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Parte III - Temas Específicos Volta índice | |
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Volnei
Garrafa |
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Bioética e Ciência -
Até onde Avançar sem Agredir |
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Os avanços
alcançados pelo desenvolvimento científico e tecnológico nos campos da biologia e da
saúde, principalmente nos últimos trinta anos, têm colocado a humanidade frente a
situações até pouco tempo inima-gináveis. São praticamente diárias as notícias
provenientes das mais diferentes partes do mundo relatando a utilização de novos
métodos investigativos e/ou de técnicas desconhecidas, a descoberta de medicamentos mais
eficazes, o controle de doenças tidas até agora como fora de controle. Se, por um lado,
todas estas conquistas trazem na sua esteira renovadas esperanças de melhoria da
qualidade de vida, por outro criam uma série de contradições que necessitam ser
analisadas responsavelmente com vistas ao equilíbrio e bem-estar futuro da espécie
humana e da própria vida no planeta. Hans Jonas
(1) foi um dos pesquisadores que se debruçou com mais propriedade sobre este tema,
ressaltando a impotência da ética e da filosofia contemporâneas frente ao homem
tecnológico, que possui tantos poderes não só para desorganizar como também para mudar
radicalmente os fundamentos da vida, de criar e destruir a si próprio. Paradoxalmente, ao
mesmo tempo que gera novos seres humanos através do domínio das complexas técnicas de
fecundação assistida, agride diariamente o meio ambiente do qual depende a manutenção
futura da espécie. O surgimento de novas doenças infectocontagiosas e de diversos tipos
de câncer, assim como a destruição da camada de ozônio, a devastação de florestas e
a persistência de velhos problemas relacionados com a saúde dos trabalhadores (como a
silicose) são "invenções" deste mesmo "homem tecnológico", que
oscila suas ações entre a criação de novos benefícios extraordinários e a insólita
destruição de si mesmo e da natureza. Ao contrário do que muitos pensam, a atual pauta
bioética internacional não diz respeito somente às situações emergentes
proporcionadas por avanços como aqueles alcançados no campo da engenharia genética e
seus desdobramentos (projeto genoma humano, clonagem, etc.), mas também às situações
persistentes, relacionadas principalmente com a falta de universalidade no acesso das
pessoas aos bens de consumo sanitário e à utilização eqüânime desses benefícios por
todos os cidadãos indistintamente (2). Considerando estas duas situações, portanto, a
humanidade se vê atualmente às voltas não apenas com alguns velhos dilemas éticos que
persistem teimosamente desde a antigüidade como também com os novos conflitos
decorrentes da marcha acelerada do progresso. Juntamente com seus inquestionáveis
benefícios, a biotecnociência, para utilizar um neologismo proposto por Schramm (3),
pode, contraditoriamente, proporcionar a ampliação dos problemas de exclusão social
hoje constatados. Como impedir, por exemplo, que os conhecimentos recentemente alcançados
sobre as probabilidades de uma pessoa vir a desenvolver determinada doença no futuro,
devida a uma falha em seu código genético (como nos casos da doença de Huntington),
não sejam transformados em novas formas de discriminação por parte das companhias
seguradoras responsáveis pelos chamados "planos de saúde"? (4) Tudo isso se torna ainda mais dramático quando se sabe
que o perfil populacional mundial tem sofrido transformações profundas a partir da
elevação da esperança de vida ao nascer (em anos), aliada ao fenômeno da
globalização econômica que produz uma crescente e insólita concentração da renda
mundial nas mãos de poucas nações, empresas e pessoas privilegiadas. Dentro deste
complexo contexto merecem menção, ainda, o aumento dos custos sanitários através da
criação e expansão de tecnologias de ponta que possibilitam novas formas de
diagnóstico e de tratamento, o recrudescimento de algumas doenças que já estiveram sob
controle (como a tuberculose, febre amarela, dengue, malária e outras), o surgimento de
novas enfermidades (como a AIDS). Segundo o presidente da International Association of
Bioethics, Alastair Campbell, em visita que fez ao Brasil em 1998, "o maior desafio
para a bioética será encontrar uma forma mais adequada de justa distribuição de
recursos de saúde, numa situação crescente de competitividade". Para ele, é
indispensável fugirmos do debate reducionista voltado exclusivamente para os direitos
individuais, preocupando-nos, além do problema mais básico da exclusão social aos novos
benefícios, com o resgate de conceitos mais abrangen-tes relacionados à "dignidade
da vida humana, sua duração, o valor da diversidade na sociedade humana e,
especialmente, à necessidade de se evitar formas de determinismo genético (...)"
(5). Moral,
ética e pesquisa científica Alguns dos principais bioeticistas que têm se dedicado
a estudar a ética e a moral, bem como suas relações com situações que envolvem a vida
no planeta, de uma forma geral procuram considerá-las como sinônimos (6,7,8). Mesmo
assim, nas disciplinas e cursos de bioética que venho ministrando na Universidade de
Brasília e em outras universidades de 1994 para cá, tenho utilizado, para fins
didáticos, alguns parâmetros diferenciais entre as duas. Esta diferenciação se revelou
útil no sentido de uma melhor compreensão de alguns temas mais conflitivos e
fronteiriços da análise bioética, principalmente quando os interlocutores são alunos
dos cursos de graduação. Assim sendo, é inicialmente indispensável comentar
que o termo ética vem do grego ethos e quer dizer "modo de
ser" ou "caráter", no sentido similar ao do "forma(s) de vida(s)
adquirida(s) pelo homem". A palavra moral, por sua vez, deriva
etimolo-gicamente do latim mos ou mores ("costume" ou
"costumes") e quer dizer "alguma coisa que seja habitual para um
povo". Ambas, portanto, têm significado similar. Contudo, foi a partir do latim que
estabeleceram-se as bases do "direito romano". Na Roma Antiga é que criou-se,
historicamente, o que se entende hoje por justiça, no seu sentido formal, através
de leis que foram sendo adaptadas durante os séculos subseqüentes e que até os
dias atuais estabelecem as diferentes formas de relação e regem os destinos de pessoas,
povos e nações. Como os romanos não encontraram uma tradução que
lhes fosse inteiramente satisfatória para o ethos, passaram a utilizar de forma
generalizada o mores, que em português é traduzido por MORAL. Desta forma, a
"boa" ou "correta" normatização passou a ser entendida como aquela
legislação que interpretasse e manifestasse as situações concretas que aconteciam, de
modo mais aproximado aos costumes ou às formas habituais dos cidadãos e das comunidades
procederem nas suas vidas societárias quotidianas. Em resumo, se por um lado o significado etimológico de
ética e moral é similar, por outro existe uma diferença historicamente determinada
entre ambas. Como vimos acima, a moral romana é uma espécie de tradução latina de
ética, mas que acabou adquirindo uma conotação formal e imperativa que direciona ao
aspecto jurídico e não ao natural, a partir da antiga polarização secularmente
verificada, e especialmente forte naquela época, entre o "bem" e o
"mal", o "certo" e o "errado", o "justo" e o
"injusto" (9). Para os gregos, o ethos indicava o conjunto de
comportamentos e hábitos constitutivos de uma verdadeira "segunda natureza" do
homem. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles interpretava a ética como a reflexão
filosófica sobre o agir humano e suas finalidades (10). E é a partir da interpretação
aristotélica que a ética passou, posteriormente, a ser referida como uma espécie de
"ciência" da moral. Na prática, no entanto, a discussão persiste até hoje.
Os códigos de ética profissional, por exemplo, consistem em manifestações
maniqueístas e formais (e muito bem estruturadas, sob o ponto de vista corporativo...)
daquilo que os romanos entendiam por moral. As legislações, de modo geral, também
obedecem conotação semelhante. Dentre as muitas discussões encontradas na literatura
sobre as dife renças ou semelhanças entre moral e ética, merecem destaque as posições
de Joseph Fletcher, de acordo com o qual não deveríamos sentir-nos obrigados por
qualquer regra moral intangível: só o contexto e as conseqüências úteis ou
prejudiciais das nossas escolhas deveriam determinar-nos (11). Segundo Lucien Sève (12),
que analisa as posições de Fletcher, numerosos médicos o apoiaram tomando "a
defesa deste repúdio dos absolutos morais em defesa de um contextualismo de
espírito utilitarista, a partir da expressão ética de situações". Assim,
estabeleceu-se uma distinção, que passou a ser corrente em alguns meios, entre moral e
ética, que recobre o conflito entre a exigibilidade das condutas prescritas por normas
universais e a flexibilidade das decisões adequadas em cada caso singular.
Transportando o foco da discussão para o tema das
investigações científicas, que é o objeto do nosso assunto, é indispensável
assinalar que as regras e as leis que dispõem sobre o desenvolvimento científico e
tecnológico devem ser cuidadosamente elaboradas para, por um lado, prevenir abusos e,
pelo outro, evitar limitações e proibições descabidas. Segundo o filósofo italiano
Eugenio Lecaldano (13), "existe um núcleo de questões que precisam ser reconduzidas
dentro de regras de caráter moral, e não sancionadas juridicamente"; e um outro
"no qual estas questões devam ser rigidamente sancionadas e, portanto,
codificadas". O primeiro aspecto se refere ao pluralismo, à tolerância e à
solidariedade, prevalecendo a idéia de legitimidade (moral). O segundo diz mais
respeito ao direito formal e à justiça, onde prevalece a idéia de legalidade
(ética). Desta forma, dentro do pluralismo moral constatado nos dias atuais, parece-nos
preferível confiar mais no transculturalismo (nas singularidades culturais e nas
diferenças de moralidades verificadas entre pessoas e povos) do que em certas
"verdades universais" e normas jurídicas inflexíveis. Vou ilustrar a diferenciação que percebo entre ética
e moral com um exemplo situado na zona de limites (do que chamo de bioética
"forte" ou bioética "dura") para a tomada de decisões. Uma menina de
rua com apenas doze anos de idade, sem família, prostituta desde os oito anos, natural de
grande capital de uma região pobre do Brasil, procura um médico para auxiliá-la na
realização do aborto. Um detalhe: a menina é HIV positiva. Apesar de ser católico e
saber que no Brasil o aborto, nestes casos, é proibido, o médico decide efetivar o ato,
dizendo, nessa circunstância, estar tranqüilo por não ter pecado contra seu Deus nem
infringido o código de ética médica ou a legislação do país. Esta situação pode
ser caracterizada entre aquelas que Adela Cortina denomina de "ética sem moral"
(14). Ou seja, apesar de existir formalmente uma transgressão legal (ética), pela
infração aos mandamentos católicos, código profissional e legislação brasileira, o
médico tomou partido por uma decisão legítima pautada na sua própria
moralidade, que o impediu de deixar uma situação de limites como esta seguir adiante.
Neste caso, a essência da discussão não deve incidir na decisão específica e
individual do médico, mas na análise mais globalizada da responsabilidade pública do
Estado com relação à sociedade que o mantém e a quadros dramáticos de inadmissível
abandono e injustiça social. A
manipulação da vida e o tema dos "limites" A questão da "manipulação da vida" pode
ser contemplada a partir de variados ângulos: biotecnocientífico, político, econômico,
social, jurídico, moral... Em respeito à liberdade individual e coletiva conquistada
pela humanidade através dos tempos, a pluralidade constatada neste final do século XX
requer que o estudo bioético do assunto contemple, na medida do possível e de forma
multidisciplinar, todas estas possibilidades. Com relação à vida futura do planeta, não deverão
ser regras rígidas ou "limites" exatos que estabelecerão até onde o ser
humano poderá ou deverá chegar. Para justificar esta posição, vale a pena levar em
consideração alguns argumentos de Morin sobre os sistemas dinâmicos complexos. Para
ele, o paradigma clássico baseado na suposição de que a complexidade do mundo dos
fenômenos devia ser resolvida a partir de princípios simples e leis gerais não é mais
suficiente para considerar, por exemplo, a complexidade da partícula subatômica, a
realidade cósmica ou os progressos técnicos e científicos da área biológica (15).
Enquanto a ciência clássica dissolvia a complexidade aparente dos fenômenos e fixava-se
na simplicidade das leis imutáveis da natureza, o pensamento complexo surgiu para
enfrentar a complexidade do real, confrontando-se com os paradoxos da ordem e desordem, do
singular e do geral, da parte e do todo. De certa forma, incorpora o acaso e o particular
como componentes da análise científica e coloca-se diante do tempo e dos fenômenos. Segundo Hans Jonas, o tema da "liberdade da
ciência" ocupa posição única no contexto da humanidade, não limitada pelo
possível conflito com outros direitos (16). Para ele, no entanto, o observador mais
atento percebe uma contradição secreta entre as duas metades dessa afirmação, porque a
posição especial alcançada no mundo graças à liberdade da ciência significa uma
posição exterior de poder e de posse, enquanto a pretensão de incondicionalidade da
liberdade da investigação tem que apoiar-se precisamente em que a atividade de
investigar, juntamente com o conhecimento, esteja separada da esfera da ação. Porque,
naturalmente, na hora da ação toda liberdade tem suas barreiras na responsabilidade, nas
leis e considerações sociais. De qualquer maneira, ainda de acordo com Jonas, sendo
útil ou inútil a liberdade da ciência é um direito supremo em si, inclusive uma
obrigação, estando livre de toda e qualquer barreira. Abordando o tema da "ética para a era
tecnológica", Casals diz que "trata-se de atingir o equilíbrio entre o extremo
poder da tecnologia e a consciência de cada um, bem como da sociedade em seu conjunto:
"Os avanços tecnológicos nos remetem sempre à responsabilidade individual, bem
como ao questionamento ético dos envolvidos no debate, especialmente aqueles que
protagonizam as tomadas de decisões"(16). De acordo com o que já foi colocado anteriormente,
para as pessoas que defendem o desenvolvimento livre da ciência, embora de forma
responsável e participativa, é difícil conviver pacificamente com expressões que
estabeleçam ou signifiquem "limites" para a mesma. O tema, contudo, é de
difícil abordagem e solução. Por isso, enquanto não encontrar uma expressão (ou
iluminação moral suficiente...) que se adeque mais às minhas exatas intenções prefiro
utilizar a palavra "limites" entre aspas, procurando, com esse artifício,
certamente frágil, expressar minha dificuldade sem abdicar de minhas posições. Assim sendo, é necessário que se passe a discutir
sobre princípios mais amplos que, sem serem quantitativos ou "limítrofes" na
sua essência, possam proporcionar contribuições conceituais e também práticas no que
se refere ao respeito ao equilíbrio multicultural e ao bem-estar futuro da espécie.
Nesse sentido, parece-nos indispensável agregar à discussão alguns temas que tangenciam
as fronteiras do desenvolvimento, sem limitá-lo: a pluralidade e a tolerância, a
participação e a responsabilidade; a eqüidade e a justiça distributiva dos benefícios
(18, 19). Diversos setores da sociedade, principalmente aqueles
religiosos e mais dogmáticos, têm traçado uma visão perturbadora, pessimista e
apocalíptica da relação entre a ciência e a vida humana neste final de século. Um dos
documentos mais respeitáveis surgidos nos últimos anos e que contempla a discussão
bioética _ a Encíclica Evangelium Vitae, do Papa João Paulo II _
desenvolve esta linha de pensamento (20). A relação de temas abordados pela Encíclica
papal abrange tudo aquilo que se opõe de forma direta à vida, como a fome e as doenças
endêmicas, guerras, homicídios, genocídios, aborto, eutanásia; tudo aquilo que viole a
integridade da pessoa, como as mutilações e torturas; tudo aquilo que ofenda a dignidade
humana, como as condições subhu-manas de vida, prisões arbitrárias, escravidão,
deportação, prostituição, tráfico de mulheres e menores, condições indignas de
trabalho. A partir desta realidade incontestável o Papa chega a definir o século XX como
uma época de ataques massivos contra a vida, como o reino do culto à morte. A veracidade
destes fatos, no entanto, é maculada pela unilateralidade do julgamento sobre o presente
e pela escuridão apontada para o futuro. A insistência nos aspectos negativos da realidade
obstaculiza uma visão mais precisa e articulada deste século. Sem cair na posição
oposta, deve-se reconhecer que o século XX, apesar das guerras e crimes e de estar se
encaminhando para seu final em clima de incerteza, foi também o século da vida. Foi o
século no qual aprofundou-se o conhecimento científico sobre a própria vida que, sem
dúvida, melhorou em termos de qualidade para a maioria da espécie humana. Foi o século
no qual, pela primeira vez na história, a duração média da vida aproximou-se aos anos
indicados como destino "normal" da nossa espécie; no qual a saúde dos
trabalhadores foi defendida e sua dignidade reconhecida em muitos países; onde vimos
emergir os direitos vitais, jurídicos e culturais das mulheres, que nos séculos
anteriores foram sempre desprezados; em que existiu uma substancial valorização do
corpo; onde as ciências biológicas e a medicina chegaram a descobertas fantásticas,
beneficiando indivíduos e populações. O grande desafio de hoje, portanto, é construir
o processo de inclusão de todas as pessoas e povos como beneficiários deste
progresso. A força da ciência e da técnica está, exatamente,
em apresentar-se como uma lógica utópica de libertação que pode levar-nos a sonhar
para o futuro inclusive com a imortalidade. Tudo isso deveria, pois, desaconselhar as
tentativas de impor uma ética autoritária, alheia ao progresso técnico-científico.
Deveria, além disso, induzir-nos a evitar formulações de regras jurídicas
estabelecidas sobre proibições. É preferível que os vínculos e os "limites"
das leis sejam declinados positivamente e que seja estimulada uma moral autógena, não
imposta mas inerente. Em outras palavras, é necessário que entre os sujeitos
ético-jurídicos não seja desprezada a contribuição daqueles que vivem a dinâmica
própria da ciência e da técnica (os cientistas), sem chegar, todavia, a delegar somente
a estes decisões que dizem respeito a todos. Nesse sentido, é necessário que ocorram mudanças nos
antigos paradigmas biotecnocientíficos, o que não significa obrigatoriamente a
dissolução dos valores já existentes, mas sua transformação: "deve-se avançar
de uma ciência eticamente livre para outra eticamente responsável; de uma tecnocracia
que domine o homem para uma tecnologia a serviço da humanidade do próprio homem (...) de
uma democracia jurídico-formal a uma democracia real, que concilie liberdade e justiça
(21). Trata-se, portanto, de estimular o desenvolvimento da ciência dentro de suas
fronteiras humanas e, ao mesmo tempo, de desestimulá-lo quando essa passa a avançar na
direção de "limites" desumanos. "Endeusamento"
versus "demonização" da ciência Com relação às ciências biomédicas, as reflexões
morais emanadas de diferentes setores da sociedade mostram hoje duas tendências
antagônicas. De um lado, existe uma radical bioética racional e justificativa,
através da qual "tudo aquilo que pode ser feito, deve ser feito". No
extremo oposto, cresce uma tendência conservadora baseada no medo de que nosso
futuro seja invadido por tecnologias ameaçadoras, levando seus defensores à procura de
um culpado, erroneamente identificado na matriz das novas técnicas, na própria ciência.
Neste quadro complexo, a bioética pode vir a ser usada por alguns como instrumento para
afirmar doutrinas anticientíficas e, por outros, ser considerada como um obstáculo
impertinente ao trabalho dos cientistas e ao desenvolvimento bioindustrial; ou ainda como
um instrumento para negar o valor da ciência (ou como validação de posições
anticientíficas) ou, então, para justificá-la a qualquer custo (22). Orientar-se entre
estas duas teses opostas não é tarefa fácil. A novidade e a complexidade são
características inerentes à maioria dos temas bioéticos atuais, dos transplantes às
pesquisas com seres humanos e animais, do projeto genoma à reprodução assistida. Sobre
muitos destes problemas ainda não foram formuladas regulamentações que em outros campos
e em épocas passadas conduziram a comportamentos mais ou menos homogêneos e se
constituíram no fundamento de leis cujo objetivo, mais do que evitar ou punir qualquer
conduta censurável, era o de manter um certo equilíbrio na sociedade. Nos dias atuais, o
desenvolvimento da ciência está sujeito a choques com diversas doutrinas e crenças
existentes, ao mesmo tempo em que as opiniões pessoais também oscilam entre sentimentos
e orientações diversas. Por outro lado, linhas de pesquisa se alargarão no futuro,
alcançando resultados ainda imprevisíveis, enquanto diversos conhecimentos já
adquiridos (como a clonagem) estão hoje apenas na fase inicial de sua aplicação
prática. De acordo com esta ordem polarizada de coisas, o mundo
moderno poderá desaguar em uma crescente "confusão diabólica", ou na
resolução de todos os problemas da espécie humana através do progresso científico. As
duas hipóteses incorrem no risco de alimentar na esfera cultural o dogmatismo, e na
esfera prática a passividade. Se por um lado são inúmeros os caminhos a serem
escolhidos para que a terra se transforme num verdadeiro inferno, são também infinitas
as possibilidades de utilização positiva das descobertas científicas. O embate entre
valores e interesses sobre cada uma das opções é um dado real, inextinguível e
construtivo sob muitos aspectos. A adoção de normas e comportamentos moralmente
aceitáveis e praticamente úteis requer, por todas as razões já expostas, tanto o
confronto quanto a convergência das várias tendências e exigências (23). Pluralidade
e tolerância, participação e responsabilidade, eqüidade e justiça distributiva Enfim, toda esta desorganização de idéias e
práticas comprometem diretamente a própria espécie humana, que se tornou
interdependente em relação aos fatos, ainda que por sorte se mantenha diversificada em
termos de história, leis e cultura. A relação entre interdependência, diversidade e
liberdade poderá tornar-se um fator positivo somente no caso das escolhas práticas e das
orientações bioéticas terem reforçadas suas tendências ao pluralismo e à tolerância.
A intolerância e a unilateralidade, porém, são
fenômenos freqüentes tanto nos comportamentos relacionados às situações persistentes
quanto nas atitudes que se referem aos problemas emergentes surgidos mais
recentemente e que crescem todos os dias. Quanto aos comportamentos, no que se
refere aos problemas persistentes, pode-se citar, por exemplo, o ressurgimento do
racismo na Europa e em outras partes do mundo e cujas bases culturais estão exatamente em
negar o fato de que as etnias pertencem ao domínio comum da espécie humana e em
confundir o conceito de diferença com o de inferioridade. Para as atitudes com
relação aos problemas "emergentes", pode-se recordar a decisão do presidente
norte-americano Bill Clinton de proibir as pesquisas de clonagem com seres humanos e
cortar todo possível auxílio governamental para as mesmas, contrariando as sugestões da
comissão nacional de bioética por ele convocada. O desenvolvimento da ciência pode percorrer caminhos
diversos, utilizar diferentes métodos. O conhecimento é por si só um valor, mas a
decisão sobre quais conhecimentos a sociedade ou os cientistas devem concentrar seus
esforços implica na consideração de outros valores. Da mesma forma, não se pode deixar
de considerar o papel do cientista ou da atividade que ele exerce. Sua responsabilidade
ética deve ser avaliada não só pelo exercício das suas pesquisas em si mas,
principalmente, pelas conseqüências sociais decorrentes das mesmas. Enquanto a ciência,
não sendo ideológica por sua estrutura, pode estar a serviço ou dos fins mais nobres ou
dos mais prejudiciais para o gênero humano, o cientista não pode permanecer indiferente
aos desdobramentos sociais do seu trabalho. Se a ciência como tal não pode ser ética ou
moralmente qualificada, pode sê-la, no entanto, a utilização que dela se faça, os
interesses a que serve e as conseqüências sociais de sua aplicação. Está ainda
inserido nessa pauta o tema da democratização do acesso para todas as pessoas,
indistinta e eqüanimemente, aos benefícios do desenvolvimento científico e
tecnoló-gico (às "descobertas"), uma vez que a espécie humana é o único e
real sentido e meta para esse mesmo desenvolvimento. Dentro ainda do tema da democracia e desenvolvimento da
ciência, não se poder deixar de abordar a questão do controle social sobre
qualquer atividade que seja de interesse coletivo e/ou público. Mesmo em temas complexos
como o projeto genoma humano ou a doação e os transplantes de órgãos e tecidos
humanos, a pluriparticipação é indispensável para a garantia de que os direitos
humanos e a cidadania sejam respeitados. O controle social, através do pluralismo
participativo, deverá prevenir o difícil problema de um progresso biotecnocientífico
que reduz o cidadão a súdito ao invés de emancipá-lo. O súdito é o vassalo, aquele
que está sempre sob as ordens e vontades de outros, seja do rei, seja dos seus
opositores. Esta peculiaridade é absolutamente indesejável em um processo no qual se
pretende que a participação consciente da sociedade mundial adquira um papel de relevo.
A ética é um dos melhores antídotos contra qualquer forma de autoritarismo e de
tentativas espúrias de manipulações. Ainda no que diz respeito à tolerância, Mary Warnock
destacou o princípio segundo o qual a única razão válida para não se tolerar um
comportamento é que este cause danos a outras pessoas, além de quem o adota (24). O
exemplo ao que ela se refere é a legislação sobre embriões, que foi discutida na
Inglaterra durante anos. Com relação ao aborto, é oportuno recordar, na mesma linha de
idéias já abordada em tópico anterior, que existe uma diferença entre seu enfoque
legal e moral. Sobre a legalidade, vários países o reconheceram, objetivando evitar que
ele permanecesse como um fenômeno clandestino, por isto mesmo agravado e impossível de
prevenir. Quanto à moralidade, ele é, de qualquer modo, um ato interruptivo de um
processo vital, ao qual setores da sociedade atribuem significado negativo e outros não.
De qualquer forma, questões complexas como o aborto não encontram respostas
satisfatórias unicamente no âmbito exclusivo do pluralismo e da tolerância, devendo ser
integradas a outros conceitos como a responsabilidade (da mulher, da sociedade e do
Estado) e a eqüidade no seu mais amplo sentido. Considerações
finais É sempre preferível confiar mais no progresso e nos
avanços culturais e morais do que em certas normas jurídicas. Existem, de fato, zonas de
fronteira nas aplicações da ciência. Levando em consideração a velocidade do
progresso biotecnocientífico é, contudo, impossível reconstruir rapidamente certas
referências ou valores que possam vir a ser compartilhados por todos, a menos que se
insista na alternativa da imposição autoritária e unilateral de valores. A solução
está, então, em verificarmos se é possível trabalhar para a definição de um conjunto
de condições de compatibilidade entre pontos de vista que permanecerão diferentes, mas
cuja diversidade não implique necessariamente em um conflito catastrófico ou em uma
radical incompatibilidade (25). É oportuno levantar neste ponto o importante papel
formador desempenhado pela mídia (virtual, impressa, falada e televisionada), que deve
avançar do patamar do simples entretenimento em direção à abertura de debates
públicos relacionados e comprometidos com temas de interesse comum. O grande nó relacionado com a questão da
manipulação da vida humana não está na utilização em si de novas tecnologias ainda
não assimiladas moralmente pela sociedade, mas no seu controle. E esse controle
deve ocorrer em patamar diferente ao dos planos científicos e tecnológicos: o
controle é ético. É prudente lembrar que a ética sobrevive sem a ciência e a
técnica; sua existência não depende delas. A ciência e a técnica, no entanto, não
podem prescindir da ética, sob pena de, unilateralmente, se transformarem em armas
desastrosas para o futuro da humanidade, nas mãos de ditadores ou de minorias poderosas
e/ou mal-intencionadas. O "xis" do problema, portanto, está no fato
de que dentro de uma escala hipotética de valores vitais para a humanidade a ética ocupa
posição diferenciada em comparação com a pura ciência e a técnica. Nem anterior, nem
superior, mas simplesmente diferenciada. Além de sua importância qualitativa no
caso, a ética serve como instrumento preventivo contra abusos atuais e futuros que venham
a trazer lucros e poderes abusivos para poucos, em detrimento do alijamento e sofrimento
de grande parte da população mundial e do próprio equilíbrio biossociopolítico do
planeta. Para que a manipulação da vida se faça dentro do
marco referencial da cidadania, com preservação da liberdade da ciência a partir do
paradigma ético da responsabilidade, existem dois caminhos. O primeiro, por meio de
legislações que deverão ser (re)construídas democraticamente pelos diferentes países,
levando-se em consideração os indicadores acima mencionados e no sentido da
preservação de referenciais éticos estabelecidos em consonância com o progresso moral
verificado nas respectivas sociedades. No que diz respeito a esse tópico, vale a pena
recordar o fracasso representado pela nova legislação brasileira com relação à
doação presumida de órgãos para transplantes. Após a promulgação da lei nos
últimos meses de 1997, a qual em momento algum foi discutida coletivamente e muito menos
aceita pela sociedade do país, o número de doadores mortos passou a diminuir
progressivamente, mês após mês, até que em agosto de 1998 o Ministério da Saúde
decidiu por solicitar ao Congresso Nacional novas discussões objetivando sua alteração.
O segundo, por meio da construção democrática,
participativa e solidária _ pela comunidade internacional de nações _ de uma versão
atualizada da Declaração Universal dos Direitos Humanos, pautada não em proibições,
mas na busca afirmativa da inclusão social, de saúde, bem-estar e felicidade. Uma
espécie de Estatuto da Vida, que possa vir a servir de guia para as questões
conflitivas já constatadas atualmente e para aquelas novas situações que certamente
surgirão no transcorrer dos próximos anos como conseqüência do desenvolvimento. Referências bibliográficas Jonas H . Il principio responsabilità. Un'etica per la
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