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Picasso,
ciência e Caridade
Quando se
fala em Pablo Picasso (1881-1973), as primeiras lembranças que
vêm à mente são o cubismo e os quadros Les Demoiselles
d'Avignon (1907) e Gueraica (1937). Entretanto, seu mais belo quadro -
pelo menos para as pessoas que atuam na área de saúde -é,
sem dúvida, Ciência e Caridade (1897), a segunda grande obra
do período de formação do artista.

josé
Ruiz Blasco, pai de Picasso , que aos 59 anos de idade posou como o médico
de Ciência e Caridade.Fotografia
Desde cedo Picasso foi influenciado pelo pai, José Ruiz Blasco
(1838-1913), que era professor de pintura e desenho. Provavelmente pensando
no lado comercial, José Ruiz incentivou o filho a pintar temas
convencionais que agradavam na época, como paisagens e retratos,
individuais ou em grupo.
Por sugestão temática do pai, Picasso pinta, com apenas
16 anos de idade e estudando na Escola de Belas-Artes La Lonja, em Barcelona,
a tela Ciencia e Caridade, que nos revela uma surpresa após outra
dobre a vida pessoal do pintor.O quadro mostra uma mulher gravemente enferma,
acometida de tuberculose. Sua mão direita pende da cama e está
cianosada. Note-se que ele pinta a mão bastante avantajada, lembrando
aos admiradores da arte a desproporcional mão de Davi na célebre
escultura de Michelangelo Buonarroti (1475-1564).

Ciência
e Caridade (1897).Pablo Picasso (1881-1973).Óleo sobre tela, 197
x 249,5 cm.Museu Picasso (Barcelona)
A obliqüidade da cama dá uma perspectiva de profundidade ao
quarto. A cabeça da criança é desproporcionalmente
grande. A explicação está na intenção
do pintor de valorizar a presença dela na cena, onde há
somente adultos, transmitindo de forma mais contundente a angústia
da mãe diante da iminência da morte, sabendo que deixará
a filha órfã para ser criada por outros.

Lola,
a Irmã de Picasso (1899), também chamado Lola Diante de
uma Janela. Pablo Picasso (1881-1973).Óleo sobre tela , 151 x 100
cm .Museu Picasso (Barcelona)
No lado oposto do leito está uma freira amparando a filha da doente
enquanto lhe serve chá. O médico ninguém mais é
do que
o próprio pai de Picasso, cujo retrato já havia sido pintado
por ele com sucesso (Retrato do Pai do Artista, de 1896). Certamente,
o jovem Picasso não dispunha de recursos para pagar modelos.
Essa certeza se confirma quando descobrimos que a irmã de Picasso,
Dolores Ruiz Picasso - apelidada carinhosamente por ele de "Lola"
-é quem posa como a paciente quase sem vida. Também o hábito
da freira, de quem nada se sabe, foi tomado emprestado de um convento.
A criança foi alugada de uma mendiga em troca de algum dinheiro.
Pode-se observar que, no quadro, o avanço da ciência é
representado pela maneira ética, profissional, responsável
e, sobretudo, carregada de afeto com que o doutor presta o atendimento.
A caridade religiosa e filantrópico é evidenciada na presença
da freira servindo a paciente e amparando sua filha prestes a se tornar
órfã. Aqui surge outra curiosidade: a criança entrou
na composição pictórica como forma de trazer à
lembrança da família Picasso a garotinha Conchita (Concepción),
irmã do pintor, morta em conseqüência de difteria em
1891, com apenas quatro anos de idade.
Ciencia e Caridade ganhou menção honrosa na Exposição
Nacional de Arte de Madrid. Esse fato facilitou o ingresso de Picasso
na Academia Real de Artes São Fernando, na capital espanhola, onde
estudou até 1898, tendo abandonado o curso por haver adoecido gravemente
de escarlatina. O quadro recebeu também medalha de ouro na Exposição
Provincial de Belas-Artes de Málaga.
Durante muito tempo, a tela decorou a parede principal da sala de visitas
do tio paterno de Picasso, Dr. Salvador. Conta-se que, na hora do parto,
Picasso foi dado como morto e a parteira dedicou-se a cuidar apenas da
parturiente, Maria Picasso y Lopez. Chamado às pressas, o Dr. Salvador
salvou o sobrinho, que por pouco não morreu asfixiado com secreção
e líquido amniótico. Ciencia e Caridade, nome dado por José
Ruiz Blasco à obra, é atualmente a peça mais importante
do acervo do Museu Picasso, em Barcelona.
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