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A
macroglossia na arte
Jacob Jordaens (1593-1678)
pintou um caso de macroglossia (lín-gua grande e protrusa) extremamente
ilustrativo e didático no fabuloso quadro O Sátiro e o Campones.
Pintor flamengo nascido em Antuérpia, Bélgica, foi aluno
de Adam van Noort, tendo se casado com a filha deste em 1616. Devido à
qualidade de seu trabalho, continuou pintando para a Igreja Católica
apesar de convertido ao calvinismo em 1648.
A tela O Sátiro e o Camponês tem como motivo uma das fábulas
de Esopo: um homem havia se perdido quando caminhava pela floresta em
uma noite chuvosa. Enquanto vagava, um sátiro - figura mitológica
grega que representa o escárnio - veio ao seu encontro e, percebendo-o
perdido, prometeu dar-lhe abrigo durante a noite e mostrar-lhe o cami-nho
de volta para casa na manhã seguinte. Enquanto seguia o sátiro,
o homem levou as mãos à boca e as soprou. "Por que
você está fazendo isso?", perguntou o sátiro.
"Minhas mãos estão dormentes com o frio", disse
o homem, "e minha respiração as aquece."

O
Sátiro e o Camponês.Jacob Jordaens (1593-1678)
Logo em seguida, chegaram à casa do sátiro e, de imediato,
este serviulhe um fumegante prato de sopa. Quando o homem levou a colher
de sopa àboca, começou a soprá-la. "Por que
você está fazendo isso-", perguntou o sátiro.
"A sopa está muito quente e minha respiração
vai esfriá-la", respondeu. "Vá-se embora!",
exclamou o sátiro. “Eu não tenho nada a fazer por alguém
que pode soprar quente ou frio com o mesmo ar que respira", sentenciou.
A fábula tem como moral uma crítica à hipocrisia.

Pormenor
de O Sátiro e o Camponês
A criança que posou para a pintura nos braços de sua mãe
chama a atenção por apresentar macroglossia. Certamente,
o artista não teve a intenção de documentar tal língua
como um sinal clínico. Tamanha casualidade, contudo, deu um charme
médico à obra O Sátiro e o Camponês.
Macroglossia ocorre, dentre outros, no hipotireoidismo congênito,
na síndrome de Down, na amiloidose e na síndrome nefrótica.
Provavelmente, na tela foi retratado um caso de hipotireoidismo congênito,
haja vista que a criança apresenta um infiltrado mixedematoso na
face. Os dedos da mão são curtos, não há hipotonia
muscular, as fendas palpebrais são normais e parece não
haver pescoço alado (excesso de pele nucal).
A posição da criança de perfil e o fato de estar
vestida e usando gorro impossibilitam averiguar a normalidade de seus
pavilhões auriculares, a ocorrência de hipertelorismo e a
presença de hérnia umbilical.
Sátiro é uma personagem monstruosa, com pés de cabra
e despido, citado por Esopo aproximadamente 600 anos a.C.O tabulista era
corcunda, gago e extremamente feio. Por haver revelado as fraudes cometidas
pelos sacerdotes de Apolo, foi condenado por um roubo forjado para incriminá-lo,
recebendo como sentença ser lançado de um rochedo.
A macroglossia pintada por Jordaens nos remete a uma outra fábula
de Esopo. Certa vez, o senhor Xanto encarregou Esopo de comprar no mercado
o que havia de melhor para o almoço. Ele comprou muitas línguas
e as preparou de várias maneiras. Xanto e seus convidados logo
enjoaram dos pratos servidos. "Tem comida melhor que língua-",
indagou Esopo, acrescentando: "Língua é a razão
da vida. Por meio dela, instrui-se, persuade-se, domina-se nas assembléias
e cumpre-se o primeiro de todos o mandamento, que é louvar a Deus.""Está
bem", disse Xanto tentando erubaraçá-lo, "amanhã
compre o que houver de pior para o almoço." Esopo novamente
comprou várias línguas, preparouas e, para surpresa de Xanto,
assegurou que língua era a pior coisa que havia no mundo. Explicou:
"É a mãe de todos os problemas, de todos os processos,
a fonte de discórdias e das guerras e objeto da calúnia."
Assim, as línguas de Esopo ficaram célebres por mostrar
que, pelo mesmo meio pelo qual se louva os deuses, pode-se também
blasfemar. Em outras palavras, tudo na vida pode ser visto por pelo menos
dois ângulos e tudo dá margem ao louvor ou à crítica.
Os fatos dependem do ponto de vista de quem os vê e podem ter, no
mínimo, duas versões.
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