquer ética de valores universais (de fundo racionalista ou religioso) no mundo pós-moderno, sustentando, pragmaticamente, que o que é relevante é o respeito às normas positivas da democracia liberal, verdadeira garantia da boa convivência entre os homens em todos os sentidos.

   Todavia, o avanço e a consolidação da democracia neste final de século vão produzindo, também, em contrapartida, linhas de pensamento que parecem impor-se progressivamente, constituindo uma tendência a resolver esses conflitos cada vez mais em favor da ética. No que tange à mentira política sob todas as suas formas, incluindo as variantes da promessa, crescem as exigências da chamada "transparência" de todas as ações públicas, políticas e governamentais, sendo cada vez mais o direito à verdade visto como condição necessária à efetivação da liberdade de opinião consagrada em todas as constituições, na medida em que, sem a informação completa e correta, não pode haver opinião no sentido pleno da expressão, no sentido compreendido por essas constituições. No que tango aos aspectos ligados ao desinteresse pela política e ao menoscabo pelos principias éticos na dimensão coletiva, a contrapartida vem da crítica ao que se pode chamar de "democracia de resultados" e da conseqüente exigência de novas formas de democracia mais participacionistas e menos "representativas" na acepção clássica do liberalismo.

   Entretanto, se é possível inferir ou vislumbrar uma tendência ao encontro da ética com a política na evolução da democracia, este será um encontro a muito longo prazo, um encontro de tipo assintótico, não o encontro imediato e historicamente momentâneo tratado a seguir.

   Relações de Reencontro

   Ao contrário da dialética de conflito que caracteriza as relações correntes da ética com a política, mediadas pela compreensão da tolerância e tendentes, provavelmente, a uma afirmação crescente e paulatina da ética com a evolução da cultura democrática, ocorrem momentos históricos de verdadeiro encontro ou identificação dos conceitos quando uma sociedade ou nação mergulha em crise profunda de desestruturação.

   São momentos de descontinuidade no processo histórico das nações, momentos potencial ou efetivamente revolucionários que produzem transformações profundas, radicais, definidoras de um novo rumo político do país.

   O Brasil já teve na sua história esses "momentos éticos" no século passado, do meio da década dos 70 até o final dos 80, com a abolição da escravatura que resultou na República; no século atual, o período que se iniciou em 1922, que produziu a Revolução de 30 e desdobrou-se no desenvolvimentismo dos 50.

   Os dias atuais prenunciam o despertar de um novo desses momentos críticos, e em todos os pontos do país explode o debate sobre as definições da ética e da política, em busca da justaposição dos conceitos como exigência da própria sobrevivência nacional. Ao mesmo tempo, cresce a exigência de formulação de um novo projeto político e econômico para uma nova etapa do desenvolvimento nacional.

   Nesse debate, recorre-se naturalmente aos clássicos do pensamento filosófico para examinar-se a realidade nacional à luz de suas meditações. E a referencia básica da qual se parte mais freqüentemente é a fundamentação da moral kantiana com seu imperativo de universalidade: agir como se cada ação respeitasse uma regra ou máxima absolutamente universal a que todos se submetessem. Mas a moral do indivíduo em sociedade, como referido anteriormente, não chega a responder completamente às preocupações e exigências desses momentos éticos, que são mais amplas na medida em que abrangem as relações da atividade pública. A crítica de Hegel e definitiva, ao mostrar que a nação pode ter como princípio decisivo de suas ações a soma algébrica das vontades individuais e corporativas em competição na sociedade civil, mesmo que pautadas pelos imperativos da moralidade e da legalidade. A ética da nação é muito mais, é a responsabilidade verdadeiramente coletiva, é o princípio que rege a esfera do poder público na qual todos estão presentes como um todo maior que a soma das partes. Repetindo o que foi dito, a ética é a moral da nação em seu conjunto e na atividade pública, é na política que ela se consubstancia e se revela. Ética e política se completam necessariamente; nos momentos críticos esta conclusão se explicita com clareza e se verifica então que é pela política, e só pela política, que se pode e se deve empreender a reconstrução da ética desestruturada.

   E importante insistir e ressaltar este ponto, porquanto nesses momentos de reencontro é que fica bem claro que a ética deve compreender o sentimento popular com respeito ao destino da nação, às aspirações da sociedade quanto a este destino. O conceito de ética obrigatoriamente abrange o interesse de cada um e de todos pelo destino nacional, e este interesse, os sentimentos e aspirações referidos, necessariamente se define sob a forma de consensos, sob pena de tornar-se inviável a manutenção da fidelidade e por conseguinte da unidade nacional. O separatismo que se alastra hoje pelo mundo reflete esta exigência; não um enfraquecimento dos laços, lealdades e sentimentos nacionais, mas, ao contrário, a necessidade de redefinições das unidades, tendo em vista a realidade dos nacionalismos dos vínculos consensuais de aspirações quanto ao destino comum.

   Deve-se observar, entre parênteses, que própria da época atual é ainda a extensão do campo de abrangência da ética para compreender também os sentimentos e o interesse com relação ao destino da humanidade. Na medida em que não se conflito, mas se componha com as aspirações nacionais, este interesse vai crescendo visivelmente, afirmando-se e tornando possível na pratica o que parecia completamente utópico ao tempo de Kant, a consecução de "paz perpétua" prevista por ele.

   O sentimento nacional e o interesse pelo destino comum confluem para a formulação de um projeto nacional, que não é um documento escrito recheado de metas econômicas, mas um conjunto de consensos cada vez mais amplos que se vão estabelecendo no debate. Este debate, muito mais filosófico do que técnico, é fruto da crise e da afirmação do espírito democrático mais radical, que exige a postura ética e consequentemente a verdade. Deste debate se pode extrair o entendimento propiciado pela razão comunicativa, descrita por Habermas no trabalho filosófico contemporâneo mais importante sob o ponto de vista da compatibilização da verdade com a realidade, da ética com a política. Podem emergir os consensos, tanto nas questões teóricas como nas questões práticas, configurando-se o que se pode chamar de uma ética comunicativa, cujos princípios ganham aceitação progressivamente mais ampla. O problema maior da universalização do debate está nos veículos propiciadores, na imprensa e nos meios de comunicação em geral, que funcionam movidos por interesses econômicos específicos, dificultando a formação das condições essenciais da ética comunicativa (o livre aceso ao debate e a igualdade de condições de participação). Romper e superar estes obstáculos e o desafio dos nossos dias para deixar desabrochar um novo momento ético na nossa história.

   Dialética de Iluminação

   Um terceiro campo de relações da ética com a política situa-se no conjunto de considerações correntemente feitas sobre o conteúdo ético dos diferentes sistemas políticos e econômicos em confronto. Nos dias de hoje, esse confronto continua a ser colocado em termos da opção pelo socialismo ou pelo capitalismo.

   A derrocada do sistema soviético e as promessas da unificação européia, espaço político da social-democracia, facilitaram extremamente a montagem da versão que consagra uma suposta definição histórica em favor do capitalismo como sistema sócio-econômico. Como se o confronto socialismo-capitalismo tivesse encontrado um fim, que seria também uma espécie de fim da história, como uma vitória definitiva do segundo. Trata-se de uma versão jornalística interessada, largamente divulgada e apoiada em opiniões e textos acadêmicos, mas uma versão falsa. Primeiro porque o mundo socialista sofreu um gravíssimo abalo sísmico em suas estruturas, mas sobreviveu e continua a mostrar um dinamismo econômico incontestável e um grau de justiça social muito mais elevado, retratado na distribuição eqüitativa do produto gerado, a par de uma espantosa capacidade de responder a desafios mostrada no caso de Cuba.

   A segunda razão básica para afirmar que é falsa a versão da vitória definitiva do capitalismo está no quadro do confronto ético que se desenvolve paralelamente ao econômico, cotejo que ainda conta e sempre contará nas decisões e opções da humanidade a respeito dos sistemas políticos. É este o ponto que aqui nos interessa. Há uma tendência de degradação moral no mundo capitalista que não mostra sinais de reversão e que parece ligada a um esvaziamento ético produzido nessas sociedades pela exacerbação do individualismo, do utilitarismo, do consumismo e do dinheirismo, que é sentido de forma vaga pela sua população, que suscita reações desencontradas em direção a uma religiosidade quase primitiva, mas que não mostrou ainda resultados palpáveis em termos de opções políticas. Todavia, o pêndulo que acompanha o movimento ondulatório das opiniões de massa, que hoje se encontra no extremo pró-capitalismo, pode estar invertendo o sentido do seu movimento nesse final de século que prenuncia acontecimentos graves também na banda ocidental do Planeta. Não é fácil caracterizar objetivamente, com medições, esse fenômeno tão multiforme de desestruturação ética que ocorre nos grandes centros capitalistas. Cresce, entretanto, o sentimento e a preocupação com as manifestações de alienação e desinteresse político, de corrupção e de escândalo, de violência e de criminalidade, de desagregação familiar, de apatia da juventude e de consumo de drogas, de rejeição da razão e de adesão a seitas religiosas e pseudociências primitivas. E esse desfazimento acelerado de padrões sedimentados é um fenômeno típico do Primeiro Mundo e da periferia que mais se lhe aproxima.

   Há uma diferença nítida e essencial entre os valores básicos que fundam uma e outra das éticas em confronto: a do socialismo sobre a justiça, a igualdade e a fraternidade, a do capitalismo sobre a utilidade dos resultados em termos de bem-estar material. A liberdade é valor essencial de ambos, apesar das impugnações e mesmo imprecações de lado a lado, a dizer que o socialismo, no real, desprezou-o inteiramente e que o capitalismo, aceitando as diferenças de classe, mutilou a liberdade das massas assalariadas.

   O fato é que as éticas são bem diferentes nos seus fundamentos, e a crítica que o socialismo faz não se dirige apenas à idéia matriz do liberalismo econômico segundo a qual o esforço individual de cada um para a realização do seu bem pessoal produz o bem geral. Há mesmo o reconhecimento de que essa idéia se materializa parcialmente: cada um, elevando a sua capacidade produtiva pelo preparo e pelo esforço, produz um aumento da riqueza global. A crítica vai ao fundo do contem do moral desta racionalização essencialmente utilitarista, que não atende às exigências mais rigorosas de uma ética da razão, que pressupõe a igualdade e a justiça, e de valores humanistas como a fraternidade. Se a crítica mais difundida mostra que, na prática, esse liberalismo econômico, que e o fundamento moral do capitalismo, não produz um benefício para todos, mas freqüentemente enseja uma concentração dos frutos desse progresso em favor de uma minoria que detém o controle dos mecanismos de organização do poder e da produção, outra crítica, em vertente mais profunda, fala do desprezo desta racionalização por valores éticos que são próprios da humanidade e que só podem ser sufocados enquanto o ser humano vive a luta da sobrevivência, a guerra hob-besiana de todos contra todos que se processa na sociedade burguesa.

   O capitalismo é um sistema essencialmente consumiste, onde compulsoriamente o consumo precisa crescer, sob pena de desabamento de toda a estrutura; a ética do capitalismo forçosamente é consumiste e acaba por transformar todos os valores em consumo, em dinheiro, em valores de mercado. O mercado é o centro organizador da sociedade capitalista, e a ética do mercado é a ética do capitalismo.

   A visão socialista, na vertente desta crítica, observa e acredita que se processa um desenvolvimento da humanidade, que vai do econômico ao ético, libertando o homem da imanência e dos carecimentos vitais para afirmar progressivamente esses valores que são eternos. Esse processo, que sobrepassa os projetos e mesmo a consciência individual de cada um, cujo tempo é muito mais largo do que o das gerações humanas e cujas etapas não são perceptíveis senão sob a perspectiva histórica de muito longo prazo, modifica o relacionamento produtivo e existencial entre os homens, levando cada um a ver no outro cada vez menos um concorrente, um competidor, um adversário ou um inimigo, alguém sobre quem se tem de levar sempre alguma vantagem, e cada vez mais um aliado, um sócio, com quem se deve buscar um entendimento, alguém cuja emancipação ou elevação propicia (e não embarga) a própria elevação ou emancipação. E essa elevação já não tem então um significado apenas material, ganhando cada vez mais uma dimensão espiritual e moral como componente indispensável do bem-estar e da felicidade almejada por cada um.

   Nesta chave de compreensão das diferenças, a ética do capitalismo aparece como claramente conservadora, atrasadora, na medida em que afirma a imutabilidade do comportamento humano marcado para sempre por um egoísmo essencial e irredutível; enquanto a do socialismo acredita que esse comportamento se altera segundo um processo de evolução do sentimento moral do ser humano, derivado do desenvolvimento da razão que não é hoje a mesma das cavernas, nem mesmo a das civilizações da Antigüidade. O homem, ser racional contemporâneo, não tolera mais a escravidão, a tortura, as penas cruéis (a própria pena de morte), como repudia frontalmente qualquer espécie de privilégio institucionalizado, de diferença de castas e até mesmo de largas diferenças sociais sedimentadas. Esta ótica vê tais transformações da sensibilidade humana como definitivas e progressivas, como resultado não tanto de pregações religiosas, que muito conviveram com essas condições repudiadas, mas como produto da razão cultivada e desenvolvida. E o socialismo quer ser o Estado da razão, e, por isso mesmo, ético, emancipador e humanista. Quando Hobbes começou a caminhada em busca desse Estado da razão, o intolerável era a angústia da insegurança; hoje, cada vez mais, o intolerável e a angústia da competição frenética no mar de desigualdades.

   Essas considerações em torno da questão ética levam, quando passadas à realidade, à discussão sobre o futuro do Terceiro Mundo.

   É mais que difícil, é impossível acreditar que o capitalismo liberal, que até hoje nenhum resultado de êxito apresentou, possa oferecer uma solução digna a esses bilhões de seres que vegetam na pobreza e na miséria. Até porque é da lógica da ética utilitarista do Primeiro Mundo não querer que tal aconteça-a melhoria dos padrões de vida dessas populações em escala considerável - pelo menos num horizonte de tempo suficientemente distante para que se possam ver realizados avanços técnicos e científicos hoje sequer vislumbrados. Esse querer lógico é o resultado de um simples cálculo de utilidades produzidas globalmente a partir de uma base de recursos naturais do Planeta que não basta para atender às aspirações de todos: se o Terceiro Mundo tivesse hoje padrões de consumo semelhantes aos do Primeiro, os recursos globais rapidamente se esgotariam e a poluição tornaria a Terra verdadeiramente inabitável.

   E como vai ficar isso? África, Índia, Indonésia, América Latina, Brasil, como vão aceitar esta condenação? Esta é a pergunta conspícua na virada do século, prenunciando claramente que o conflito proeminente no mundo dos anos 2000 será o do confronto Norte-Sul, como foi nos 1900 o do Leste-Oeste.

   Pelo que se evidencia, essa realidade, entretanto, ainda não foi conscientizada no Sul e a estratégia adotada nesses países é a de integrar as suas minorias ricas e dominantes no mundo dos ricos e prometer aos pobres uma ascensão futura, sempre adiada e bem policiada. Trata-se de uma estratégia fadada ao fracasso, e o Brasil, inserido nesse dilema, não vai suportar essa imposição pelo tempo que outras nações podem fazê-lo. O salto quantitativo e qualitativo que deu neste século que finda criou-lhe um dinamismo interno insopitável. É um pais que ainda está nos porões da nave planetária cujos convés superiores, as nações ricas, querem manter para elas porque sabem que não dá para todos. Mas esta também é uma questão ética, e o Brasil, por natureza, está destinado a contestá-la.